Fundador do Instituto Ideia vê chance de Lula vencer no 1° turno

Os mistérios do jogo político

Por Miguel do Rosário

15 de janeiro de 2013 : 16h54

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O blogueiro Luis Nassif publicou hoje uma interessante análise sobre o jogo político no Brasil. Sua tese assenta-se numa dicotomia entre pombos e falcões, sendo os primeiros identificados com Lula e Dilma, eternos conciliadores, e os segundos com a atual direção do PT, mais agressiva. Isso do lado da situação. No lado dos adversários, teríamos, como líder dos falcoeiros, a mídia, a quem interessa um cenário de guerra infinita, porque vende mais jornais e exibe seu poder, ampliando seu potencial de barganha.

A análise de Nassif conclui que há uma relação dialética, quase irônica. Quanto mais beligerante o clima político, quanto mais a mídia ataca o governo e o PT, mais a atual direção do Partido dos Trabalhadores, liderada por Rui Falcão, ganha força sobre seus adversários internos na legenda. A força vem de dentro – através da indignação crescente de filiados; e de fora, via apoio de militantes e simpatizantes à luta do partido para se defender.

Nassif considera, porém, mais provável um cenário de normalização, nos seguintes termos:

Os partidos convergem para o centro, ampliando o leque das alianças partidárias, a exemplo das democracias europeias, e disputando quem entrega o melhor produto para o eleitor (qualidade de vida, desenvolvimento, gestão eficiente etc.). A disputa política se dá nas urnas.

Esse desenho comporta um partido social democrata um pouco à esquerda (PT), outro mais à direita, puxado por um presidenciável, partidos médios gravitando entre um e outro e pequenas agremiações ocupando a esquerda radical e a direita radical.

É o cenário provável para a democracia brasileira.

Em caso de concretização deste cenário, a principal perdedora, segundo Nassif, seria a mídia:

A mídia perde com o Cenário de Normalização; cresce com o Cenário de Crise. Daí sua aposta total no indiciamento de Lula, único fator capaz de romper o Cenário de Normalidade e jogar a política no Cenário de Crise.

Neste post, analisaremos a teoria de Nassif, sopesando as principais variáveis que influenciarão o jogo político dos próximos anos.
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De fato, é irônico – e natural – que os setores mais bélicos do PT ganhem força na proporção que recrudescem os ataques midiáticos ao partido. Isso é muito comum em política. Wiston Churchill apenas chegou ao poder quando se tornou claro que Hitler representava uma ameaça direta à Inglaterra. Os lobistas da indústria bélica tem o costume de inventar guerras e inimigos para ampliarem seus lucros. Há setores do PT que se beneficiam do clima beligerante, porque isso exige uma direção mais forte, mais agressiva, mais sólida, mais unificada. Guerra pede guerra.

Então temos dois combatentes principais na arena política brasileira: um grupo de corporações midiáticas, formado por Globo, Abril, Estado e Folha, de um lado; e o PT, de outro. Esse “consórcio” midiático tem a vantagem significativa de não dependerem dos humores eleitorais, e sua principal arma é justamente o potencial de inflingir danos eleitorais ao adversário.

A força do PT, por outro lado, reside no controle dos imensos recursos de poder inerentes à gestão de cargos executivos e legislativos.

O ator midiático tem um outro trunfo: embora não consiga mais influenciar, de maneira relevante, o conjunto do eleitorado, ele consegue ainda exercer grande influência em alguns setores sociais específicos. Entre estes, o mais importante para sua luta política é o Judiciário, com quem partilha duas importantes características: a veia aristocrática e pedante de quem não depende da massa ruidosa; e a hostilidade patrimonialista, estamental, contra os “políticos”. A elite do funcionalismo público, orgulhosa do poder que conquistou com seus próprios méritos, mediante a entrada via concurso, tende a se tornar um estamento aristocrático e antipopular, que assiste concertos de música clássica e lê a Ilustrada, daí a convergência ideológica entre Judiciário, classe média conservadora e mídia.

Quando falo mídia, refiro-me sempre à um grupo bem específico de empresas, que atuam em consórcio.

A blogosfera é um ator que vem ganhando importância, e se beneficia também do cenário de guerra. O seu governismo renhido se explica facilmente pelo fato de suprirem uma demanda social. Há blogs anti-governo, neutros, mas os que chamam a atenção são os governistas, porque são estes que os milhões de leitores simpáticos ao governo (e mesmo nem tão simpático) procuram para terem um contraponto à virulência midiática.

Ainda não se sabe ao certo o tamanho e a força da blogosfera no Brasil. Temos algumas estatísticas, poucas, ainda não suficientes e não organizadas. O que se sabe com certeza, porém, é que a blogosfera (cujo conceito engloba o universo de comentaristas e usuários de redes sociais) assumiu um papel de vanguarda na luta politica. A blogosfera também quer guerra, e por isso mesmo se ressente toda vez que vê a presidente em relações amistosas com o “inimigo”.

Dilma Rousseff, por sua vez, tem se caracterizado por uma postura extremamente cautelosa em termos de imagem pública. Pertencente à escola de Lula, a presidente é uma conciliadora. Aliás, cumpre esclarecer uma confusão comum nos setores mais beligerantes das redes sociais: Lula apenas ensaiou críticas à mídia no segundo mandato, e a entrevista que concedeu a blogueiros (numa corajosa provocação à grande mídia) se deu no penúltimo mês do oitavo ano de governo, quando já havia superado o perigo eleitoral (não concorreria mais e havia elegido sua sucessora).

A presidente, todavia, conseguiu uma proeza importantíssima na guerra da comunicação: incorporou à massa de simpatizantes do governo nacos enormes da classe média, e criou uma blindagem midiática extremamente dura. A mídia tem dificuldades para encontrar um flanco vulnerável para atacar a rainha do tabuleiro, e talvez por isso mesmo tenha optado, nesses primeiros dois anos, a derrubar piões, torres e cavalos.

É bem sintomático que a direita esteja se organizando nas redes sociais para protestar contra… Lula, ao invés de atacar a verdadeira liderança do PT, a atual presidente da república.

Para os próximos anos, essa dicotomia deverá recrudescer. Interessa ao governo que se dê assim: que a guerra política e ideológica seja assumida pelo PT, poupando a presidente dessa tarefa. O próprio Lula tem sido de grande valia para a presidente, na medida em que desvia o foco do ódio político para si mesmo, permitindo que Dilma caminhe mais tranquilamente pelos parques da opinião pública. O ex-presidente parece inclusive fazer isso deliberadamente, visto que nem se preocupa em se defender. Ele recebe os golpes com a indiferença de quem sabe o que está fazendo. E possivelmente com a tranquilidade e concentração de quem prepara um contra-ataque de grandes proporções…

Para 2014, portanto, não se esperam grandes reviravoltas no jogo político. Teremos Dilma Rousseff como favoritíssima, contra Aécio Neves. Marina Silva, se conseguir criar a tempo seu partido, tentará novamente faturar o voto de protesto. Entretanto, alguns analistas do próprio campo conservador, temem que a nova legenda de Marina produza no PSDB um efeito similar ao causado ao DEM pelo PSD. Segundo Merval Pereira:

O possível novo partido de Marina Silva pode ter para o PSDB um efeito semelhante ao que o PSD teve para o DEM: desidratá-lo ainda mais

Na mesma coluna, o próprio Merval, sempre tão batalhador e determinado em sua luta contra o governo, admite o favoritismo da situação:

Mesmo com os problemas que tem pela frente, o governo petista continua sendo o favorito para 2014 pelo simples fato de que na hora devida, suas diversas facções se unem pelo poder, com Lula ou Dilma, enquanto os tucanos se dividem para impedir que adversários internos vençam.

O caso Eduardo Campos tornou-se outro vexame da mídia. Após a divulgação dos resultados eleitorais de 2012, houve um princípio de histeria no campo conservador, em função de suas derrotas, cujo principal sintoma foi o abraço desesperada a uma teoria absurda: a possibilidade de Eduardo Campos formar uma chapa com Aécio Neves.

Não é absurdo que Campos se lance como candidato a presidente. Partidariamente, seria uma estratégia útil, porque alavancaria os votos em legenda, e não seria de todo desastroso para o governo, porque roubaria também muitos votos da oposição. Desidrataria completamente, por exemplo, uma possível terceira via liderada por Marina Silva, com a vantagem, para o governo, de que seria uma terceira via não hostil ao governo, como é o caso de Marina. A ex-senadora hoje tende a ficar neutra ou apoiar a oposição num segundo turno, enquanto Campos seria apoio certo a Dilma.

Mas Campos tem prometido, nos últimos meses, que não concorrerá, e que apoiará Dilma em 2014. Tem feito isso mais vezes do que seria prudente caso pretendesse mudar de ideia e se lançar candidato, pois incorreria no risco de ser tratado como alguém sem palavra.

O jogo de 2014 está tão marcado que a atenção dos analistas tem se voltado cada vez mais para 2018, o que é um pouco ridículo, em função da quantidade imensa de novas variáveis que podem surgir até lá. Talvez o maior risco político no ar seja o clima de já-ganhou. Os interesses mobilizados para disputar o poder no Brasil são grandes demais para se pretender que não haverá surpresas. Como diziam os antigos, a partida só acaba quando termina.[/s2If]

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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