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O estranho lobby da Folha pelo aumento nos preços do frango

0 Comentários🗣️🔥 O estranho lobby da Folha pelo aumento dos preços do frango Examinando com mais atenção a recente matéria da Folha de S.Paulo sob o título “Governo teme que veto à carne brasileira eleve preço no mercado interno”, fica evidente que se trata de um texto plantado pela indústria brasileira de carnes para pressionar […]

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O estranho lobby da Folha pelo aumento dos preços do frango

Examinando com mais atenção a recente matéria da Folha de S.Paulo sob o título “Governo teme que veto à carne brasileira eleve preço no mercado interno”, fica evidente que se trata de um texto plantado pela indústria brasileira de carnes para pressionar o governo federal.

Tudo no texto é bizarro. A matéria não apresenta fontes claras, escorando-se na muleta do “sob reserva” atribuída a supostos integrantes do setor, o que no jornalismo político é sempre a assinatura de informações repassadas por lobistas. Além disso, o texto é demasiadamente curto, evidenciando que sua única função é divulgar uma manchete alarmista em vez de aprofundar o assunto.

A restrição da União Europeia, baseada no uso excessivo de antimicrobianos na pecuária, está prevista apenas para setembro. Estamos no início de julho, o que garante à diplomacia e ao Ministério da Agricultura tempo de sobra para reverter ou contornar o embargo.

É importante fazer uma ressalva justa sobre a atitude da Europa. Ao contrário das tarifas americanas, que costumam ser surreais e sem fundamento técnico, o veto europeu tem sua razão de ser. O bloco europeu tem legitimidade em se preocupar com o uso indiscriminado de remédios e antibióticos na criação de frangos e bois.

Essa é uma preocupação, aliás, que os próprios consumidores brasileiros deveriam compartilhar, pois o excesso de medicação nos animais prejudica a saúde humana a longo prazo. Trata-se de um dilema complexo: é preciso combater os micróbios e manter a saúde dos rebanhos, mas sem que o excesso de substâncias químicas envenene o consumidor final. Portanto, o rigor europeu, neste caso específico, é compreensível.

O que não é compreensível, no entanto, é o malabarismo estatístico e econômico que a matéria da Folha faz para defender os interesses dos frigoríficos brasileiros. O texto argumenta que o possível veto geraria um impacto de 2,2 bilhões de reais e que isso seria repassado ao consumidor, encarecendo a carne nos supermercados logo antes das eleições.

Essa afirmação esbarra frontalmente na realidade dos números. Segundo os dados oficiais extraídos do sistema ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a União Europeia não é o gigante mercado comprador de carnes que o texto tenta pintar, especialmente no caso do frango. No acumulado dos últimos 12 meses até junho de 2026, a Europa inteira, somando todos os seus 27 países, comprou apenas 374,9 milhões de dólares de carne de frango do Brasil.

Para colocar isso em perspectiva, as Filipinas, um pequeno arquipélago no Pacífico, compraram no mesmo período 580,6 milhões de dólares do nosso frango. Ou seja, as Filipinas importam muito mais frango brasileiro do que o poderoso mercado europeu. A Europa responde hoje por meros 2% do total de frango que o Brasil exporta.

Como o consumo interno de frango absorve quase 80% de toda a nossa produção nacional (e apenas os 20% restantes vão para fora), a matemática é implacável: a União Europeia inteira representa irrisórios 0,4% da produção total brasileira de frango. O coração do consumo da nossa proteína aviária bate no Oriente Médio e na Ásia, com a Arábia Saudita, Japão e Emirados Árabes Unidos comprando quase 1 bilhão de dólares cada um, anualmente.

A magnitude das nossas exportações gerais e do nosso próprio consumo doméstico torna inviável que um problema pontual em um mercado com peso de apenas 2% cause qualquer abalo estrutural nos preços. Mais do que isso, a lógica econômica aponta exatamente para a direção contrária à anunciada pela matéria.

Se o Brasil deixa de exportar seu produto para a Europa e a produção interna se mantém inalterada, ocorre um aumento da oferta de carne de frango no mercado doméstico. Um excedente de produto nas prateleiras dos supermercados fatalmente força a queda do preço ao consumidor, e não a subida.

Outro fator que confirma a falta de sentido da matéria da Folha é que a inflação do frango hoje no Brasil está num dos menores níveis dos últimos anos. Segundo o IPCA-15 de junho de 2026, o preço do frango, no acumulado de 12 meses, está em -5,05%.

Enquanto no início de 2022 a variação sobre a proteína assustava os consumidores com uma alta acumulada de 17,34%, o produto iniciou desde então uma consistente trajetória de queda, reforçando o panorama de barateamento das carnes brancas. Essa retração contínua contrasta drasticamente com o cenário de crise vivenciado nos anos anteriores e representa um alívio direto no orçamento alimentar das famílias de menor renda.

O pico da deflação para o frango inteiro ocorreu em dezembro de 2023, quando a variação em 12 meses atingiu -7,43%. A partir daí, os preços seguiram estabilizados em patamares negativos, o que evidencia uma recuperação concreta do poder de compra e uma oferta abundante e bem estruturada da proteína no mercado interno.

Gráfico Inflação Frango

A indústria da carne percebe que terá de readequar processos sanitários ou absorver pequenas perdas em um de seus menores mercados. Para evitar isso, usa os grandes jornais para lançar uma ameaça velada: caso tenham qualquer contratempo lá fora, agirão em bloco para encarecer a comida dos brasileiros, transferindo um custo imaginário para a população. É, em suma, um lobby para tentar forçar o aumento dos preços sob falsos pretextos. A Europa e os seus consumidores têm toda a razão em cobrar qualidade da nossa carne, enquanto a nós, brasileiros, resta exigir que a nossa imprensa pare de atuar como relações públicas de frigoríficos.

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