Mandado do TPI contra Netanyahu volta ao debate após troca de acusações entre líderes americanos e amplia a repercussão internacional do caso
O embate entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (20). Trump saiu em defesa do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e garantiu que ele “não será preso” em solo americano, contrariando diretamente a posição do prefeito nova-iorquino. Assim, a disputa entre os dois políticos, que já vinha se arrastando desde as prévias democratas, ganha um novo e delicado capítulo internacional.
Tudo começou quando Mamdani revelou que sua administração mantém um “diálogo ativo” sobre a possibilidade de as autoridades de Nova York prenderem Netanyahu. A ocasião seria a vinda do premiê israelense à cidade em setembro, quando ele participaria da Assembleia Geral das Nações Unidas. Vale lembrar que Netanyahu é alvo de um mandado de prisão internacional, emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) em novembro de 2024, sob acusação de crimes de guerra.
Diante disso, o prefeito reforçou seu posicionamento em entrevista ao jornal New York Times, publicada no último sábado. Na ocasião, ele declarou que Netanyahu “pertence a Haia”, cidade-sede do tribunal internacional. Além disso, o prefeito confirmou que seu gabinete já está em contato com o departamento jurídico da cidade para avaliar quais medidas legais seriam cabíveis, caso o líder israelense de fato desembarque em território nova-iorquino.
Em resposta, Trump não demorou a se manifestar. Por meio de suas redes sociais, o presidente foi categórico: “Benjamin Netanyahu não será preso, de forma alguma, enquanto estiver nos Estados Unidos da América”. Na sequência, ele ainda direcionou críticas a outro alvo, afirmando que “os únicos que deveriam ser presos são aqueles que levaram o Irã a essa ESPIRAL DE MORTE E DESTRUIÇÃO sem precedentes”.
Dessa forma, o presidente reafirmou seu apoio irrestrito ao aliado israelense, ao mesmo tempo em que reforçou o tom combativo que costuma adotar contra opositores políticos, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos.
Essa nova troca de farpas não surge isoladamente. Pelo contrário, ela representa apenas o mais recente episódio de uma relação conturbada entre Trump e Mamdani. Logo após a eleição do prefeito, no outono passado, os dois chegaram a manter uma espécie de trégua cautelosa. No entanto, essa aproximação não durou muito tempo.
Mais recentemente, por exemplo, Trump classificou de “comunistas” os candidatos apoiados por Mamdani durante as prévias democratas. Consequentemente, o clima entre os dois voltou a esfriar, e episódios como o atual tendem a aprofundar ainda mais essa distância política.
Apesar da postura firme, Mamdani também demonstrou cautela em suas declarações. Durante uma coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira, o prefeito acusou Netanyahu de ser “o arquiteto do genocídio” cometido contra os palestinos em Gaza. Por outro lado, ele fez questão de esclarecer os limites de sua atuação, afirmando que “meu governo seguirá todas as leis locais aplicáveis”.
Ou seja, embora o discurso do prefeito seja duro do ponto de vista político e moral, ele evita, ao menos por ora, prometer qualquer ação que extrapole o que a legislação americana permite.
Israel, por sua vez, rejeita veementemente as acusações de genocídio contra os palestinos. Segundo o governo israelense, a guerra em Gaza representa uma ação legítima de autodefesa, motivada pelo ataque de 7 de outubro de 2023, conduzido pelo Hamas — organização classificada como terrorista tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Europeia. Naquela data, militantes invadiram Israel, mataram cerca de 1.200 pessoas e sequestraram aproximadamente 250 reféns.
Ainda assim, é importante destacar um detalhe fundamental: tradicionalmente, chefes de Estado em visita oficial aos Estados Unidos gozam de imunidade diplomática. Além disso, os EUA não integram o Tribunal Penal Internacional e, portanto, não são obrigados a cumprir automaticamente seus mandados.
Não por acaso, em julho, o Departamento de Estado americano lançou uma campanha voltada a enfraquecer o que considera uma ameaça representada pelo TPI contra cidadãos dos Estados Unidos. Esse movimento reforça, na prática, o discurso de Trump e reduz consideravelmente as chances de qualquer ação concreta contra Netanyahu em solo americano.
Por fim, o próprio Netanyahu decidiu revidar as declarações do prefeito nova-iorquino. Em entrevista a uma emissora de rádio, o premiê israelense afirmou que Mamdani “secretamente odeia os Estados Unidos” e “apoia” o Hamas. Assim, o que começou como uma disputa jurídica e simbólica sobre soberania e justiça internacional se transforma, cada vez mais, em um confronto direto e pessoal entre três figuras políticas de peso.
Diante desse cenário, resta acompanhar se a viagem de Netanyahu a Nova York, prevista para setembro, de fato ocorrerá sem intercorrências — ou se a polêmica ganhará ainda mais força nas próximas semanas.


Lucas Alves
20/07/2026
Proteção americana a Netanyahu contra o TPI? Mais um capítulo da seletividade geopolítica. Os EUA fazem questão de afirmar a soberania do tribunal quando convém, mas tratam o mandado como ilegítimo quando atinge um aliado. Alguém ainda acredita que esse jogo tem regras universais?
Maria Silva
21/07/2026
É exatamente essa incoerência que desgasta a credibilidade de qualquer instância internacional, independentemente de partidos.
Sandra Martins
20/07/2026
Eu fico me perguntando até que ponto essa proteção de Trump a Netanyahu não é mais um gesto político do que uma questão de justiça internacional. Como cristã, acredito que ninguém está acima da lei, nem mesmo aliados poderosos. Será que os líderes evangélicos que tanto aplaudem Netanyahu param para pensar no que significa blindar alguém de um tribunal que investiga crimes de guerra? Apoiar Israel não pode virar desculpa para silenciar a verdade.