O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, formaliza seu ingresso na chapa presidencial do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, consolidando um movimento calculado de afastamento da cúpula do partido do governo federal. Esta articulação, que desenha os contornos da terceira via para a disputa de 2026, é menos um rompimento e mais um lance tático no complexo xadrez do poder.
A chamada chapa ‘puro-sangue’, composta exclusivamente por membros do PSD, revela na verdade a dificuldade de Caiado em atrair aliados de peso para sua órbita. A tentativa frustrada de aliança com o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), expôs o isolamento de um projeto que hoje amarga 3% nas pesquisas de intenção de voto.
Para Kassab, a vice-presidência numa chapa de oposição é uma estratégia de baixo risco para maximizar a relevância do PSD no próximo ciclo legislativo, inflando seu fundo eleitoral e tempo de televisão. Ele não queima pontes com o Palácio do Planalto, mas eleva o preço de seu apoio futuro, seja qual for o resultado das urnas em outubro.
Enquanto a direção nacional ensaia uma guinada à direita, as bases regionais do partido reagem com pragmatismo e lealdade ao governo do presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Na Bahia, o senador Otto Alencar reafirma seu palanque lulista, enquanto a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, é cortejada diretamente pelo Planalto para manter a aliança local.
A narrativa de um esvaziamento ministerial do PSD no governo é uma falácia que precisa ser desfeita, pois dos ministros frequentemente associados à sigla, apenas Alexandre Silveira pertencia de fato ao partido. Tanto Silvio Costa Filho (Republicanos) quanto André Fufuca (PP) são de outras legendas e, assim como Silveira, já haviam deixado a Esplanada em abril para concorrer ao Senado.
A maior ironia desta aliança repousa na memória política recente, quando em 2015 o próprio Caiado adjetivou Kassab como o ‘cafetão do Palácio do Planalto’. Essa reconciliação, agora selada em uma chapa presidencial, é o retrato mais cru do fisiologismo que dita os rumos da política brasileira, onde ofensas do passado são convenientemente esquecidas em nome do poder.


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