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“Nunca vivi um tempo semelhante a esse, nem de longe”, diz Celso Amorim

A maior característica dos nossos tempos é a aceleração da história e a total imprevisibilidade das mudanças, analisou Celso Amorim, possivelmente o diplomata mais experiente da história brasileira. A Venezuela, tema que havia motivado o convite para a conferência, já ficou uma coisa antiga diante dos últimos acontecimentos, explicou o ex-chanceler. “Tenho mais de 60 […]

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O embaixador Celso Amorim fez uma conferência na UFRJ, no dia 3 de março de 2026.

A maior característica dos nossos tempos é a aceleração da história e a total imprevisibilidade das mudanças, analisou Celso Amorim, possivelmente o diplomata mais experiente da história brasileira.

A Venezuela, tema que havia motivado o convite para a conferência, já ficou uma coisa antiga diante dos últimos acontecimentos, explicou o ex-chanceler.

“Tenho mais de 60 anos, de alguma maneira, ligado à diplomacia, e nunca vivi um tempo semelhante a esse, nem de longe.”

Mesmo a crise dos mísseis de Cuba, que Amorim viveu com angústia de guerra mundial, era um assunto delimitado, com dois interlocutores que dialogavam e chegaram a uma saída que funcionou para acalmar o mundo. O contraste com o presente é brutal.

Na quarta-feira da semana anterior, a notícia era de progresso nas conversas indiretas entre Estados Unidos e Irã, em Genebra, com mediação de Omã. No sábado, Estados Unidos e Israel lançaram uma grande operação militar e o líder supremo iraniano foi morto.

Amorim destacou o método. A primeira ação foi a morte de um líder. É a primeira vez na história, observou, que os Estados Unidos matam um chefe de Estado como gesto inaugural de um conflito, não como desfecho.

A partir daí, o alastramento regional passa a fazer parte do cenário. É impossível pensar no problema do Irã sem pensar também no problema de Gaza, disse o diplomata. Sem fazer previsões, insistiu que a guerra não vai ser um passeio. O Irã é uma civilização de três mil anos, um país de 90 milhões de habitantes. A ideia de solução rápida ignora a história e subestima as consequências. Basta lembrar o Iraque. Derrubaram Saddam Hussein, e das cinzas nasceu o Estado Islâmico.

Para enquadrar esse tipo de decisão, Amorim recorreu aos gregos. Em Ésquilo, os persas marcham contra a Hélade, e uma das justificativas é atacar para não ser atacado, a lógica da guerra preventiva que ressurge até hoje. A derrota dos persas vem acompanhada de um aviso sobre a hybris. Xerxes quis passar dos limites do ser humano, unindo a Ásia e a Europa por uma ponte de balsas, tentando mudar o que os deuses haviam criado.

A tese que organizou a palestra veio em seguida. O sistema internacional está deixando o cosmos e voltando ao caos. Os gregos, lembrou o ex-chanceler, tinham essas duas palavras para o conjunto do mundo. Caos era a massa disforme original. Quando ela se organiza, vira cosmos, algo com regras. O que vivemos agora é o caminho inverso.

Amorim descreveu o pós-1945 como um conjunto de instituições e normas. As Nações Unidas, o GATT, a OMC. Tudo injusto e assimétrico, mas eram regras. Ao mencionar o tarifaço, deslocou o foco da disputa particular para a destruição do sistema comercial como um todo, e com ela a perda de um terreno onde conflitos podiam ser convertidos em negociação.

Da sua experiência no Conselho de Segurança, trouxe um episódio revelador. O Brasil, sem poder de veto, conseguiu alterar a redação de uma resolução sobre Angola com a mera ameaça de abstenção, porque no pós-Guerra Fria havia um mito do consenso que condicionava o comportamento das potências. Lembrou então La Rochefoucauld. A hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude. Quando até a hipocrisia desaparece, é porque o parâmetro foi descartado. Por isso, sublinhou o efeito de ouvir o presidente de uma grande potência dizer que não segue o direito internacional, mas a própria moralidade.

A soberania reapareceu como problema. Amorim citou Tucídides. Os fortes exercem o poder e os fracos se submetem. Mas lembrou a resposta dos Mélios, que as pessoas costumam omitir. Qual a vantagem de cedermos para ser escravos? A paz, na formulação dele, precisa ser perseguida, mas não a qualquer preço.

No capítulo latino-americano, o diplomata chamou de gritante e aflitivo o caso venezuelano. A forma como Maduro foi retirado do país lembra mais Saddam Hussein do que Allende, disse, porque interferências externas na América Latina sempre existiram, mas vinham por debaixo do pano. A novidade é a exibição do método. Sobre Cuba, falou não de golpe, mas de estrangulamento do povo. Os dois episódios recolocam a lógica do quintal, the backyard, e a confusão entre multipolaridade e áreas de influência.

Multipolaridade, reafirmou Amorim, segue sendo necessária, mas perde sentido quando vira repartição de zonas de poder. É nesse ponto que entrou sua defesa dos BRICS, grupo em cuja criação o Brasil teve papel fundamental. Cada membro está num canto diferente do mundo, não há ali noção de tutela regional. O ex-chanceler contou que, ao encontrar o economista da Goldman Sachs que cunhou o acrônimo, ouviu dele um orgulho evidente. Respondeu que ele havia inventado o nome, mas quem fez o grupo existir foi o Lula, com a ajuda de outros. Para o atual assessor especial da Presidência, os BRICS só servem a um mundo multipolar se essa multipolaridade for também multilateral, com regras e instituições que obriguem os polos a se conterem.

Amorim também levou essa lógica para o poder econômico. Disse que a inteligência artificial é altamente política e não pode ser tratada como questão técnica. Sobre minerais críticos e terras raras, contrapôs a pressa de conceder e exportar à necessidade de primeiro definir o que o país precisa produzir, da bateria de carro elétrico ao armamento moderno capaz de impedir o que aconteceu na Venezuela.

Vivemos um mundo em guerra, disse o diplomata, e com as redes sociais é muito difícil saber o que é verdade. A possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz configura, para ele, guerra total nos meios empregados. E anotou um custo pouco lembrado. A guerra obstrui o debate sobre meio ambiente, desigualdade e outras agendas fundamentais. A saída que reafirmou foi o diálogo como razão de ser da diplomacia. “É o diálogo que pode salvar a humanidade. É o diálogo que é o nome da paz.”

A conferência ocorreu na tarde de 3 de março de 2026, na UFRJ, a convite da Associação de Docentes da universidade (Adufrj). A mesa foi conduzida pela professora Lígia Bahia, diretora da entidade, e pelo professor Michel Gherman, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. O evento foi transmitido pelo YouTube da Adufrj e retransmitido pela Tutaméia.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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Comentários

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bandoleiro

05/03/2026 - 19h29

Celso Amorim e Topo Gigio sao a mesma coisa….kkkkkkkkkk

O que eu quero é Cuba: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/trump-diz-que-cuba-tambem-vai-cair-em-meio-a-crise-energetica-na-ilha,f1ffa1da6942e52df21e8048b57256a86kw4l79z.html

Eu quero é ver os porcos esquerdistas se afogar na propria bilis, a hora ta chegando….kkkkkkkkkkkk

Ugo

05/03/2026 - 18h12

Celso Amorim….kkkkkkkkkkkkkk


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