Um grupo de 25 estudantes paquistaneses ingressou no Wuhan Technical College of Communications para um programa de um ano focado em comércio eletrônico transfronteiriço, inteligência artificial e treinamento de língua chinesa. A iniciativa ocorre após a visita do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, à China, realizada entre 23 e 26 de maio, que selou a transição para a fase 2.0 do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) com ênfase na digitalização da economia paquistanesa.
Durante a visita de Sharif, foram assinados acordos estratégicos com o grupo Alibaba e traçados planos para o desenvolvimento industrial impulsionado por inteligência artificial. Conforme reportagem do portal Sputnik, o programa de capacitação representa um passo concreto para materializar esses compromissos e atacar a lacuna digital que afeta especialmente as áreas rurais do Paquistão.
O professor assistente da Universidade Islâmica Internacional, Muhammad Imran Saeed Qureshi, avaliou a iniciativa como um avanço significativo para a economia paquistanesa. Destacou que o país sofre com a falta de habilidades computacionais avançadas e de educação digital em muitas regiões, sobretudo nas zonas rurais.
Os estudantes retornarão ao Paquistão com expertise prática em inteligência artificial, comércio eletrônico e comércio digital transfronteiriço. O programa prevê ainda o desenvolvimento de infraestrutura digital localizada, incluindo centros de armazenamento, plataformas de treinamento e ambientes de comércio online.
Modelos chineses de formação profissional estão sendo introduzidos para proporcionar aos jovens paquistaneses experiência prática direta com as tecnologias que movem o comércio global contemporâneo. A expectativa é que esses profissionais atuem como uma ponte digital entre as economias do Paquistão e da China, conectando pequenos produtores locais aos mercados internacionais.
Os setores de exportação paquistaneses — têxteis, artigos esportivos e instrumentos cirúrgicos — devem ser diretamente beneficiados pela chegada desses especialistas. Com conhecimento em plataformas digitais e inteligência artificial aplicada ao comércio, as empresas locais ganham condições reais de competir no mercado global sem depender exclusivamente de intermediários.
A iniciativa se insere na estratégia mais ampla do CPEC 2.0, que desloca o foco da infraestrutura física para a infraestrutura digital e o capital humano. Ao formar jovens diretamente na China e construir centros de treinamento em solo paquistanês, o programa cria um ecossistema de transferência tecnológica que pode ser replicado em outras regiões.


Helton Barros
03/06/2026
Enquanto o Brasil afunda em pautas identitárias e aparelhamento ideológico, China e Paquistão tratam de negócio sério: tecnologia e comércio. É assim que se constrói uma nação forte, com trabalho e estratégia, não com mimimi de lacradores. Falta muito disso por aqui.
Laura Silva
03/06/2026
Helton, sua fala reproduz uma falsa dicotomia que o pensamento neoliberal adora sustentar: de um lado, “pautas identitárias e aparelhamento ideológico” (leia-se: qualquer política que busque reparar séculos de escravidão, genocídio indígena e exclusão estrutural); do outro, “negócio sério e trabalho”. Ora, a China não chegou ao posto de potência tecnológica ignorando suas contradições sociais internas — muito pelo contrário. O Partido Comunista Chinês combinou, nas últimas décadas, uma forte industrialização planejada com políticas de erradicação da pobreza extrema (mais de 800 milhões de pessoas retiradas da miséria), reforma agrária e investimento maciço em ciência e educação pública. Se a China hoje capacita jovens paquistaneses em inteligência artificial, isso não é fruto de um “mimimi de lacradores”, mas sim de décadas de luta para superar o subdesenvolvimento — luta que incluiu, sim, debates ideológicos intensos sobre o papel do Estado, da tecnologia e das classes trabalhadoras.
A visão de que “pautas identitárias” são um desvio do “negócio sério” esconde que o próprio conceito de “nação forte” é forjado em meio a disputas de classe. Nos Estados Unidos, o Vale do Silício só existe porque houve investimento público pesado (DARPA, NASA, bolsas de estudo) e, ao mesmo tempo, uma brutal segregação racial que ainda hoje faz negros e latinos terem acesso muito menor a essas oportunidades. Ignorar o recorte de raça, gênero e classe é justamente o que mantém o Brasil como um país onde o filho do engenheiro estuda nas melhores universidades enquanto a juventude periférica é empurrada para o subemprego ou a criminalização. Chamar de “aparelhamento ideológico” a discussão sobre quem tem direito a ocupar espaços de decisão é um privilégio de quem nunca precisou lutar para ser visto como sujeito histórico.
Por fim, Helton, o que falta no Brasil não é menos “mimimi” e mais “estratégia”. Falta um projeto nacional de desenvolvimento que enfrente a nossa herança colonial e a dependência tecnológica. A China não se desenvolveu virando as costas para os pobres; ao contrário, tratou a pobreza como um problema político central, e não como um “mimimi”. A capacitação de 25 jovens paquistaneses é interessante, mas é ínfima perto dos 1,4 bilhão de chineses que passaram por uma transformação material e ideológica profunda. Se o Brasil quer “negócio sério”, precisa primeiro pagar a dívida histórica com a maioria da população — e isso passa, sim, por políticas que muitos chamam de “identitárias”, mas que eu chamo de justiça social com base material.