A produtora de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, aparece novamente cercada por suspeitas envolvendo empresas, ONGs, contratos públicos e estruturas societárias pouco transparentes. Segundo o Metrópoles, dados da Receita Federal mostram conexões entre entidades ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment e presidente do Instituto Conhecer Brasil, organização investigada por contratos milionários com o poder público.
O caso reforça uma pergunta que acompanha o filme desde que o projeto entrou no radar das autoridades: como uma produtora sem trajetória relevante no cinema nacional conseguiu se vincular a uma obra internacional de alto custo sobre Bolsonaro, ao mesmo tempo em que entidades ligadas à sua responsável acumulavam contratos públicos sob suspeita?
A Go Up Entertainment declarou gasto de cerca de R$ 75 milhões com o filme, segundo perícia privada anexada a uma investigação envolvendo o Instituto Conhecer Brasil. O orçamento inicial aprovado teria sido de aproximadamente R$ 89,7 milhões.
O Instituto Conhecer Brasil também é alvo de investigação sobre contrato com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de Wi-Fi gratuito em comunidades. A Agência Brasil informou que a ONG teria apresentado ao município pelo menos R$ 16,5 milhões em notas fiscais consideradas irregulares, dentro de um contrato que previa a implantação de 5 mil pontos de acesso.
A Agência Pública revelou ainda que auditoria do TCU já havia classificado o Instituto Conhecer Brasil como entidade “de fachada” em 2012. Anos depois, a mesma organização firmou contrato de R$ 108 milhões com a gestão Ricardo Nunes, posteriormente aditado para mais de R$ 157 milhões, apesar de ter entregue apenas parte dos pontos inicialmente previstos.
A Folha também mostrou que empresas e associações ligadas a Karina Ferreira da Gama — entre elas o ICB, a Conhecer Brasil e a Go Up — registravam na Receita Federal o endereço de um escritório virtual na Avenida Paulista. O dado aumenta a pressão sobre a estrutura empresarial que orbita o filme e levanta dúvidas sobre capacidade operacional, governança e rastreabilidade financeira.
O ponto politicamente mais sensível é que Dark Horse deixou de ser apenas um projeto audiovisual. O filme passou a operar como símbolo de uma rede que mistura bolsonarismo, dinheiro privado, contratos públicos, entidades sem fins lucrativos e suspeitas de uso irregular de recursos.
Até o momento, os envolvidos negam irregularidades. Flávio Bolsonaro já afirmou que a investigação sobre a produtora “não tem nada a ver com o filme”. A produtora também nega que recursos públicos tenham financiado a obra.
Ainda assim, a sequência de revelações torna o caso cada vez mais incômodo para a direita. Uma cinebiografia criada para projetar Bolsonaro como personagem heroico acabou se transformando em vitrine de perguntas sobre financiamento, bastidores empresariais e eventuais conexões entre propaganda política e dinheiro público.
No centro da controvérsia está uma questão objetiva: Dark Horse foi apenas um filme privado ou parte de uma engrenagem maior de influência política, contratos públicos e movimentação financeira nebulosa?
Enquanto essa resposta não aparece, cada novo dado da Receita, da polícia e dos órgãos de controle amplia a sombra sobre a produção — e transforma o filme em mais um problema para o bolsonarismo antes de 2026.


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