O analista geopolítico Pepe Escobar revelou, em entrevista ao canal Dialogue Works, informações inéditas sobre o papel crucial da inteligência militar do Paquistão na interrupção da série de assassinatos seletivos de líderes iranianos atribuídos a Israel. Segundo Escobar, logo após o assassinato de Ali Larijani — então o homem mais poderoso do Irã, enquanto o líder Mostaba Khamenei se recuperava de um atentado — a inteligência paquistanesa estabeleceu contato com os mais altos escalões da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC). Diante da ameaça da continuação da chamada “cadeia de mortes”, o Paquistão ofereceu ao Irã um sofisticado centro de contraespionagem eletrônica, montado com ajuda da China, e chegou a enviar seus melhores técnicos a Teerã para demonstrar como neutralizar os ataques cibernéticos e eletrônicos que vinham sendo usados nas eliminações.
“Depois do assassinato de Larijani, não houve mais nenhum assassinato. Os iranianos, como os chineses e os paquistaneses, agora têm toda a capacidade de contraespionagem de que precisam”, afirmou Escobar. A súbita paralisação das operações deixou em pânico tanto os Estados Unidos quanto Israel, que já estavam alarmados com as capacidades ofensivas do Irã e passaram a enfrentar também um fortalecimento sem precedentes na guerra eletrônica iraniana. O analista destacou que as fontes da inteligência paquistanesa confiaram a ele e a Larry Johnson essas informações por saberem que seriam divulgadas sem distorções, e que parte do material, por sua sensibilidade, ainda permanece sob sigilo, inclusive sem revelar nomes de programas e empresas envolvidos na cadeia de ataque original.
Outro ponto explosivo trazido por Escobar foi o relato minucioso das negociações entre EUA e Irã realizadas na Suíça, que quase colapsaram três vezes. As delegações jamais se falaram diretamente, com todas as conversas passando pelo primeiro-ministro paquistanês Sharif e pelos cataris. O chanceler iraniano Arakchi, diante de ameaças de Donald Trump, ameaçou abandonar as conversas, sendo segurado pessoalmente por líderes paquistaneses e pelo ministro das Relações Exteriores saudita, príncipe Faisal. Durante uma ligação tensa, Faisal garantiu ao general Munir, chefe do exército paquistanês, que a Arábia Saudita e o Catar assegurariam os US$ 24 bilhões previstos no memorando de entendimento, independentemente de Trump honrar o pagamento. “Em menos de uma hora, duas grandes nações do Golfo prometeram ao Irã que ele receberia seu dinheiro. Foi algo enorme”, comentou Escobar.
A cúpula também acelerou um movimento geopolítico mais amplo: a criação de um guarda-chuva de segurança liderado por Paquistão e Arábia Saudita para o Oeste Asiático, com possível adesão do Catar, Bahrein, Kuwait e Egito, e até mesmo a Turquia sendo considerada. Pepe Escobar explicou que o Irã não se opõe porque o Paquistão — que já atua como mediador entre Teerã e Washington — garantiu que a estrutura não será uma plataforma ofensiva contra o Irã, e a China apoia o arranjo para facilitar seus interesses geoeconômicos. “O que nasceu naquela noite em Bürgenstock, na Suíça, começou a mudar todo o tabuleiro do Oriente Médio sem interferência americana”, disse.
Escobar também analisou a situação doméstica de Trump, que estaria desesperado por um acordo porque as reservas estratégicas de petróleo dos EUA podem se esgotar até meados de agosto, elevando o preço dos combustíveis e a inflação às vésperas das eleições de meio de mandato. “Ele está encurralado pelo lobby sionista, pelos neocons, por doadores como Miriam Adelson e pela opinião pública. Sabe que não controla o Estreito de Ormuz e que uma guerra total seria catastrófica.” Após as midterms, no entanto, todos os analistas consideram provável que o governo americano retome a via militar contra o Irã, e a liderança iraniana, segundo o analista, “não tem ilusões e está com o dedo no gatilho”.
Por fim, o jornalista revelou que a inteligência paquistanesa também descobriu um plano israelense para assassinar o marechal-de-campo Asim Munir durante as negociações, e que um alerta enviado a Tel Aviv fez com que o atentado fosse cancelado. “Paquistão e Israel já travam uma guerra por procuração, e os sionistas sabem que não podem agir como de costume. O Paquistão é uma potência nuclear”, destacou Escobar. As revelações foram feitas no âmbito do novo canal Transition Protocol, que mantém com Larry Johnson, especializado em inteligência de fontes de altíssimo nível sobre as negociações entre Irã e EUA.

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