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Indústria brasileira perde espaço para concorrentes?

Por Miguel do Rosário

13 de novembro de 2011 : 23h02

 

Hoje eu me deparei com uma matéria na Folha que merece uma boa análise. Intitulada “Indústria perde espaço para concorrentes”, ela traz dados da ONUDI (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial). Ela tem uma ilustração bonita, que não consegui fotografar para lhes mostrar, mas os dados que usa são esses:

MVA é uma sigla em inglês (Manufactured Value Added) que significa Valor Agregado de Manufaturados, ou seja, o PIB industrial de cada país, região e no mundo. A tabela acima mostra:

  1. A participação percentual da produção industrial brasileira na indústria mundial, na última coluna (World).
  2. A participação do Brasil junto aos países em desenvolvimento.
  3. A participação do Brasil junto aos países em desenvolvimento menos a China.
Eles trazem uma coluna sem a China porque é um pouco de covardia fazer comparações com a China.
Enfim, vamos analisar. Em primeiro lugar, trata-se de uma matéria muito interessante, com dados consistentes, e por isso eu parabenizo a repórter. Uma pena que as editorias de economia tenham essa obsessão em oferecer apenas o aspecto negativo das informações, o que acaba prejudicando uma visão mais consistente da conjuntura.
Quem ler a matéria até o final, o que é raro, terá uma visão equilibrada. Cito alguns trechos, que deveriam constar no subtítulo, ou mesmo no título, se o jornal tivesse algum interesse em evitar que seus leitores construíssem, desnecessariamente, uma visão pessimista sobre o país.

O economista Júlio Gomes de Almeida, do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), observa que esse patamar mantém a indústria brasileira entre as maiores do mundo. (…)

O economista da USP Carlos Eduardo Gonçalves, por sua vez, considera normal que a indústria cresça menos e perca espaço na economia. (…) Ele observa que a industrialização do Brasil ocorreu com mais força nos anos 70 e que agora o país trilha o caminho dos países desenvolvidos, onde o setor de serviços ganha mais relevância.

Fuçando os mesmos dados a que a repórter teve acesso, disponíveis no site da ONUDI, encontrei outros que nos fornecem uma visão mais abrangente da mesma realidade.

Por exemplo, a ONUDI traz o peso das exportações industriais de cada país no mundo. Vamos ver como fica o Brasil nessa estatística:

Observe que a participação das exportações brasileiras de produtos industrializados no mundo cresceu de 0,85% em 2000 para 1,09% em 2005 e se manteve em 1,07% em 2009. Na coluna dos países em desenvolvimento menos a China (com ela, é covardia), crescemos de 4,48% em 2000 para 5,78% em 2009.

Confira agora a mesma tabela, mas com uma coluna para a América Latina:

O peso da indústria brasileira na América Latina cresceu de 28,34% em 2000 para 29,39% em 2009, e o peso das exportações de produtos industriais na AL subiu de 16,97% em 2000 para 23% em 2009.

Entretanto, a tabela-chave, que nos permite compreender porque outros países em desenvolvimento registram um crescimento industrial superior ao do Brasil, é esta:

Repare nas linhas MVA per capita (produção industrial per capita). No Brasil, ela cresceu de $ 552,16 dólares por habitante em 2000 para $ 594,08 em 2009. Nos países em desenvolvimento (exclusive a China), a produção industrial per capita é de $ 233,89 dólares em 2000 e $ 282,18 em 2009; com a China, é de $ 252,32 em 2000 e $ 399,21 em 2009.

Ou seja, os números mostram que o Brasil tem uma produção industrial per capita muito superior a do conjunto dos países em desenvolvimento, mesmo incluindo a recém-ultra industrializada China. É evidente que, se eles tem uma base industrial per capita muito menor, o seu índice de crescimento será muito maior que o do Brasil. Até porque, como lembrou o especialista entrevistado pela Folha, após um certo grau de desenvolvimento industrial, os setores que mais crescem passam a ser o de serviços, e não mais a indústria.

De qualquer forma, é preciso atentar para o fato de que esses são números crus, primários, que não mostram exatamente que setores crescem ou caem. Não acho muito interessante, para um país, que apenas a indústria de bugingangas floresça, como é o caso de algumas regiões da Ásia. As indústrias mais importantes, naturalmente, são aquelas ligadas à construção civil, aos alimentos, à química, à siderurgia, a combustíveis e a veículos. Outro fator que é importante comparar é o nível de salário. Quais são os países cujas indústrias estão oferecendo melhores salários? A essa altura do campeonato, não interessa ao Brasil exibir um alto crescimento industrial, se o mesmo não vier acompanhado de melhores salários para os trabalhadores.

Segundo a ONUDI, o salário por empregado nas indústrias brasileiras, cresceu de $ 5,8 mil em 2000 para $ 9,2 mil dólares em 2009. Na China, subiu de $ 1,4 mil para $ 3,8 mil. É interessante observar que os operários chineses estão ganhando bem mais do que antigamente, mas ainda falta muito para atingirem a renda de seus colegas brasileiros. Mas como a China tem um custo de vida muito menor, também não vale muito comparar com a China. Então comparemos com a Índia, outro país que vem apresentando um elevado índice de crescimento industrial nos últimos anos. O salário por empregado na Índia cresceu de $ 1,35 mil em 2000 para $ 2,35 mil dólares em 2009.

Nota-se, portanto, que o salário do operário brasileiro está em patamar bem mais elevado do que de seus colegas em outros países em desenvolvimento, o que se explica por um nível mais avançado de industrialização. Esses países partem de um patamar muito baixo de industrialização, com salários ainda muito reduzidos; é normal, até saudável, portanto, que eles apresentem um crescimento mais acelerado e que o Brasil apresente alguma queda em sua participação percentual neste grupo.

Na verdade, o índice de industrialização per capita e o salário dos brasileiros fazem com que as comparações com outros países em desenvolvimento fiquem distorcidas. O Brasil precisa se comparar às grandes potências, até porque ele já é uma grande potência. Aí sim a coisa pega para o Brasil: nos EUA, de 2000 a 2009, o salário médio do operário na indústria cresceu de $ 35,6 mil para $ 45,68 mil.

O mais ousado mesmo, na minha opinião, é fazermos uma comparação logo com o maior de todos. Separei os setores industriais mais estratégicos, para a gente verificar como estes se comportaram de 2000 a 2007, no Brasil e nos EUA:

Observe o primeiro item, número 2320, de derivados industrializados de petróleo. Repare que, nos EUA, o percentual de importação destes produtos, sobre o consumo total, cresceu de 12,48% para 12,96%, enquanto no Brasil caiu de 18,85% para 12,64%. Ou seja, paramos de importar para produzir internamente.

Mantenham em mente que estou falando dos setores mais estratégicos para um país. A Indonésia pode produzir muito carrinho de brinquedo e guarda-chuva, mas qual a sua produção de derivados de petróleo, siderurgia, motores e aparelhos eletrônicos avançados?

Em outro setor fundamental para o desenvolvimento do país, a produção industrial de ferro e aço, tivemos uma leve piora no índice de importação: de 2000 para 2009, o percentual de importação sobre o consumo cresceu de 6,18% para 6,94%. Culpa do Agnelli e da Vale, que não investiram em siderurgias. Nos próximos anos, este número forçosamente apresentará melhoras, porque agora temos várias siderurgias sendo construídas no país, sobretudo depois que o governo federal deu uma prensa na Vale, e os chineses aportaram aqui fazendo investimentos bilionários.

Nos EUA, o setor de ferro e aço também apresentou uma leve deterioração, mas de qualquer forma, eles tem um índice de importação muito pior que o do Brasil: em 2007, importaram 25% do que consumiram.

No setor de veículos motorizados, o Brasil deu um banho nos EUA. Enquanto eles importaram 40% do que consumiram em 2007, o Brasil registrou um percentual de 10,8% no mesmo ano; em 2000, EUA e Brasil apresentaram índices de 35% e 15%, respectivamente.

Nos segmentos de produtos plásticos e de computadores, o Brasil também apresenta, por incrível que pareça, índices de industrialização superiores ao dos EUA. No segmento de computadores, os EUA importaram 81% do que consumiram em 2007, contra 28% no Brasil. No segmento de plásticos, os EUA importaram 14% do consumo, contra 7,6% no Brasil.

Repito, estou comparando o Brasil com o país mais industrializado do mundo. Repare que temos, portanto, índices de industrialização superiores ao dos EUA em alguns setores importantes, como derivados de petróleo, veículos motorizados, plásticos e computadores.

Não estou sendo megalomaníaco e achando que estamos mais avançados que os EUA. Sei que ainda temos algumas décadas pela frente antes de chegar perto de nossos irmãozinhos do norte em termos de tecnologia e infra-estrutura. O que as pessoas precisam entender é que, num país altamente industrializado como os EUA, os setores que vem puxando a economia são os serviços: a produção de softwares, filmes, sistemas de segurança, patentes intelectuais, etc.

Com isso, quero provar a tese de que é um tanto estúpida essa obsessão da mídia brasileira em fuçar estatísticas para exibir números descontextualizados que provem o nosso fracasso, nosso subdesenvolvimento e nossa decadência. Não é isso o que está acontecendo.

A indústria brasileira está ampliando fortemente a sua base, com vistas sobretudo ao consumo doméstico e ao abastecimento de nossos vizinhos. Todas as grandes indústrias do mundo estão instalando unidades no Brasil, ou planejando fazê-lo. O dado mais importante não é ver a oscilação sazonal de um mês para outro. Isso não diz nada. Temos que ver os grandes investimentos e contemplar a situação do alto.

Além disso, temos que cuidar para não nos deixarmos engambelar facilmente por lobbies industriais, que cooptam inclusive setores sindicais, interessados todos em crédito subsidiado do governo. Os donos da indústria influenciam as mídias corporativas, e os sindicatos, a esquerda e suas redes sociais, configurando um domínio completo da comunicação política. Se for o caso de necessidade, acho importante que o governo apóie, mas prestemos bastante atenção para não ajudarmos quem não precisa. O governo precisa aumentar os investimentos em saúde, em educação, em ciência e tecnologia; os magnatas da indústria brasileira podem muito bem viver sem amparo oficial, os pobres brasileiros não.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Vera Silva

14 de novembro de 2011 às 12h00

Miguel,
Para quem como eu que não entende deste assunto, seu artigo esclareceu muita coisa.
Continue anos ajudando a entender o economês.

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