Estratégia da União Europeia trata chips como questão de soberania, empregos qualificados e segurança de hospitais, usinas e redes elétricas
A União Europeia se prepara para dar um passo decisivo na regulação e no fortalecimento do setor de drones. Na próxima semana, o bloco deve apresentar uma nova estratégia que coloca os “semicondutores confiáveis” no centro dos sistemas usados tanto em aplicações civis quanto de defesa. A iniciativa busca reduzir riscos de sabotagem, adulteração e ataques cibernéticos, além de impulsionar a capacidade produtiva europeia em um setor cada vez mais estratégico.
Segundo informações divulgadas pela Bloomberg, a proposta ainda está em fase de ajustes. Mesmo assim, o plano sinaliza uma resposta direta a um cenário de crescentes tensões geopolíticas e de vulnerabilidades no espaço aéreo europeu. A ideia é clara: sem controle tecnológico e segurança digital, não há soberania nem proteção efetiva de infraestruturas críticas.
Nos últimos meses, a UE passou a tratar o tema dos drones como prioridade. O motivo é o aumento de incidentes envolvendo violações do espaço aéreo do bloco. Em setembro, caças da OTAN derrubaram 19 drones russos que cruzaram o espaço aéreo da Polônia. O episódio marcou um precedente histórico, já que foi a primeira vez que um país da aliança abateu uma aeronave militar em seu território desde o início da invasão russa em larga escala da Ucrânia, em 2022.
Diante desse contexto, Bruxelas decidiu acelerar respostas. Além disso, autoridades europeias avaliam que a dependência de componentes tecnológicos pouco auditáveis representa um risco estrutural. Por isso, a defesa de chips seguros e resistentes a ameaças digitais ganhou espaço no debate político e industrial.
A nova estratégia defende o uso de semicondutores projetados para resistir a adulterações físicas e ataques cibernéticos. Na prática, isso significa exigir padrões mais elevados de segurança nos componentes que controlam drones, desde os usados em inspeções civis até os empregados em operações militares.
Além de aumentar a segurança, a medida também dialoga com a agenda industrial europeia. Ao priorizar chips confiáveis, a UE busca estimular inovação interna, reduzir dependências externas e fortalecer cadeias produtivas locais. Assim, segurança e política industrial caminham juntas, com foco em empregos qualificados e autonomia tecnológica.
Regulamentação e proteção de infraestruturas críticas
Outro eixo central do plano envolve a adaptação das regras existentes. A Comissão Europeia pretende revisar regulamentações para enfrentar ameaças específicas trazidas pelos drones, especialmente no que diz respeito à proteção de infraestruturas críticas, como redes de energia, transporte e comunicações.
Nesse sentido, a estratégia propõe avaliações sistemáticas de segurança e medidas preventivas contra intrusões aéreas. O objetivo é ampliar a resiliência do bloco, ao mesmo tempo em que se cria um ambiente regulatório mais claro para empresas e autoridades nacionais.
A UE também planeja acelerar a aliança para drones com a Ucrânia, anunciada anteriormente, mas ainda não colocada em prática. No ano passado, a Comissão Europeia chegou a propor a criação de uma “barreira antidrones”, ideia que encontrou resistência em alguns Estados-membros. Ainda assim, o bloco avançou ao antecipar 6 bilhões de euros de um empréstimo do G7 para apoiar uma aliança antidrones com Kiev.
Agora, a nova estratégia pretende transformar essas intenções em ações concretas. Antes do verão europeu, a Comissão deve convocar um fórum industrial para ampliar a produção de drones. Além disso, o plano prevê a criação de um centro de pesquisa e desenvolvimento em defesa antidrone até o início de 2027.
Para reforçar a cooperação interna, a UE quer lançar exercícios anuais de segurança contra drones. Esses treinamentos devem testar protocolos, melhorar a coordenação e preparar respostas conjuntas a situações de risco. Paralelamente, o bloco planeja criar equipes de resposta rápida para emergências envolvendo drones até o outono europeu.
Essas equipes terão a missão de atuar de forma integrada entre os Estados-membros, reduzindo o tempo de reação e aumentando a eficácia das ações. A lógica é simples: ameaças transnacionais exigem respostas coletivas e bem coordenadas.
Por fim, a Comissão Europeia deve solicitar que cada país do bloco nomeie coordenadores de segurança de drones. Esses responsáveis vão monitorar a implementação do plano de ação e garantir alinhamento entre as políticas nacionais e a estratégia comum.
O plano também se mantém aberto a parceiros externos. Reino Unido e Noruega aparecem como potenciais participantes, o que reforça a ideia de cooperação regional ampla. Em um cenário global marcado por conflitos e disputas tecnológicas, a UE aposta na coordenação, na regulação e na inovação como caminhos para proteger seu espaço aéreo e seu projeto político.


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