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Flávio Bolsonaro tenta administrar rejeição feminina sem romper com a misoginia estrutural de seu grupo

O movimento de Flávio Bolsonaro para conquistar o eleitorado feminino é visto como uma operação de contenção de danos, não uma guinada programática.

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O senador Flávio Bolsonaro durante entrevista em Brasília, em 30 de junho de 2026. Foto: Senado Federal.

O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, tenta reduzir sua rejeição entre mulheres com uma operação calculada de contenção de danos. Não se trata de uma guinada programática, nem de uma escuta ampla do eleitorado feminino, mas de uma tentativa de converter um problema estrutural do bolsonarismo em agenda controlada com lideranças conservadoras. A manobra revela mais sobre o medo eleitoral do sobrenome Bolsonaro do que sobre qualquer disposição real de rever práticas políticas.

O movimento ganhou tração depois da crise pública com Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e então presidente do PL Mulher, que expôs uma fratura incômoda na pré-campanha do senador. A disputa familiar-partidária colocou Flávio diante de um paradoxo difícil de resolver: ele precisa parecer mais palatável às mulheres sem romper com a cultura política que ajudou a formar sua base. É a tentativa de vender moderação no balcão da mesma loja que popularizou a agressividade como método.

A engrenagem aparece com nitidez no encontro fechado organizado para cerca de 120 convidadas da própria base conservadora, mencionado pelo Nexo Jornal ao analisar a ofensiva do senador. O formato fala por si: mulheres entram menos como eleitoras a serem ouvidas e mais como obstáculo eleitoral a ser administrado com cenografia, fala disciplinada e aplauso previsível. Quando a escuta começa por um ambiente filtrado, com convidadas já alinhadas, o risco é transformar maioria social em plateia de campanha.

O problema é que a rejeição feminina ao bolsonarismo não nasceu de um ruído de comunicação, nem pode ser dimensionada com pesquisa velha. Em junho de 2026, o Datafolha registrou Lula à frente de Flávio por 41% a 31% no primeiro turno e por 47% a 43% no segundo; entre mulheres, a distância subia para 52% a 37% em um eventual segundo turno.

Esse quadro ajuda a dimensionar o tamanho da encrenca que Flávio tenta administrar. A Genial/Quaest também apontou, em junho de 2026, rejeição de 56% ao senador, a maior entre os nomes testados; quando ele fala para um público feminino já alinhado, apenas ensaia, diante de convertidas, uma versão mais polida de um projeto que chega às eleitoras carregando uma herança marcada por declarações e gestos misóginos ao longo da carreira do ex-presidente.

A presença de Michelle no centro da crise torna a operação ainda mais delicada. Michelle deixou nesta terça-feira, 30, a presidência do PL Mulher, afirmando que passaria a se dedicar integralmente aos cuidados do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. A saída ocorre justamente quando Flávio tenta recompor pontes com o eleitorado feminino, o que transforma a ausência dela em sintoma político, não em detalhe doméstico.

Michelle sempre funcionou, para o bolsonarismo, como uma espécie de verniz moral e religioso sobre uma máquina política movida a confronto permanente. Ao deixar o comando formal do PL Mulher no momento em que Flávio tenta reorganizar sua pré-campanha, ela retira do senador uma peça simbólica importante para falar com esse público. A crise, portanto, não é apenas de agenda: é de credibilidade, porque o emissário da nova embalagem continua sendo um herdeiro direto do problema antigo.

Flávio Bolsonaro procura se apresentar como candidato capaz de moderar a embalagem sem mexer no conteúdo. Essa é uma velha alquimia da direita brasileira quando percebe que sua retórica bate no teto: troca o cenário, convoca rostos femininos, suaviza o vocabulário e espera que a memória social se comporte como assessoria de imprensa. Só que misoginia, quando vira linguagem política, não desaparece porque a campanha reposiciona cadeiras no palco.

As mulheres eleitoras, porém, não aparecem nessa equação como sujeito político complexo, com demandas materiais, autonomia de julgamento e memória sobre o que ouviram nos últimos anos. O que emerge é a tentativa de neutralizar uma maioria eleitoral que as pesquisas recentes continuam mostrando como decisiva para a vulnerabilidade bolsonarista. A diferença entre ouvir e administrar é justamente essa: ouvir implica rever práticas, enquanto administrar exige apenas agenda, foto, discurso e um esforço disciplinado para não tocar no nervo central.

O senador também enfrenta um limite que não se resolve com encontro fechado. Sua candidatura é herdeira direta de um campo político que fez da agressividade contra adversárias, jornalistas, ministras, professoras e mulheres comuns um método de mobilização. A misoginia não foi acidente de percurso no bolsonarismo; foi uma linguagem de poder, usada para excitar a base, intimidar quem discordava e transformar brutalidade em suposta autenticidade.

Por isso, a ofensiva de Flávio tende a produzir mais uma imagem vazia do que um ruptura com seu próprio comportamento. O eleitorado feminino que rejeita ser tratado como nicho eleitoral sabe distinguir reparação política de reembalagem publicitária, sobretudo quando a operação evita encarar a própria origem do desgaste. E, nesse ponto, o senador parece apostar que um problema de história, memória e comportamento possa ser resolvido com um evento bem iluminado e uma fileira de aliadas à frente do palco.

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