A primeira pesquisa Datafolha feita inteiramente após a revelação das mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro mostra o impacto das denúncias diretamente no voto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu quatro pontos percentuais de vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na simulação de segundo turno, passando de 45% para 47%, enquanto o adversário caiu de 45% para 43%.
A oscilação supera a margem de erro de dois pontos e ocorre num cenário político profundamente alterado pelas revelações do site The Intercept Brasil. As conversas expuseram pedidos de apoio financeiro do senador a Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção de um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo o levantamento divulgado pelo G1, o Datafolha entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 20 e 22 de maio. A vantagem de Lula fora do empate anterior significa que o escândalo Vorcaro já corrói o eleitorado que o senador mantinha consolidado.
No primeiro turno, o efeito é ainda mais dramático: Lula registra 40% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro cai para 31%. A diferença saltou de três para nove pontos percentuais, afastando qualquer semelhança com o equilíbrio de forças que marcava o início da pré-campanha.
A rejeição ao nome do senador também ultrapassou a do presidente: 46% dos eleitores afirmam que não votariam em Flávio de jeito nenhum, contra 45% que rejeitam Lula. Na rodada de 16 de maio, Lula liderava a rejeição com 47% e Flávio tinha 43%, o que torna a inversão um retrato agudo do desgaste causado pelo caso Vorcaro.
Esse movimento de rejeição pode ser especialmente danoso porque parlamentares do PL vinham apostando na despolarização parcial da imagem de Flávio, tentando afastá-lo das polêmicas mais desgastantes do pai. O escândalo Vorcaro, no entanto, coloca o senador diretamente no centro de uma suspeita de favorecimento financeiro, algo que atinge em cheio a narrativa de renovação.
Quando o Datafolha testa a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) como substituta no cenário de segundo turno, o resultado não melhora para a direita. Lula alcança 48% contra 43% de Michelle, uma diferença de cinco pontos, maior até do que contra Flávio.
No primeiro turno, a fragilidade de Michelle fica ainda mais evidente: ela pontua apenas 22%, enquanto Lula sobe para 41%. O teto baixíssimo da ex-primeira-dama confirma que a direita não tem um plano B competitivo, muito menos um nome capaz de herdar o capital político de Jair Bolsonaro.
A pesquisa também testou os cenários com Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Contra Caiado, Lula marca 48% e o governador goiano fica com 39%, ampliando a vantagem de seis para nove pontos em relação a abril.
Diante de Zema, o presidente tem 48% e o mineiro, 39%, o mesmo distanciamento de Caiado. Em abril, Zema chegava a 42% e Lula a 45%, um empate técnico que agora se desfez com nitidez.
Mesmo com a fragmentação do campo conservador, a pesquisa revela que nenhum nome da direita conseguiu capturar o eleitorado órfão do bolsonarismo tradicional. Caiado e Zema não ultrapassam os 6% no primeiro turno, mesmo no cenário em que Michelle é a cabeça de chapa do PL e divide ainda mais os votos.
O percentual de eleitores que declara voto branco ou nulo no segundo turno permanece em 9%. Embora alto, esse número não cresceu, sugerindo que a ampliação da vantagem de Lula se deu mais pela migração de votos do adversário do que pelo encolhimento do eleitorado que rejeita ambos os polos.
A pesquisa Datafolha desta sexta-feira é peça-chave para entender o ritmo da pré-campanha porque consolida a virada do presidente após um período de empate persistente. O escândalo Vorcaro, que ainda promete novos desdobramentos nas próximas semanas, parece ter furado a bolha protetora que mantinha Flávio Bolsonaro competitivo mesmo sem o pai no palanque.
O senador, que antes se beneficiava da máquina do bolsonarismo e de um eleitorado fidelizado, agora vê seu nome associado a um banqueiro envolvido em negócios nebulosos. Para a campanha de Lula, cada novo ponto conquistado nesse momento é ouro político, porque acontece sem que o governo precise desgastar-se em agendas impopulares ou acirrar a polarização.
Com a desidratação de Flávio, o campo da direita enfrenta um dilema que vai além de nomes: não há herdeiro natural capaz de manter acesa a chama do antipetismo militante sem arrastar junto o passivo de escândalos. E a janela para encontrar um candidato competitivo se fecha a cada pesquisa que mostra Lula à frente com margem segura.
Com informações de G1/Globo.
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