A retomada do discurso expansionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em torno da Groenlândia tem provocado uma reação incomum dentro do Partido Republicano. Parlamentares conservadores, inclusive nomes historicamente alinhados à Casa Branca, passaram a expressar críticas públicas e alertas sobre os riscos políticos, diplomáticos e estratégicos de uma eventual tentativa de controle do território, que integra o Reino da Dinamarca, aliado dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A dissidência ganhou visibilidade após reportagens do jornal britânico The Guardian detalharem como o tema voltou ao centro do debate político em Washington. O assunto foi reavivado depois que Trump voltou a mencionar a Groenlândia em declarações recentes, em um contexto marcado pela operação norte-americana na Venezuela que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e por uma retórica mais assertiva do governo dos EUA no cenário internacional.
Embora o Partido Republicano costume manter coesão em torno do presidente, especialmente em temas de política externa, o caso da Groenlândia tem estimulado manifestações mais diretas. Pesquisas de opinião indicam ampla rejeição da população americana à ideia de anexação do território, enquanto autoridades dinamarquesas afirmam que qualquer tentativa de ocupação representaria, na prática, um rompimento grave dentro da Otan, com impactos profundos na arquitetura de segurança do Atlântico Norte.
Um dos posicionamentos mais contundentes partiu do senador Thom Tillis, da Carolina do Norte. Em discurso no plenário do Senado, Tillis classificou a proposta como “absurda”, ao afirmar que “a ideia de os Estados Unidos adotarem a posição de que tomariam a Groenlândia, um território independente dentro do Reino da Dinamarca, é absurda”. Ele acrescentou que o debate ignora o histórico de boa relação entre os Estados Unidos e a população local, observando que “o povo da Groenlândia, até estes tempos recentes, era muito pró-americano e favorável à presença dos EUA”.
Na Câmara dos Representantes, o deputado Don Bacon, do Nebraska, adotou tom ainda mais direto. Em entrevista ao Omaha World-Herald, afirmou que uma escalada concreta das ameaças poderia ter efeitos devastadores para o próprio governo. “Se ele levasse essas ameaças adiante, acho que seria o fim da presidência dele”, disse Bacon. Segundo o deputado, caberia aos republicanos impor limites claros: “Ele odeia ouvir um não, mas, neste caso, acho que os republicanos precisam ser firmes”.
O ex-líder republicano no Senado Mitch McConnell também se posicionou contra a iniciativa. McConnell comparou os potenciais danos da proposta ao desgaste sofrido pelo governo de Joe Biden com a retirada das tropas do Afeganistão, em 2021. Para ele, insistir na ideia de controlar a Groenlândia seria “mais desastroso para o legado do presidente do que a retirada do Afeganistão foi para seu antecessor”. O senador alertou que a medida poderia “incinerar a confiança duramente conquistada de aliados leais”, sem trazer ganhos concretos para o acesso estratégico dos Estados Unidos ao Ártico.
Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem reiterado uma postura expansionista em declarações públicas, chegando a mencionar a possibilidade de anexação do Canadá, do Canal do Panamá e da Groenlândia. O discurso havia perdido espaço nos últimos meses, em meio à queda de popularidade do governo, impulsionada por preocupações com o custo de vida e críticas à política migratória fortemente militarizada. O tema, no entanto, voltou à agenda após a operação bem-sucedida na Venezuela, que reforçou a imagem de força do governo junto à sua base.
Na Europa, as declarações do presidente norte-americano provocaram reação imediata. Tropas da França, Alemanha, Reino Unido, Noruega e Suécia desembarcaram na Groenlândia nesta semana, em uma demonstração de apoio político à Dinamarca. Autoridades envolvidas descreveram a iniciativa como um gesto simbólico, mas também como uma missão exploratória para avaliar a viabilidade de uma presença militar prolongada no território.
Apesar de uma reunião entre representantes da Groenlândia e da Dinamarca com Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio, não houve mudança na posição do governo dos Estados Unidos. Após o encontro, Trump voltou a afirmar que os EUA “precisam” da Groenlândia por razões de segurança nacional e chegou a ameaçar a imposição de tarifas contra países que se oponham à sua campanha.
Mesmo mantendo o apoio da maioria dos republicanos, o presidente tem enfrentado fissuras pontuais. Recentemente, após o Senado avançar uma resolução que exigiria notificação prévia ao Congresso antes de novos ataques à Venezuela, Trump criticou publicamente cinco senadores republicanos que apoiaram a medida ao lado dos democratas. Dias depois, dois desses parlamentares mudaram seus votos, barrando a proposta.
Outros republicanos também expressaram reservas quanto à estratégia envolvendo a Groenlândia. A senadora Lisa Murkowski, do Alasca, declarou durante visita a Copenhague que não considera a ideia viável e defendeu o fortalecimento da parceria com o território. “A Groenlândia precisa ser vista como nossa aliada, não como um ativo”, afirmou.
Até mesmo aliados próximos de Trump demonstraram desconforto com os efeitos da retórica sobre a Otan. O deputado Mike Turner, de Ohio, escreveu que é fundamental respeitar a soberania da Dinamarca e da Groenlândia, destacando a importância das relações transatlânticas. Já o senador John Kennedy, da Louisiana, afirmou à CNN que invadir a Groenlândia, um território aliado, seria “estupidez de nível militar”, acrescentando que não acredita que Trump siga esse caminho.
O episódio expõe uma das raras situações em que o discurso do presidente dos Estados Unidos encontra resistência explícita dentro de seu próprio partido, especialmente em um tema sensível de política externa que envolve aliados estratégicos e a estabilidade do sistema internacional.


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