“Os árabes acreditam em pessoas, não em instituições”, escreveu T.E. Lawrence em Os Sete Pilares da Sabedoria. O oficial britânico que liderou a Revolta Árabe contra os otomanos confessou no mesmo livro que desde o início sabia que as promessas feitas aos árabes pelo Império Britânico seriam papel morto assim que a guerra terminasse. Convenceu-os mesmo assim a lutar, carregando até o fim da vida a vergonha dessa traição. Um século depois, o império mudou de dono, mas o roteiro permanece intacto.
“O objetivo real da guerra é enfraquecer o Irã, remodelar a região e empurrar adiante o processo de normalização, dentro de um contexto mais amplo que também envolve tentativas de impedir a criação do Estado palestino e enfraquecer todo Estado ou instituição que fique ao lado do projeto palestino ou o apoie.” É o que denunciou o ministro das Relações Exteriores de Omã, Sayyid Badr Albusaidi, em encontro com jornalistas locais.
Apesar de toda a propaganda da mídia ocidental tentando jogar o Irã contra as elites árabes, a realidade é que o ataque traiçoeiro dos Estados Unidos ao Irã atingiu em cheio a credibilidade de Washington junto a todas as monarquias do Oriente Médio.
O chanceler foi taxativo: “Omã não vai aderir ao Conselho da Paz e não normalizará relações com Israel.” Os ataques americanos e israelenses contra o Irã, prosseguiu, são apenas mais um episódio de uma perigosa série de violações que ameaçam destruir o quadro jurídico que garantiu proteção e estabilidade aos países da região por décadas. “Existe um plano maior contra toda a região. O Irã não é o único alvo. Muitos atores regionais sabem disso perfeitamente, mas apostam que, se se alinharem aos Estados Unidos, Washington talvez revise suas decisões e orientações.”
Omã segue trabalhando ativamente pelo fim da guerra e pelo retorno à diplomacia, porque a continuação do conflito não serve aos interesses vitais do país, nem aos de seu entorno regional, nem mesmo aos interesses dos próprios americanos.
O ministro alertou ainda que o mundo inteiro pagará a conta, com preços do petróleo em disparada e disrupções graves nas cadeias globais de suprimentos. Avaliou que a guerra pode parar em breve, mas fez um chamado urgente à necessidade de preparar-se para os piores cenários e reconsiderar toda a filosofia de defesa do Golfo, num momento em que cresce o debate público na região sobre a eficácia real dos atuais arranjos de segurança.
As declarações foram reportadas pelo jornal Oman e pelo Middle East Monitor.
Quando um país conservador, produtor de energia e historicamente equilibrado como Omã fala com esta franqueza, vale perguntar: estarão as elites árabes finalmente começando a acordar para os perigos da ambição sionista e do projeto imperial americano na região?
Omã, pelo menos, já entendeu que esse jogo não serve à soberania árabe. Mas e os outros? Quanto tempo levará para que a Arábia Saudita, principal potência da região, compreenda que o plano não poupa aliados e que a submissão a Washington não garante proteção?
Lawrence sabia desde o início que as promessas do Império aos árabes eram uma farsa. Hoje as promessas vêm de outro império, mas o mecanismo é o mesmo: alianças instrumentais, lealdades descartáveis e soberanias sacrificadas. A pergunta é se desta vez os árabes lerão o roteiro até o fim antes que seja tarde demais.


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