“E vou procurar Israel, porque o Mossad, já no meu primeiro governo, quando eu governei o Ceará, eu mandei gente treinar lá. E me dei muito bem. Ainda hoje me ajuda a pensar. Um jovem delegado muito brilhante que eu, por brilho, recrutei e mandei treinar em Israel. Vou fazer essa mesma coisa.”
A afirmação esdrúxula não foi a única de Ciro Gomes em sua entrevista à Veja. Ao longo da conversa, ele também se mostrou disposto a recorrer aos Estados Unidos para tratar a segurança pública do Ceará.
Publicada primeiro em texto, a entrevista só ganhou versão em vídeo alguns dias depois, e as imagens deixam claro por que houve a demora.
A condução foi rigidamente controlada. O repórter lê as perguntas no celular, sem interação real e sem a dinâmica de uma entrevista jornalística, em que a resposta de um lado costuma orientar a pergunta seguinte.
Ciro responde, o repórter passa adiante, e tudo soa como um roteiro combinado de antemão. É o retrato da situação delicada do ex-governador, que precisa medir cada palavra para sustentar uma aliança com bolsonaristas sem romper com o bolsonarismo.
Mesmo assim, não deu certo. Perguntado se concordava com a Justiça sobre a tentativa de golpe, Ciro afirmou que Jair Bolsonaro de fato tentou tomar o poder.
“Da parte dele, sem dúvida.”
Na sequência, porém, tratou de aliviar os condenados pelos atos de 8 de janeiro. Classificou a invasão da Praça dos Três Poderes como uma “ruaça” punível, negou que tenha havido golpe e disse que as penas foram absolutamente exageradas, repetindo a tese da anistia defendida pelo bolsonarismo.
A ginástica não passou despercebida. Michelle Bolsonaro voltou a atacá-lo depois que ele igualou Lula e Bolsonaro, dizendo que, tirante a estética, os dois seriam rigorosamente a mesma coisa, e descartou apoiar Flávio Bolsonaro à Presidência.
É contra o PT que Ciro concentra a maior agressividade. Ele recorre a expressões como “essa gente”, num ressentimento que já vinha aparecendo e que agora soa ainda mais áspero.
A farpa aparece até quando fala de economia. Ao atacar a reforma tributária que extinguiu o incentivo fiscal sobre o ICMS, base da atração de indústrias para o Ceará, ele credita a mudança à submissão dos petistas a Lula.
“Essa gente, o PT, apoiou com entusiasmo, porque tudo que o Lula manda eles dizem amém.”
Em relação ao escândalo do INSS, Ciro sustenta que Lula colocou Carlos Lupi à frente da Previdência com o único propósito de ver o PDT, o trabalhismo, desmoralizado.
A leitura econômica que ele faz do Ceará é inteiramente falsa. Ciro insiste que o estado está quebrado, mas os números apontam o contrário.
Segundo a apresentação do PIB trimestral feita pelo Ipece com dados do IBGE, a economia cearense cresceu 6,49% em 2024, contra 3,40% do Brasil. Em 2023, o Ceará também superou de leve a média nacional, com 3,26% ante 3,24%.
Na indústria, a distância é maior. O IBGE registrou alta de 6,9% na produção industrial cearense em 2024, mais que o dobro dos 3,1% do país.
Em 2025, o Ipece informou que o PIB do Ceará cresceu 2,87%, acima dos 2,3% do país. O instituto apontou ainda R$ 4,73 bilhões em investimentos do governo estadual no ano, alta de 16,61% sobre 2024, e afirmou haver evidências de contas em equilíbrio.
Diante desses dados, a tese do colapso não se sustenta. Ciro não faz apenas uma crítica administrativa, mas constrói uma narrativa de ruína que não conversa com os indicadores do estado.
No plano nacional, sua saída é dizer que votaria em Aécio Neves para presidente. A escolha é no mínimo curiosa, já que a maior crítica de Ciro a Lula é justamente a adesão do governo aos parâmetros macroeconômicos ortodoxos, o câmbio flutuante, a meta de inflação e a autonomia do Banco Central, o mesmo tripé que Aécio e o PSDB ajudaram a consagrar.
Ao mesmo tempo, tenta vender a disputa cearense como se o estado fosse um planeta em outra galáxia, e não uma unidade da federação.
A chapa que ele costura, no entanto, passa pelo bolsonarismo. Ciro já declarou apoio a Alcides Fernandes, pastor evangélico e deputado estadual ultraconservador, candidato ao Senado.
Segundo o Repórter Ceará, ele afirmou que Capitão Wagner e Alcides Fernandes teriam duas missões no Senado, endurecer as leis contra facções e frear o que chamou de lado apodrecido do Supremo Tribunal Federal.
Ciro nega apoio a Flávio Bolsonaro, mas se alia a setores do bolsonarismo no Ceará. Diz combater o extremismo e, ao mesmo tempo, adere à campanha contra o STF.
O ponto mais grave da entrevista está no uso do crime organizado contra adversários.
Logo no início, Ciro recorreu a esse expediente. Disse que Bebeto do Choró, foragido e apontado como braço do PCC, constava nos quadros do PSB, sigla comandada no Ceará por Eudoro Santana, pai do ministro Camilo Santana.
Ao lançar a insinuação, ele mesmo admitiu não ter prova. Considerou pouco provável que o pai de Camilo pertencesse à facção e, ainda assim, deixou a suspeita no ar.
Faltou dizer o resto. Esse mesmo PSB abriga, desde 2024, o senador Cid Gomes, irmão do próprio Ciro.
A ligação de um filiado com o crime não compromete a legenda inteira, e o raciocínio acaba se voltando contra quem o usa. Bastaria aplicá-lo ao PSDB para chegar ao mesmo absurdo.
Em abril deste ano, o ex-deputado federal Uldurico Júnior, tucano como Ciro, foi preso sob suspeita de pagar cerca de R$ 2 milhões a uma facção para libertar detentos na Bahia. Pela régua que ele reserva aos adversários, o próprio partido já estaria de mãos dadas com o crime.
No encerramento da entrevista, a tática reaparece de forma ainda mais direta. Ciro acusou o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão, de ter recebido R$ 20 milhões do PCC.
“Existe uma fadiga de material muito grande, muito grande. É um saque muito repetido em cima, sabe, de benefícios que não se renovam. O próprio Bolsa Família, de alguma forma, está se incorporando. As pessoas aqui eram explícitos. Chegava aqui na véspera da eleição, eles andavam na rua dizendo, carro de som, que se não votassem no PT, ia perder o Bolsa Família e tal. Hoje ninguém acredita mais. Nesse tipo de coisa. E aí estão recebendo dinheiro, muito dinheiro de facção. Estou falando concretude. Tem um inquérito rodando em que o prefeito da capital recebe, teria recebido 20 milhões através do filho do cara do PCC, chamado Bebeto do Choró.”
Evandro se elegeu prefeito de Fortaleza em 2024, numa disputa em que Ciro atuou furiosamente nos bastidores para tentar derrotá-lo. É dessa derrota que vem boa parte do rancor agora despejado pelo neotucano.
O petista rebateu duramente nas redes sociais.
“Tive conhecimento de entrevistas dadas por esse mau-caráter chamado Ciro Gomes, atacando a mim e minha família. Um irresponsável, inconsequente, que acha que pode sair por aí atacando a honra das pessoas. Já estou acionando a Justiça para que ele responda criminalmente por isso.”
No conjunto, a entrevista mostra um Ciro inteiramente entregue a uma sede de vingança contra as derrotas que sofreu para o PT, ainda que para isso precise se aliar aos setores mais retrógrados do bolsonarismo.


Stalingrado
26/06/2026
Como diria o Barão de Itararé, “De onde menos se espera é daí que não vem nada mesmo “.
Diego Fernández
26/06/2026
Parece que Ciro ainda cai na velha tentação de buscar soluções importadas, como se a segurança pública brasileira fosse resolvida com inteligência israelense. Enquanto isso, a gente ignora exemplos latino-americanos de redução de violência com políticas sociais e fortalecimento da investigação local, sem precisar de parcerias com Estado que vive de ocupação e apartheid. Mossad não vai resolver a desigualdade do Ceará, Ciro.
Cecília Silva
26/06/2026
Concordo plenamente, Diego. O Mossad não entende de fome, de falta de escola, de jovem preto sendo empurrado pro tráfico porque o Estado virou as costas. Enquanto a elite intelectual busca milagre importado, a favela continua sangrando. A segurança pública que a gente precisa nasce de política social, não de bombas de Israel.
Ronaldo Pereira
26/06/2026
Cecília, você disse tudo. Enquanto a elite trata segurança como caso de polícia, a classe trabalhadora sabe que o problema é falta de creche, emprego e dignidade. Querem trazer especialista em tortura de palestino pra resolver o que nasce da desigualdade — é cynismo puro.
Carlos Mendes
26/06/2026
Ciro apela para o Mossad enquanto o Ceará quebra e a violência só cresce. Típico do estatismo atrasado: em vez de liberar o armamento, privatizar presídios e dar segurança jurídica, o “gênio” quer gastar rios de dinheiro público com missão internacional. Se ao menos aplicasse a mesma eficiência em cortar impostos e desburocratizar o estado…
Mariana Alves
26/06/2026
Caro Carlos Mendes, seu comentário reproduz com perfeição a cartilha neoliberal que insiste em tratar a segurança pública como um mero problema de oferta e demanda, como se o crime organizado fosse uma startup a ser enfrentada com redução de impostos e livre iniciativa armamentista. A proposta de Ciro Gomes de buscar cooperação com Israel e o Mossad não representa, como você sugere, um “gasto de dinheiro público com missão internacional”, mas sim a tentativa de acessar inteligência de ponta em métodos de investigação e combate a facções que operam em redes transnacionais. Ignorar que o tráfico de drogas e armas no Ceará está conectado a cartéis internacionais é um erro analítico grave. A segurança pública não se resume a “liberar o armamento” — como se a multiplicação de pistolas nas mãos da população civil fosse capaz de desarticular hierarquias criminosas complexas, quando a experiência internacional mostra justamente o oposto: países com alto índice de armas civis registram taxas elevadas de homicídios, não de segurança.
Você menciona a privatização de presídios como solução, mas parece esquecer que o sistema prisional brasileiro já é terceirizado em diversos estados e o resultado é o aprofundamento da mercantilização da punição, com empresas lucrando sobre a superlotação e a reincidência. O que o Ceará precisa não é de mais Estado penal gerido por corporações, mas de políticas públicas integradas que articulem inteligência, investigação, prevenção social e reinserção. Seu “estatismo atrasado” é, na verdade, a recusa em reconhecer que o monopólio legítimo da violência é uma atribuição estatal inalienável — qualquer teoria política minimamente séria, de Hobbes a Weber, demonstra que a segurança coletiva não pode ser delegada ao mercado sem gerar barbárie.
Por fim, a associação mecânica entre cortes de impostos e segurança pública revela uma compreensão rasteira da economia política. Reduzir a carga tributária de forma indiscriminada significa menos recursos para fotografia aérea, para sistemas de perícia, para delegacias especializadas e para a formação de agentes. Não é o “gasto” que é problema, mas o tipo de gasto: investir em tecnologia e cooperação internacional pode ser mais eficiente do que continuar financiando um modelo policialesco que só alimenta a violência. O “gênio” que você ironiza ao menos tenta pensar para além do senso comum armamentista e privatista que já mostrou seu fracasso em países como os Estados Unidos, onde a liberação de armas convive com massacres escolares e uma das maiores taxas de encarceramento do planeta. Antes de taxar de atrasado o que você não conhece, sugiro ler um pouco de criminologia crítica e teoria do Estado. Seu liberalismo de buteco não resiste a cinco minutos de debate acadêmico sério.
Ricardo Menezes
26/06/2026
Ciro apelar pro Mossad é a cereja do bolo estatista, Carlos. Enquanto isso, o contribuinte financia cortesia internacional em vez de ter o direito de se defender com uma arma na cintura. Menos estado, mais liberdade.
Ana Souza
26/06/2026
Carlos, você realmente acredita que simplesmente liberar armas e cortar impostos resolve o problema da segurança pública sozinho? Porque o que a gente vê na prática é que estados com políticas mais liberais também têm índices de violência altíssimos.
Mariana Santos
26/06/2026
Ciro Gomes recorrendo ao Mossad para “resolver” a segurança pública é um tapa na cara de quem estuda o tema. Israel é referência mundial em vigilância e repressão, não em direitos humanos ou justiça social. O que o Ceará precisa é de investimento em educação, creches e políticas de redução da desigualdade, não de importar táticas de apartheid. Importar o modelo israelense é transformar periferia em território ocupado.
Fernando O.
26/06/2026
Mariana, você tem razão em parte: segurança pública não se resolve só com inteligência de serviço secreto. Mas os números de Israel mostram que Jerusalém reduziu homicídios em mais de 40% com tecnologia de vigilância. O problema não é importar tática; é achar que isso substitui creche e escola.
Beatriz Lima
26/06/2026
Mariana, adorei o entusiasmo, mas vou precisar de dados pra engolir essa sua tese de que “educação e creches” resolvem segurança pública no curto prazo. Ninguém aqui é favorável a transformar periferia em território ocupado, mas qual é a taxa de homicídios no Ceará hoje? E qual era antes de qualquer política de inteligência? Se você tem esses números, manda aí. Porque o que eu vejo é um estado que já tentou o discurso bonito e continuou sangrando. Não tô defendendo Mossad, tô questionando se sua alternativa tem algum histórico de resultado no Brasil ou se é só wishful thinking com verniz acadêmico.
Outra coisa: você parte do pressuposto de que “vigilância e repressão” são intrinsecamente incompatíveis com justiça social, como se fossem mutuamente excludentes. Isso é maniqueísmo preguiçoso. Singapura usa vigilância pesada e tem IDH altíssimo. Israel, sim, tem um histórico péssimo com palestinos, mas isso não invalida automaticamente qualquer técnica de inteligência que eles desenvolvam — a menos que você acredite que uma tecnologia nasce intrinsecamente má por causa do contexto político de quem a criou. Se for assim, pode devolver o seu celular, porque componentes israelenses estão em boa parte da eletrônica global, e táticas de inteligência israelenses são usadas por países nórdicos com baixíssimos índices de violência.
Sobre “tapa na cara de quem estuda o tema”: estudar não é repetir jargão. Estudar é entender que segurança pública é um campo onde soluções ideológicas puras geralmente fracassam. Ciro pode estar errado, mas chamar a proposta dele de “tapa na cara” sem mostrar evidência de que sua alternativa funcionaria em escala é, no mínimo, retórica vazia com cheiro de auto-indulgência intelectual. Quer debater de verdade? Me mostra um estudo de caso onde políticas exclusivamente sociais reduziram homicídios em mais de 30% em menos de três anos. Enquanto isso não vier, seu argumento é bonito, mas não passa de wishful thinking com aspas.
Maria Silva
26/06/2026
Mariana, concordo que investir em educação e reduzir desigualdades é o caminho mais sólido, mas demonizar Israel também não ajuda — o Brasil precisa trocar ideias com quem tem experiência, desde que sem copiar modelos que desrespeitem direitos humanos.
Lurdinha Deus Acima de Todos
26/06/2026
Amiga, para de querer pagar de entendida que Israel é terra santa e o Mossad é coisa de Deus, o Brasil não precisa de espião estrangeiro pra resolver violência, isso é papo de globalista! 🙏🇧🇷