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O Irã não vai cair, diz especialista

“Este é um sistema revolucionário construído para suportar uma contrarrevolução”, afirma Trita Parsi, analista iraniano-americano especializado em política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio. O que ele quer dizer é simples. A República Islâmica não foi desenhada para tempos de paz. Foi desenhada para sobreviver a guerras, sanções, assassinatos seletivos e tentativas de golpe. […]

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Trita Parsi, em entrevista para o podcast One Decision, 4 de março de 2026

“Este é um sistema revolucionário construído para suportar uma contrarrevolução”, afirma Trita Parsi, analista iraniano-americano especializado em política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio.

O que ele quer dizer é simples. A República Islâmica não foi desenhada para tempos de paz. Foi desenhada para sobreviver a guerras, sanções, assassinatos seletivos e tentativas de golpe. Quem aposta no colapso rápido do regime está repetindo o mesmo erro que Washington comete desde o Iraque.

Parsi desenvolveu o argumento em duas entrevistas recentes, uma ao podcast One Decision e outra ao jornalista Owen Jones, nas quais desmonta a fantasia de que bastaria uma escalada militar bem calibrada para derrubar Teerã por implosão.

O Estado iraniano, segundo ele, foi construído com redundâncias e estruturas paralelas exatamente para resistir a esse tipo de pressão. A Guarda Revolucionária (IRGC) existe porque os revolucionários de 1979 não confiavam no exército regular, herdado do Xá. Desde então, o sistema multiplicou camadas de comando, descentralizou decisões e preparou substitutos para cada posto-chave — “até cinco”, diz Parsi.

No One Decision, em conversa com Rosanna Lockwood e Sir Richard Dearlove, ele descreve o que aconteceu depois do que Washington celebrou como “sucesso tático” inicial, incluindo a morte do líder supremo e de figuras da cadeia de comando. O resultado não foi o caos esperado. Parsi diz não ter visto “pausa ou confusão” nas fileiras militares. O líder supremo, afirma, já não estava “operacionalmente envolvido”, e comandantes locais seguiram operando como se o centro nunca tivesse sido atingido.

Há quem em Washington sonhe com uma fissura interna, o exército profissional abandonando a guarda ideológica. Parsi reconhece que o artesh se vê como defensor do país, não do regime, mas alerta para um efeito contrário. Quando os Estados Unidos falam em apoiar separatistas e desmembrar o território iraniano, o exército não tem nenhum motivo para baixar as armas. Pelo contrário. Aquilo é exatamente o tipo de ameaça contra a qual foi treinado para reagir.

E a população? Parsi responde que “não vê sinais” de levante e descreve um país tomado por medo e urgência. Ele menciona a repressão brutal contra protestos anteriores, com internet desligada e “milhares” de mortos, que sinalizou ao país inteiro que a teocracia “não vai cair sem luta”. Teerã estaria esvaziada, muita gente teria saído, e a prioridade imediata seria sobreviver. Ao mesmo tempo, o temor de guerra civil — alimentado justamente pela retórica separatista de Washington — aciona um nacionalismo que o próprio regime não conseguiria produzir sozinho. É o velho paradoxo. O agressor externo acaba fortalecendo o que pretendia destruir.

Parsi é vice-presidente executivo do Quincy Institute for Responsible Statecraft, fundador e ex-presidente do National Iranian American Council e autor de livros sobre a política americana no Oriente Médio. Iraniano de nascimento, criado na Suécia, radicado nos Estados Unidos, ele não é porta-voz do regime teocrático. Mas também não quer ver seu país de origem transformado em escombros por uma aventura militar baseada em ilusões.

Na conversa com Owen Jones, ele afirma que a administração Trump tinha um “Plano A” baseado na expectativa de implosão rápida, um “momento Venezuela”, e que esse plano ruiu em 48 a 72 horas. O que veio depois foi uma busca nervosa por um “Plano B”, com justificativas em mutação e uma retórica voltada a “mostrar controle”. Parsi diz que isso inverte a dinâmica. Mesmo em desvantagem militar, o Irã estaria ditando a geografia, a duração e a intensidade do conflito. Superioridade aérea produz destruição, mas não decide o resultado político de uma guerra.

No One Decision, ele vai além. Descreve um Irã que vê o conflito como existencial e que, por isso, estaria disposto a cruzar “todas as linhas vermelhas”, inclusive atacando países do Golfo que tentaram mediar. A lógica não é derrotar os Estados Unidos e Israel no campo de batalha. É expandir o teatro de operações, desestabilizar mercados e inflação e agravar as fissuras domésticas americanas — sobretudo quando a discussão chega às eleições de meio de mandato. “Eles não precisam derrotar os Estados Unidos ou Israel militarmente”, diz Parsi. Precisam aproximar a presidência de Trump “de um colapso” antes de perderem a guerra.

É nesse ponto que a porta de saída vira o problema central. Parsi afirma que Trump poderia declarar vitória e recuar, mas duvida que escolha esse caminho. Espera que ele siga dobrando a aposta, até considerar tropas terrestres. O mecanismo é velho conhecido da política externa americana. Cada passo cria custos irrecuperáveis e transforma recuo em humilhação, alimentando a espiral de escalada. Do Vietnã ao Iraque, do Afeganistão à Líbia, a história é sempre a mesma. Guerras que começam com promessa de rapidez e terminam como compromisso sem prazo. Se Parsi estiver certo, o maior risco não é apenas errar o diagnóstico sobre Teerã, mas deixar que esse erro dite o ritmo de uma guerra que ninguém, de fato, controla.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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