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BC aprovou transferência de controle bancário a ex-sócio do Master durante investigação sobre consignados

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O Banco Central autorizou, em julho de 2025, a transferência do controle de uma instituição financeira para Augusto Lima, ex-sócio relevante do Banco Master, enquanto avançavam investigações sobre suspeitas de irregularidades envolvendo a venda de carteiras de crédito consignado atribuídas ao banco. As informações constam de reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, com base em documentos do regulador e decisões judiciais analisadas pelo jornal.

Segundo a apuração, a autorização foi concedida em 24 de julho de 2025 e permitiu que Lima assumisse o controle do Banco Voiter, antigo Indusval, que estava sob domínio do próprio Master desde fevereiro de 2024. Após a mudança, a instituição passou a se chamar Banco Pleno, com foco no atendimento a empresas, e seguiu operando normalmente. Posteriormente, após a prisão de Lima, o Banco Central determinou seu afastamento das atividades cotidianas do banco, que continuou em funcionamento.

A reportagem informa que o Banco Central já havia encaminhado ao Ministério Público Federal, em 15 de julho de 2025, uma representação relatando indícios de crimes relacionados às operações do Banco Master. O envio ocorreu nove dias antes da autorização para a transferência do controle da instituição a Lima.

O alerta interno no Banco Central teria sido acionado em março de 2025, após a identificação de um fluxo considerado atípico de R$ 12,2 bilhões do Banco Regional de Brasília (BRB) para o Master, referente à compra de carteiras de crédito consignado nos primeiros meses daquele ano. Diante da movimentação, o regulador solicitou esclarecimentos sobre a origem dos créditos. Em resposta, o Master afirmou que as carteiras teriam sido originadas por duas associações de servidores públicos da Bahia, a Asteba e a Asseba, que ofereceriam consignado a seus associados em parceria com o banco.

Após análise, o Banco Central concluiu que as entidades não apresentavam capacidade operacional compatível com os volumes negociados e voltou a questionar o Master. Em nova manifestação, o banco informou que havia firmado, em janeiro de 2025, parceria com outro agente para a oferta de consignados. A partir desse ponto, segundo a reportagem, o regulador identificou uma sequência adicional de irregularidades nas operações.

As investigações culminaram, em 17 de novembro, na prisão de Augusto Lima e de executivos do Banco Master, incluindo o controlador Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero. Todos foram soltos posteriormente e passaram a utilizar tornozeleira eletrônica. Depoimentos à Polícia Federal foram agendados entre os dias 26 e 28 de janeiro.

Na decisão que autorizou as prisões, o juiz federal Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília, apontou indícios de que as associações baianas teriam sido utilizadas para sustentar uma versão considerada falsa sobre a origem das transferências financeiras. Segundo o magistrado, Lima teria controle indireto sobre as entidades, com procurações para representá-las perante instituições financeiras, além de outros vínculos identificados pela autoridade policial, como o compartilhamento de telefone de contato com empresa de sua propriedade registrada na Receita Federal.

De acordo com a apuração, as associações Asteba e Asseba também foram alvo de mandados de busca e apreensão. A decisão judicial menciona que a atuação de Lima teria sido relevante para a viabilização das operações investigadas, envolvendo a captação e posterior cessão de créditos ao BRB.

A reportagem descreve Augusto Lima como empresário de Salvador, com atuação no setor financeiro e trânsito político na Bahia. Ele é casado desde 2024 com Flávia Peres, ex-ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República no governo Jair Bolsonaro. Sua entrada no segmento de consignados teria se intensificado após a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), em 2018, quando participou da reestruturação de um cartão de compras que deu origem ao produto Credcesta, voltado a servidores públicos.

Ainda segundo o texto, Lima firmou acordo com o Banco Master em 2018 para compartilhamento do Credcesta e tornou-se sócio da instituição em 2020, sendo apontado como figura central na expansão do consignado. Em 2024, demonstrações financeiras do banco destacavam crescimento da base de crédito consignado federal. A estratégia de venda de carteiras para reforçar a liquidez teria se intensificado no fim daquele ano, gerando reclamações, especialmente na Bahia, de clientes que afirmavam não reconhecer contratações repassadas ao BRB.

Em outubro de 2025, o INSS suspendeu o convênio do consignado originado pelo Master, citando irregularidades como elevado volume de reclamações e descumprimento de normas, incluindo a ausência de autorização expressa dos tomadores.

Especialistas ouvidos pela Folha afirmaram que não há fórmula fixa para a análise de transferências de controle de instituições financeiras, mas que casos envolvendo ex-sócios sob investigação exigem maior cautela. O Banco Central declarou, por meio de sua assessoria, que não comenta casos específicos em razão do sigilo legal e sustenta que as decisões seguem a resolução do Conselho Monetário Nacional nº 4.970, de 2021, que estabelece critérios para mudanças de controle, incluindo a análise de antecedentes dos compradores.

A defesa de Augusto Lima afirmou que as operações investigadas ocorreram após sua saída do Banco Master, em maio de 2024, e que não há vínculo entre sua atuação profissional e os fatos apurados. A reportagem registra, contudo, divergências entre decisões judiciais, que o qualificam como sócio e diretor, e a versão apresentada pelos advogados. O acordo de saída, assinado em 28 de maio de 2024, previa a transferência de participação acionária ao controlador Daniel Vorcaro, mediante cumprimento de condições contratuais.

No mesmo dia em que autorizou a transferência do Voiter para Lima, o Banco Central negou pedido semelhante feito por outro ex-sócio do Master, Maurício Quadrado, por falta de comprovação de capacidade financeira e da origem lícita dos recursos, segundo documento citado pela reportagem. O caso segue sob investigação.

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