A República Islâmica do Irã endureceu o tom contra Washington e afirmou manter o domínio absoluto sobre o estratégico Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta. A advertência foi feita pelo vice-comandante da Marinha do Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica, Saeed Siahsarani, em declarações reproduzidas pela agência iraniana Irna e replicadas pelo portal italiano ANSA.
‘O campo de batalha e o Estreito de Ormuz estão sob nosso controle’, declarou Siahsarani, ao responder a especulações sobre uma eventual operação norte-americana para desembarcar tropas na ilha iraniana de Kharg, principal terminal petrolífero do país. O comandante naval foi categórico ao prometer que ‘nem um grão de poeira’ será retirado do território iraniano por forças estrangeiras.
O oficial avisou ainda que o Golfo Pérsico pode se converter em túmulo das tropas americanas caso o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, opte pela aventura militar. ‘Se os EUA e Trump cometerem um erro, transformaremos o Golfo Pérsico no maior cemitério aquático para as forças americanas’, afirmou Siahsarani.
O comandante também relembrou a capacidade iraniana de estrangular o fluxo global de hidrocarbonetos a qualquer momento. ‘Não é possível que os petroleiros atravessem o Estreito de Ormuz sem a permissão do Irã’, garantiu, acrescentando que, mediante ordem das autoridades de Teerã, ‘não permitiremos que nem um litro de petróleo atravesse’ a passagem.
Em paralelo, o porta-voz do Exército iraniano, Mohammad Akraminia, anunciou que o país não autorizará mais a passagem de armamento norte-americano destinado às bases dos EUA espalhadas pela região. Segundo Akraminia, a porção ocidental do estreito está sob comando da marinha dos Guardiões da Revolução, enquanto a parte oriental é controlada pelas forças navais do Exército regular iraniano.
O movimento ocorre em meio a um cenário de tensão crescente e impasse diplomático entre Teerã e Washington. A República Islâmica sinalizou, pela primeira vez de forma explícita, que pode avançar o enriquecimento de urânio ao patamar de 90%, nível compatível com uso militar, caso a guerra recomece, segundo o porta-voz da comissão de segurança nacional do Parlamento iraniano, Ebrahim Rezaei.
‘Uma das opções, em caso de novo ataque, pode ser o enriquecimento de urânio a 90%’, declarou Rezaei, sinalizando que o tema será debatido no Legislativo. A mudança de postura é apresentada por Teerã como resposta direta à pressão militar e às operações conduzidas por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos.
Do lado norte-americano, Trump tem reunido a cúpula das Forças Armadas para avaliar a retomada de bombardeios contra alvos iranianos. Uma decisão definitiva, porém, é considerada improvável antes de um encontro previsto entre o presidente dos EUA e o líder chinês, Xi Jinping, ocasião em que Trump deve pressionar Pequim a usar sua influência sobre Teerã.
A China desponta como ator central nessa equação, dado seu peso comercial e energético junto ao Irã. A tentativa de Washington de instrumentalizar Pequim como ferramenta de pressão expõe os limites da capacidade norte-americana de impor sua vontade pela força no Oriente Médio.
O quadro reforça a leitura de que a defesa iraniana de Ormuz não é simples retórica, mas resposta concreta a uma escalada militar que já produziu impactos profundos na região. A hidrovia segue como ponto nevrálgico do comércio global de petróleo e como termômetro do pulso entre Teerã e o eixo formado por Washington e Tel Aviv.
Leia também: Irã lança mísseis e drones contra navios dos EUA no Golfo Pérsico após ataques americanos
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João Carlos da Silva
13/05/2026
Maria Aparecida, sua observação sobre quem paga a conta é cirúrgica e me lembrou Gramsci: enquanto a hegemonia do capital petrolífero não for enfrentada, essas bravatas geopolíticas continuarão sendo o teatro que esconde a verdadeira tragédia — a exploração dos povos e do planeta. O que me assusta é ver como a esquerda internacional muitas vezes aplaude o discurso antiamericano do Irã sem questionar o autoritarismo teocrático que também oprime seu próprio povo.
Maria Aparecida
13/05/2026
Enquanto os meninos brincam de guerra com petróleo e mísseis, quem paga a conta é o povo pobre do Oriente Médio e do mundo inteiro. Jesus mandou amar os inimigos e buscar a paz, não transformar o mar em cemitério. E ninguém pergunta por que a humanidade continua refém desse combustível que enriquece meia dúzia e mata multidões.
Gabriel Teen
13/05/2026
Parece que o Irã quer transformar o Golfo Pérsico em cemitério, mas acho que eles vão é virar comida de peixe antes dos EUA chegarem lá.
João Pereira
13/05/2026
A bravata iraniana é previsível e o John Marshall acertou em cheio: é realpolitik pura, mas com risco alto de escalada acidental. O problema é que tanto o regime de Teerã quanto a Casa Branca jogam esse xadrez com peças de fogo real, e qualquer erro de cálculo pode transformar o tal “cemitério” em profecia autorrealizável.
John Marshall
13/05/2026
A retórica iraniana é, antes de tudo, um exercício de realpolitik em um cenário hobbesiano. Teerã sabe que um confronto direto seria sua ruína, mas também entende que a dissuasão, nesse tabuleiro, exige demonstrações de força que beiram a temeridade. O verdadeiro perigo não está na bravata, mas na possibilidade de um erro de cálculo que transforme o Golfo no que eles ameaçam: não um cemitério de tropas, mas um barril de pólvora aceso pela própria lógica da soberania sem freios.
Lucas Gomes
13/05/2026
O comentário do Carlos Henrique Silva tocou num ponto nevrálgico que merece ser aprofundado: a dependência do petróleo como o verdadeiro calcanhar de Aquiles da civilização industrial. Mas é preciso ir além da denúncia da contradição capitalista e enfrentar o elefante na sala que nenhum dos comentaristas mencionou – a catástrofe ecológica que essa geopolítica do fóssil está a produzir. Enquanto discutimos quem controla o Estreito de Ormuz, as plataformas de gelo da Groenlândia estão a derreter a um ritmo que os modelos climáticos mais pessimistas não previam para este século. O Irã ameaça transformar o Golfo em cemitério de tropas americanas, mas o capitalismo petrolífero já transformou o planeta inteiro num cemitério de espécies e ecossistemas.
A retórica iraniana é, claro, uma resposta direta ao cerco econômico imposto pelos EUA desde que Trump rasgou o acordo nuclear – um ato de pura pirataria geopolítica que Joe Biden, com sua falsa diplomacia multilateral, nunca teve a coragem de reverter de fato. Mas o que me incomoda profundamente é ver a esquerda internacional cair na armadilha de tomar partido nessa disputa entre dois modelos de exploração, como se o problema fosse apenas escolher entre o imperialismo ocidental e o teocapitalismo persa. Ambos são igualmente predatórios com seus próprios povos e com o meio ambiente. O Irã, sob o pretexto de resistência anti-imperialista, mantém uma das maiores pegadas de carbono per capita do mundo e sufoca movimentos ecológicos internos que ousam questionar a matriz energética do país.
O que realmente está em jogo aqui não é quem manda no Golfo, mas a nossa incapacidade coletiva de romper com essa lógica suicida. Cada barril que passa por Ormuz carrega não só petróleo, mas a promessa de mais um grau de aquecimento global, mais um povo indígena deslocado na Amazônia ou no delta do Níger, mais uma geração condenada a herdar um planeta em frangalhos. A esquerda ambientalista precisa parar de ver esses conflitos como mero teatro geopolítico e começar a tratar a descarbonização como a única verdadeira luta anticapitalista do nosso tempo. Enquanto não enfrentarmos o poder das petroestatais – sejam elas texanas, sauditas ou iranianas –, estaremos apenas discutindo qual abutre vai bicar a carcaça primeiro. E a carcaça, meus amigos, é o mundo vivo que ainda insiste em resistir.
Carlos Henrique Silva
13/05/2026
A retórica inflamada de Teerã não pode ser lida como mero surto de um regime isolado. Ela é sintoma de uma contradição mais profunda do capitalismo contemporâneo: a centralidade absoluta do petróleo como nervo da acumulação global. Cada ameaça de fechar Ormuz revela, na verdade, a vulnerabilidade estrutural de um sistema que depende de uma geografia específica para lubrificar suas engrenagens. É o que David Harvey chamaria de “fix espacial” – a necessidade incessante do capital de se territorializar em pontos estratégicos, criando, ao mesmo tempo, as condições para crises periódicas quando esses pontos são contestados. O Irã não controla apenas um estreito; controla a válvula de passagem de uma commodity que molda políticas externas, derruba governos e define o preço do pão em São Paulo e em Lagos.
O debate travado aqui nos comentários sobre “exploração própria e livre mercado” versus “intervenção imperialista” é instrutivo, mas peca por uma ingenuidade analítica. A dicotomia entre livre mercado e imperialismo é falsa. Historicamente, como Lênin demonstrou em “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, o capital monopolista nunca operou sem o Estado como fiador de seus interesses. O regime de acumulação baseado no petróleo no Ocidente não é “livre mercado” – é uma simbiose entre grandes corporações e aparatos militares, onde a “liberdade” é a do capital de ditar os termos da exploração. O intervencionismo estatal que João Augusto critica não é uma aberração do modelo liberal; é sua condição de existência. A mesma lógica que levou à invasão do Iraque opera quando o contribuinte subsidia a indústria fóssil, quando barris são cotados em dólar sob proteção da Quinta Frota ou quando regimes são apoiados em troca de contratos de exploração.
A questão energética, portanto, não se resolve com um nacionalismo de extração própria que ignora a natureza transnacional do problema. O verdadeiro nó não é quem explora, mas o que se explora e para quem. A luta pelo controle de Ormuz é, no fundo, uma luta pelo direito de poluir e de concentrar os frutos dessa poluição. Gramsci nos lembra que a hegemonia se constrói não apenas pela força, mas pela capacidade de fazer passar necessidades sistêmicas como interesses universais. A demanda por gasolina barata, tão cara ao comentarista Carlos Mendes, é funcional para a manutenção de uma ordem que transformou o automóvel individual em símbolo de status e o transporte público em sucata, mesmo com todos os alertas da crise climática. Isso leva a uma situação perversa em que o trabalhador, pressionado pela inflação no posto, acaba defendendo a política externa agressiva que garante seu combustível, sem perceber que a raiz de sua angústia está em um modelo de mobilidade e consumo imposto como único caminho possível.
O que a ameaça iraniana escancara é a falência de um projeto civilizatório. A geopolítica do petróleo transforma o Golfo Pérsico em um imenso espaço de exceção, onde a vida de milhões vale menos que a fluidez do tráfego marítimo. Mas a solução não pode ser apenas diversificar fontes ou trocar o xerife pelo caubói. É preciso politizar a demanda, questionar o metabolismo social do capital que exige quantidades crescentes de energia para sustentar uma acumulação irracional. Enquanto o debate permanecer no plano de quem controla a torneira, e não no de por que e para que mantemos essa torneira aberta a pleno vapor, estaremos condenados a ver o Estreito de Ormuz não como um ponto no mapa, mas como uma metáfora da nossa própria servidão voluntária ao petróleo. O cemitério anunciado por Teerã talvez já seja, há tempos, o destino final de qualquer projeto verdadeiramente emancipatório.
Carlos Mendes
13/05/2026
Enquanto o regime iraniano faz bravatas, o preço do barril já subiu 4% só com a ameaça – e quem paga essa conta é o contribuinte na bomba de gasolina. Se o Ocidente tivesse uma política energética séria, baseada em exploração própria e livre mercado, não ficaríamos reféns desses ditadores que usam o Estreito como arma política há décadas. A verdade incômoda é que Washington e Teerã são dois lados da mesma moeda intervencionista, ambos gastando trilhões em aparato militar enquanto a inflação corrói o poder de compra das famílias.
João Augusto
13/05/2026
Carlos, seu lamento contra a dependência energética é justo, mas a solução que propõe — “exploração própria e livre mercado” — apenas troca o xerife pelo caubói, como se a indústria petrolífera ocidental não fosse historicamente um vetor de intervenção imperialista. A verdadeira autonomia viria de uma ruptura com o próprio paradigma fóssil, porque, como já advertia Walter Benjamin, não há documento de civilização que não seja também um documento de barbárie — e cada barril queimado é o atestado de uma guerra de classes global que o preço na bomba apenas dissimula.