A maioria dos brasileiros enxerga a relação entre o governo Lula e o Congresso como marcada mais pelo confronto do que pela colaboração.
Pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S.Paulo mostra que 70% dos entrevistados avaliam que Executivo e Legislativo vivem uma relação de conflito. Apenas 20% dizem ver cooperação entre os dois Poderes. Outros 2% não enxergam nem confronto nem colaboração, enquanto 8% não souberam responder.
O dado é politicamente forte porque mostra que a crise de governabilidade deixou de ser assunto restrito a Brasília. A percepção de bloqueio, sabotagem ou enfrentamento permanente chegou ao eleitor comum, que acompanha derrotas do governo, disputas por emendas, pressões do Centrão e votações que impõem desgaste ao Palácio do Planalto.
O levantamento ajuda a explicar o clima político dos últimos meses. Lula governa sem maioria orgânica no Congresso e depende de negociações constantes com partidos que muitas vezes participam da base, mas atuam como oposição em pautas centrais. O resultado é uma relação instável, em que o governo precisa negociar cada votação como se estivesse atravessando uma crise.
O ápice recente dessa tensão ocorreu com a rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. A derrota foi tratada como um dos maiores reveses políticos do governo no atual mandato e simbolizou a força de um Congresso disposto a impor custo ao Planalto.
A leitura popular captada pelo Datafolha também dialoga com a avaliação do governo. Em outro levantamento, o instituto mostrou que 39% consideram a gestão Lula ruim ou péssima, 30% avaliam como ótima ou boa e 29% classificam como regular. Ou seja, mesmo com desgaste administrativo, a população identifica que parte da dificuldade do governo passa pela relação conflituosa com o Legislativo.
Esse ponto é central. O Congresso não aparece mais apenas como arena de negociação democrática. Para grande parte da população, ele passou a ser percebido como um ator que dificulta a execução do governo, trava agendas e transforma disputas institucionais em obstáculo permanente.
A pesquisa não usa a palavra “sabotagem” na formulação divulgada pela Folha. O que ela mede é a percepção de confronto. Mas, politicamente, quando 70% veem conflito e apenas 20% enxergam colaboração, o recado é claro: a narrativa de que o governo enfrenta resistência organizada no Congresso encontrou terreno na opinião pública.
Essa percepção nasce de uma sequência de embates. Além da derrota de Messias no Senado, o governo enfrentou pressões por emendas parlamentares, derrotas em votações sensíveis, disputa sobre medidas fiscais e resistência de setores conservadores em pautas sociais, trabalhistas e institucionais.
O Congresso atual tem uma composição mais à direita do que a coalizão que elegeu Lula em 2022. Isso cria um choque permanente entre o programa vencedor nas urnas e a correlação de forças dentro do Legislativo. A consequência é um governo obrigado a moderar propostas, ceder espaços e conviver com chantagens políticas recorrentes.
A Genial/Quaest também captou melhora recente na avaliação de Lula. Segundo a pesquisa de maio, a aprovação do trabalho do presidente subiu de 43% para 46%, enquanto a desaprovação caiu de 52% para 49%. O saldo negativo, que era de nove pontos em abril, caiu para três pontos.
Esse movimento sugere que Lula recuperou parte do fôlego mesmo em meio ao conflito institucional. A Quaest também apontou aumento no percentual de brasileiros que disseram ter visto notícias positivas sobre o governo, de 23% para 32%, enquanto os que viram notícias negativas caíram de 48% para 43%.
O problema para o Planalto é transformar essa melhora em força política dentro do Congresso. Popularidade ajuda, mas não substitui voto parlamentar. Sem pressão social organizada, o Legislativo tende a manter o governo em posição defensiva, exigindo cargos, recursos e concessões a cada pauta relevante.
Para Lula, a pesquisa Datafolha oferece um ativo político: a maioria dos brasileiros já percebe que a relação com o Congresso é de confronto. Isso pode permitir ao governo disputar publicamente a responsabilidade por travamentos, derrotas e atrasos em medidas de interesse popular.
Mas também há risco. Se a população vê conflito demais, pode concluir que o governo perdeu capacidade de articulação. Por isso, o Planalto precisa equilibrar duas mensagens: denunciar o bloqueio quando ele existir e, ao mesmo tempo, mostrar que ainda consegue entregar resultados.
A disputa de 2026 passa por esse ponto. Lula tentará apresentar avanços econômicos, programas sociais, geração de empregos e defesa da soberania. A oposição e parte do Congresso tentarão vender a imagem de um governo enfraquecido, incapaz de formar maioria e dependente de acordos frágeis.
O Datafolha mostra que a população já entendeu uma parte do jogo: o governo não atua sozinho. Há um Congresso poderoso, conservador e muitas vezes hostil no caminho.
A pergunta agora é quem conseguirá transformar essa percepção em força política. Se Lula convencer o eleitor de que enfrenta sabotagem para governar, pode reorganizar sua base. Se o Congresso conseguir transferir ao Planalto a culpa pela paralisia, o desgaste continuará recaindo sobre o presidente.
Por enquanto, o número fala alto: sete em cada dez brasileiros veem confronto entre Lula e Congresso. Em Brasília, isso significa que a guerra institucional deixou de ser bastidor. Virou fato percebido pela maioria do país.


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