O Tribunal Regional Federal da 1ª Região derrubou a liminar que suspendia os editais do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes para o asfaltamento da BR-319. A rodovia liga Manaus a Porto Velho e o DNIT anunciou que relançará os editais em breve, reacendendo o debate sobre os impactos da obra na Amazônia.
O professor emérito da Fundação Oswaldo Cruz, Renato Cordeiro, publicou artigo na plataforma The Conversation Brasil. O texto, repercutido pelo portal Metrópoles, alerta que a pavimentação do trecho central coloca em conflito dois projetos de país.
Um enxerga o desenvolvimento através do asfalto, enquanto o outro defende a floresta em pé como infraestrutura de segurança climática e sanitária. A obra ameaça a integridade biológica dos povos originários e a segurança global, além de intensificar desmatamento e grilagem.
Cordeiro destaca que o asfaltamento facilita o avanço de ramais ilegais, aumentando o contato humano com hospedeiros silvestres. Essa fragmentação florestal altera o equilíbrio ecológico e eleva o risco de transbordamento viral, quando patógenos saltam de animais para humanos.
A Amazônia abriga milhares de vírus desconhecidos pela ciência, circulando entre a fauna silvestre. Esses patógenos representam perigo maior que microrganismos liberados pelo derretimento do permafrost em outras regiões do planeta.
A abertura de fronteiras em áreas isoladas pode despertar vírus e bactérias contidos em ecossistemas de equilíbrio delicado. Em um mundo hiperconectado, uma mutação em um ramal da BR-319 pode chegar a Manaus em horas e ao resto do mundo em dias.
A rodovia afetará diretamente 69 Terras Indígenas, onde vivem 18 povos, incluindo alguns em isolamento voluntário. Comunidades com históricos imunológicos distintos ficam vulneráveis a doenças como gripe e sarampo, que historicamente causaram efeitos devastadores.
O desmatamento atrai vetores de doenças tropicais, pois altera o regime de águas e forma poças em áreas degradadas. Isso favorece a explosão de casos de malária, leishmaniose e dengue, antes controladas naturalmente nesses territórios.
A mineração ilegal e a grilagem, impulsionadas pela rodovia, desviam cursos d’água e contaminam com mercúrio e metais pesados. A contaminação compromete a base alimentar e a saúde física e cognitiva das futuras gerações indígenas.
Diante da pressão pelo asfaltamento, Cordeiro defende condicionalidades sanitárias inegociáveis. Se o Estado decidir romper o isolamento geográfico da Amazônia, deve preencher antecipadamente o vazio assistencial da região.
O governo precisaria implementar um Plano Estratégico de Saúde para a Calha da BR-319 antes da conclusão da obra. Isso inclui construir hospitais regionais e unidades de pronto atendimento em cidades como Humaitá, Careiro e Manicoré.
A médio prazo, será urgente criar editais e incentivos para atrair médicos, enfermeiros, epidemiologistas e sanitaristas. A atenção básica não pode colapsar sob a demanda de novos trabalhadores e moradores.
Também será fundamental estabelecer postos de monitoramento permanente e laboratórios de fronteira. Esses laboratórios devem realizar sequenciamento genético local, detectando novos patógenos em tempo real.
Os laboratórios devem conectar-se a centros de excelência em Manaus, como a Fiocruz Amazônia, e a instituições como a USP, a UFRJ e o Projeto Orion. Cordeiro reforça a necessidade de fortalecer os Distritos Sanitários Especiais Indígenas.
Isso inclui construir postos dentro dos territórios e garantir transporte aeromédico eficiente para emergências. O custo do asfalto deve incluir o custo da vida, pois a infraestrutura de transportes só será legitimada se precedida por uma infraestrutura humana de cuidado.
A história serve de alerta. A Transamazônica, durante a ditadura militar, resultou na morte de milhares de indígenas e trabalhadores. O Brasil não pode repetir essas tragédias na BR-319.
Ignorar os riscos sanitários da rodovia significa ignorar a defesa da vida. Proteger a floresta e seus povos originários não é apenas preservacionismo, mas uma medida de defesa biológica nacional que o progresso não pode silenciar.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!