O caso Dark Horse tem um elo perdido que ajuda a entender o obscuro financiamento do filme: André Porciúncula, capitão da reserva da PM da Bahia e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro.
O Cafezinho teve acesso a documentos dos registros públicos americanos, listados ao final desta reportagem. Eles revelam uma sequência que a imprensa pouco explorou.
Porciúncula não tem fortuna declarada, renda conhecida ou negócios capazes de explicar a mudança patrimonial registrada nos Estados Unidos. Ainda assim, vive hoje numa mansão milionária no Texas, perto da base de Eduardo Bolsonaro.
A hipótese que emerge dos registros é que Porciúncula pode ter atuado como laranja, emprestando o nome para abrir caminho à instalação de Eduardo nos Estados Unidos.
Depois do fracasso do 8 de janeiro de 2023, quando o cerco judicial começou a se fechar sobre o bolsonarismo, o círculo íntimo de Eduardo passou a se organizar no Texas.
Em nove semanas, três estruturas foram registradas na mesma casa, a residência do influenciador Paulo Generoso em Arlington: a Liber Group Brasil, em 13 de janeiro; o Instituto Liberdade, em 8 de fevereiro; e a Braz Global Holding, em 18 de março.
A Braz Global merece atenção especial por um motivo simples: foi a única empresa em que Eduardo Bolsonaro colocou o próprio nome. Essa é uma das empresas que liga Eduardo ao dinheiro do Master.
Os sócios eram Generoso — fundador do Movimento República de Curitiba, citado pela Polícia Federal no inquérito dos atos golpistas — e Porciúncula, que em alguns registros assina apenas como Andre Esteves, além do filho do ex-presidente.
Nas outras duas estruturas, sem o nome de Eduardo, aparece ainda Raquel Brugnera, ex-servidora da Secretaria de Cultura apontada como uma das líderes do chamado Gabinete do Ódio.
As três estruturas surgiram enquanto Jair Bolsonaro se refugiava nos Estados Unidos, entre dezembro de 2022 e março de 2023 — viagem que a Polícia Federal aponta ter servido para coordenar de longe a trama golpista.
Enquanto o pai se abrigava na Flórida, a tropa do filho montava sua base no Texas.
Quem é o homem que Eduardo escolheu como sócio?
Porciúncula saiu da PM baiana, onde respondeu a processo por deserção, e chegou a Brasília em 2020 pelas mãos de Mário Frias.
À frente da Lei Rouanet, tornou-se um operador da guerra cultural bolsonarista. Assinou portaria contra o financiamento de projetos com linguagem neutra, alvo de apuração do MPF, e defendeu o uso de dinheiro público em evento pró-armas no qual, em suas palavras, “a princesa é a arma de fogo”.
O episódio rendeu a ele e a Frias representações na PGR e no TCU. Em 2022, Porciúncula tentou uma vaga de deputado federal pelo PL da Bahia, teve 82 mil votos e perdeu.
Mário Frias é peça importante nesse círculo. Ele é produtor-executivo do Dark Horse ao lado de Eduardo Bolsonaro. Ou seja: o homem que hoje assina pela mansão no Texas foi braço direito de um dos produtores do filme e sócio do outro.
A pergunta central é esta: de onde vem o dinheiro de André Porciúncula? No Brasil, os registros não mostram patrimônio compatível com o salto patrimonial posterior. Ele é capitão da reserva remunerada da PM baiana, com soldo de classe média.
Ao TSE, em 2024, declarou R$ 164 mil em bens — metade disso numa empresa de segurança considerada inapta pela Receita Federal. Sua última campanha foi bancanda integralmente pelo fundo partidário do PL: R$ 310 mil, sem doadores pessoas físicas. Não há herança registrada, empresa próspera ou fortuna declarada.
Nos Estados Unidos, também não aparece fonte de renda conhecida. Não há emprego declarado, empresa operante em seu nome ou atividade econômica registrada.
Porciúncula mudou-se para o Texas em março de 2023, o mesmo mês da criação da Braz Global. No mesmo período, abriu em Brasília uma consultoria de marketing sediada no prédio da sede nacional do PL.
É tudo o que os registros mostram sobre sua vida econômica.
Quatro meses depois de fundada, a Braz Global emprestou 140 mil dólares — mais de R$ 800 mil — à empresa de um construtor de Fort Worth. A operação pagou, no ato, a compra de três terrenos, que ficaram como garantia. O contrato previa juros de mora de 1,5% ao mês e uma cláusula que permitia exigir a quitação integral a qualquer momento.
Uma empresa recém-criada, sem licença de instituição financeira, funcionários ou histórico, atuava como financiadora imobiliária. A origem do caixa não aparece nos documentos.
Eduardo Bolsonaro tampouco apresentou fonte compatível com esse volume de recursos. Ao se licenciar da Câmara, abriu mão do salário, e ele próprio afirma viver nos Estados Unidos de “renda passiva” e de um Pix de R$ 2 milhões enviado pelo pai.
O destino do empréstimo também chama atenção. O tomador se apresenta como “Roderick Venture, pioneiro da energia renovável”. Seu nome verdadeiro é Roderick Ford.
A ficha comercial é outra: sua empresa de painéis solares tem nota baixa no Better Business Bureau; uma TV de Oklahoma documentou obra abandonada e houve denúncias de que fabricou cartas de uma companhia elétrica para cobrar por um sistema que não funcionava. Sua licença de construtor foi cassada em Fort Worth; e compradores relatam casas entregues pela metade.
Foi a esse homem que a empresa de Eduardo Bolsonaro e Porciúncula emprestou 140 mil dólares.
Enquanto empreiteiros não pagos e compradores lesados acumulavam penhoras e uma sentença judicial contra o construtor, os brasileiros encerraram a operação sem prejuízo aparente.
O fim da Braz foi tão coordenado quanto o começo. Em fevereiro de 2024, a empresa recebeu os 140 mil dólares de volta, em quitação assinada por Generoso. Em 18 de abril, foi oficialmente extinta.
No mesmo dia, Generoso, desta vez assinando como presidente, encerrou também a Liber Group.
As duas portas fecharam juntas, sem justificativa pública nos registros. Do trio criado em 2023, restou apenas o Instituto Liberdade, que hoje funciona no endereço do escritório de Paulo Calixto em Dallas, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
O capítulo seguinte é o que hoje ocupa a Polícia Federal. Eduardo assinou, em janeiro de 2024, contrato como produtor-executivo do Dark Horse ao lado de Frias, com poder sobre orçamento e captação, segundo revelou o Intercept Brasil. Um aditivo chegou a qualificá-lo como “financiador” do filme.
Entre fevereiro e maio de 2025, R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro cruzaram a fronteira rumo ao fundo Havengate, em Dallas, sob a justificativa de bancar a produção.
Em março de 2025, Eduardo mudou-se para os Estados Unidos. A PF investiga se o dinheiro do banqueiro preso sustenta a vida dele no exterior. É nesse ponto que Porciúncula reaparece. Em 27 de fevereiro de 2026, a Mercury Legacy Trust — um trust que funciona como cofre patrimonial nos Estados Unidos — comprou uma mansão de quatro quartos no Viridian, condomínio-vitrine de Arlington.
A compra foi à vista, sem banco e sem financiamento. Quem assina pela Mercury é Porciúncula.
O valor divulgado, 726 mil dólares, é apenas a avaliação fiscal. O Texas não revela preços de venda, e corretoras estimam o valor de mercado em até 789 mil dólares, podendo ser maior.
A Mercury não aparece isolada. Ela é sócia da Calixsan, gestora de Paulo Calixto e do corretor Altieris Santana — a mesma dupla que administra o Havengate, fundo que recebeu os milhões de Vorcaro.
Trust e fundo dividem o mesmo endereço em Dallas. Da antiga sede da Braz até a mansão são 21 quilômetros. É o mesmo circuito de Arlington e Dallas, três anos depois, agora atravessado pelos R$ 61 milhões do caso Dark Horse.
A gestora abriga ainda dois outros trusts sócios, o Zuma Legacy Trust e o Calixto Holdings Trust, que não aparecem nos registros estaduais americanos consultados.
As explicações de Porciúncula mudam a cada entrevista, e nenhuma fecha com os fatos conhecidos. À Folha de S.Paulo, disse que a identidade do dono da casa “não é de interesse público”. Dias depois, ao Metrópoles, assumiu ser o proprietário e afirmou ter comprado via fundo para “pagar menos juros no financiamento”.
Mas a escritura indica compra à vista. Porciúncula também disse morar na casa “há três anos”.
Há ainda uma contradição eleitoral: Porciúncula foi candidato a vereador em Salvador em outubro de 2024, o que exige domicílio eleitoral na cidade, ao mesmo tempo em que afirma viver no Texas desde 2023.
Porciúncula tinha patrimônio declarado modesto, mudou-se para o Texas no mês em que abria uma empresa junto com Eduardo, assinou uma estrutura que movimentou 140 mil dólares sem origem conhecida e, três anos depois, voltou aos registros como representante do trust que comprou uma mansão à vista.
A PF suspeita que os recursos de Vorcaro podem ter sido usados por Eduardo Bolsonaro para bancar suas aividades de lobista anti-Brasil nos Estados Unidos.
DOCUMENTOS DESTA REPORTAGEM:
- Certificado de constituição da Braz Global Holding
- Certificado de extinção da Braz e da Liber Group (18/04/2024)
- Documentos do empréstimo de US$ 140 mil com garantia sobre os terrenos e quitação assinada por Paulo Generoso (06/02/2024): Doc 1 · Doc 2 · Doc 3 · Doc 4 · Doc 5
- Escritura da compra da mansão pela Mercury Legacy Trust (27/02/2026)
- Registros da Calixsan com a Mercury, o Zuma e o Calixto Holdings como sócios (Annual Reports): 2022 · 2023 · 2024 · 2025 · 2026
- Penhoras e sentença judicial contra o construtor — registros públicos do condado de Tarrant (busque por “Venturexspannsion”)
- Cadastro da Solergy (nota F) no Better Business Bureau
- Reportagem da TV KFOR de Oklahoma sobre Roderick Ford



Nadia Petrova
02/07/2026
Ah, o empreendedorismo bolsonarista e suas ramificações globais! É sempre fascinante ver como os campeões do “nacionalismo” e da “moralidade” se desdobram em operações financeiras tão… discretas lá fora, não é? Um “laranja” no Texas para preparar o “exílio” soa como um roteiro de filme de espionagem barato, mas infelizmente é a nossa realidade política. A transparência no mercado, para alguns, é um luxo que só se exige dos outros.
José dos Santos
02/07/2026
É, Nadia, a gente ouve tanta história assim que fica até tonto. Enquanto uns planejam essas coisas complexas, a gente aqui no trânsito só quer que o preço da feira e da gasolina pare de subir pra ter alguma estabilidade. É duro ver tanta gente se virando enquanto outros parecem viver num filme.
Cecília Torres
02/07/2026
A narrativa de uma empresa no Texas, um intermediário sem renda aparente e a ligação com um parlamentar configura um cenário que, no mínimo, carece de explicação. A “suspeita forte” de “laranja” não pode ser ignorada. Exige-se transparência e comprovação dos fatos, não retórica.
Gabriel Teen
02/07/2026
Suspeita forte? Kkkk e o “confia” do político? É tudo a mesma novela sem fim pra gado.
Luiz Augusto
02/07/2026
Entendo sua preocupação, Cecília, mas a exigência por transparência deve vir acompanhada da busca por provas concretas, não apenas pela repetição de “suspeitas fortes”. A retórica, muitas vezes, serve mais a interesses ideológicos do que à verdade dos fatos.
Rodrigo Meireles
02/07/2026
Concordo, Cecília. No mundo dos negócios e da boa gestão, a ausência de um fluxo de dados e de uma lógica de eficiência gera mais que suspeitas: gera falência de credibilidade. Queremos ver os números, não narrativas vazias.
Maria Aparecida
02/07/2026
Cecília, a gente sabe que onde tem fumaça, tem fogo. É a ganância que cega esses poderosos, esquecem que a verdade sempre vem à luz para o povo. O Senhor clama por justiça e clareza, não por escuridão de artimanhas.
Clarice Historiadora
02/07/2026
Eles realmente acham que a gente não vê a rota da grana do Master, né? Essa arquitetura de “laranjas” e empresas no Texas é um clichê tão batido que até o Tratado de Evasão Fiscal para Oligarquias Emergentes (Sérgio Buarque de Holanda, edição póstuma e expandida, 1968) descreve com detalhes. A hipocrisia é um clássico da burrice, e eles são mestres nisso.
Cíntia Ribeiro
02/07/2026
Sua análise, Clarice, ressalta a notável recorrência de padrões de elisão fiscal e instrumentalização de estruturas corporativas em jurisdições flexíveis. Essa persistência demonstra as fragilidades institucionais que permitem a perpetuação dessas tipologias, um desafio constante para a governança democrática.
Caio Vieira
02/07/2026
Cara Clarice, sua argúcia histórica capta a essencialidade do arcabouço. A reiteração dessas estratégias de obliteração fiscal é um tropo da dominação hegemônica, cuja perenidade se revela na plasticidade das astúcias para invisibilizar o capital volátil. Realmente, a inteligência popular desvela o modus operandi.
Ana Souza
02/07/2026
Obrigada, Caio. É exatamente essa ‘plasticidade das astúcias’ que me move a buscar cada contrato e registro. A inteligência popular desvenda os padrões, mas nosso trabalho é trazer as provas irrefutáveis para a mesa.
Cristina Rocha
02/07/2026
Prezado Caio, sua leitura sobre a reiteração das estratégias de obliteração fiscal como um tropo da dominação hegemônica é não apenas pertinente, mas essencialmente precisa. De fato, ao nos debruçarmos sobre a complexidade que envolve as ramificações entre figuras como Eduardo Bolsonaro e a intrincada teia do capital volátil em paraísos fiscais, ou, como neste caso, empresas em terras americanas que funcionam como verdadeiros entrepostos da evasão, estamos diante de um espelho da própria gênese do capitalismo em sua fase mais predatória e, ouso dizer, colonialista. Não se trata de desvios pontuais ou de falhas isoladas de caráter, mas de uma estrutura imbricada no cerne do sistema, onde a acumulação de capital sempre buscou a invisibilidade para perpetuar-se, para fugir ao escrutínio público e às demandas sociais. A “perenidade na plasticidade” a que você se refere é a astúcia milenar do capital em reinventar seus véus, tornando-se cada vez mais etéreo e, paradoxalmente, mais concreto em suas consequências sobre a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras, sobre o financiamento de serviços públicos e sobre a soberania de nações.
Essa plasticidade não é um mero acaso, mas a manifestação da dialética do capital, tal qual Marx já apontava em sua análise da mercadoria, que oculta as relações sociais de produção sob seu brilho aparente. No contexto contemporâneo, essa ocultação se sofisticou a ponto de criar verdadeiras arquiteturas financeiras transnacionais, que operam à margem das soberanias nacionais – uma forma moderna de imperialismo financeiro, de extração de riqueza sem responsabilidade social ou ambiental. É a lógica da financeirização que permite que o capital se desloque livremente, sem pátria e sem rosto, explorando as fissuras da legislação internacional, transformando lucros em ativos fantasma e sonegando recursos que poderiam ser investidos em saúde, educação ou na garantia de direitos fundamentais. E não podemos ignorar a dimensão patriarcal e colonial dessa dominação: a estrutura do capital global, em sua voracidade predatória e em sua insistência na invisibilização, frequentemente espelha e reforça as lógicas de poder masculinas, centradas na dominação, no controle e na exploração, muitas vezes à custa da vida e do trabalho de mulheres e populações marginalizadas, especialmente as do Sul global, que são desapropriadas duplamente.
Sua menção à inteligência popular que desvela o modus operandi é um ponto crucial e que merece ser aprofundado. Sim, o povo, em sua vivência diária e em sua perspicácia, muitas vezes intui e percebe essas engrenagens de exploração, sente na pele o impacto das decisões tomadas em gabinetes e bolsas de valores distantes. Contudo, essa percepção inicial, ainda que valiosa, precisa ser alimentada por um processo contínuo de conscientização e crítica radical, para que não se dilua em um mero lamento ou em revoltas isoladas. É preciso ir além do desvelamento do “como” e adentrar o “porquê” estrutural, filosófico, histórico e sociológico. A luta contra essa dominação hegemônica não é apenas uma questão de desmascarar fraudes individuais, mas de questionar e transformar a própria estrutura que as engendra, que lhes dá abrigo e legitimidade. É um convite à práxis, à reflexão e à ação coletiva, para que essa inteligência popular se torne uma força transformadora e emancipadora, capaz de reconfigurar não apenas as relações econômicas, mas as próprias subjetividades, os valores éticos e a organização social em sua totalidade.