Ato em defesa da imprensa

Marina empurrou o PSB para a direita

Por Miguel do Rosário

10 de outubro de 2013 : 15h25

Wanderley Guilherme voltou mais afiado que nunca. Em seu artigo de hoje, o professor analisa a momentosa entrada de Marina Silva no partido de Eduardo Campos. E dispara:

“Marina pintou-se com as cores da reação (…). Abandonando a retórica melíflua a ex-senadora revela afinal a coerência entre suas posições políticas e as sociais. Empurrou o PSB para a direita de Aécio Neves, a um passo de José Serra.”

Coluna Cafezinho com Wanderley

 

Marina, você se pintou

Por Wanderley Guilherme dos Santos

Em 48 horas de fulminante trajetória a ex-senadora Marina Silva provocou inesperados solavancos no panorama das eleições em 2014. Renegando o que há meses dizia professar aderiu ao sistema partidário que está aí, mencionou haver abrigado o PSB como Plano C, sem mencioná-lo a desapontados seguidores, e declarou guerra a um suposto chavismo petista. De quebra, prometeu enterrar a aniversariante república criada pela Constituição de 88, desprezando-a por ser “velha”. Haja água benta para tanta presunção.

Marina e seguidores não consideravam incoerente denunciar o excessivo número de legendas partidárias e ao mesmo tempo propor a criação de mais uma. Ademais, personalizada. O “Rede” sempre foi, e é, uma espécie de grife monopolizada pela ex-senadora. Faltando o registro legal, cada um tratou de si, segundo o depoimento de Alfredo Sirkis. Inclusive a própria Marina. Disse que informou por telefone ao governador Eduardo Campos que ingressaria no Partido Socialista Brasileiro para ser sua candidata a vice- presidente. Ainda segundo declaração de Marina, o governador ficou, inicialmente, mudo. Não era para menos. Em sua estratégia pública, Eduardo Campos nunca admitiu ser um potencial candidato à Presidência, deixando caminhos abertos a composições. Eis que, não mais que de repente, o governador é declarado candidato por sua auto-indicada companheira de chapa. Sorrindo embora, custa acreditar que Eduardo Campos esteja feliz com o papel subordinado que lhe coube no espetáculo precipitado pela ex-senadora.

Há mais. Não obstante a crítica às infidelidades de que padecem os partidos
que aí estão, Marina confessou sem meias palavras que ingressava no PSB, mas não era PSB, era “Rede”, e seria “Rede” dentro do PSB. Plagiando o estranho humor da ex-senadora, o “Rede” passava a ser, dali em diante, não o primeira partido clandestino da democracia, mas o primeiro clandestino confesso do Partido Socialista Brasileiro. Não deixa de ser compatível com a sutil ordem de preferência de Marina Silva. Em primeiro lugar vinha a criação da Rede, depois a pressão para que a legenda fosse isenta de exigências fundamentais para a constituição de um partido conforme manda a lei e, por fim, aceitar uma das legendas declaradamente à disposição.

Decidiu-se por uma quarta opção e impor-se a uma legenda que não é de conhecimento público lhe tenha sido oferecida. Enquanto políticos trocam de legenda para não se comprometerem com facções, a ex-senadora fez aberta propaganda de como se desmoraliza um partido: ingressar nele para criar uma facção. Deslealdade com companheiros de percurso, ultimatos e sabotagem de instituições estabelecidas (no caso, o PSB), não parecem comportamentos recomendáveis a quem se apresenta como regeneradora dos hábitos políticos.

O campo das oposições vai enfrentar momentosas batalhas. Adotando o reconhecido mote da direita de que o Partido dos Trabalhadores constitui uma ameaça “chavista”, Marina pintou-se com as cores da reação, as mesmas que usa em suas preferências sociais: contra o aborto legal, contra o reconhecimento das relações homoafetivas, contra as pesquisas com células tronco, enfim, contra todos os movimentos de progresso ou de remoção de preconceitos. Abandonando a retórica melíflua a ex-senadora revela afinal a coerência entre suas posições políticas e as sociais. Empurrou o PSB para a direita de Aécio Neves, a um passo de José Serra. É onde Eduardo Campos vai estar, queira ou não, liderado por Marina Silva. As oposições marcham para explosivo confronto interno pelo privilégio de representar o conservadorismo obscurantista.

 

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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17 comentários

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Darío García

17 de outubro de 2013 às 16h16

“DISRUPTURA”

Discurso de algumas
Igrejas e dos
Senhores
Ruralistas
Unificados pelo
PIG para
Trair a
Unidade nacional sob o comando dos mais
Reacionários e oportunistas
Atores políticos e empresariais.

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Maria Mercedes Nobre

15 de outubro de 2013 às 23h47

ELA SE PERDEU, TRAIU SUA HISTÓRIA E LEVOU UMA DAS FIGURAS MAIS SIMPÁTICAS DO CENÁRIO POLÍTICO NACIONAL, HERDEIRO DE ENORME TRADIÇÃO PROGRESSISTAS A PERDER-SE TAMBÉM.

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Jose Espirito Santo

15 de outubro de 2013 às 05h31

QUEM vota na CANALHARINA , é Mais CANALHA do que ela .

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Jose Espirito Santo

15 de outubro de 2013 às 05h29

Ela vendeu o figado do PSB , vão logo morrer do pior tipo de inanição , a TRAIÇÃO , ELA É O JUDAS DO CHICO MENDES .

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Luisa

11 de outubro de 2013 às 10h16

Textáço, magistral

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Luiz Fernando Dudu Azevedo

11 de outubro de 2013 às 02h05

Cafézinho, o Wanderley escreveu que “…Marina pintou-se com as cores da reação…”! Isso é agressão. Temos que discutir com ela as posições dela. Confrontar essas posições com aquelas do Eduardo Campos. Mas antes disso tudo, devemos lutar para tentar influir no programa político dos candidatos: todos, sem exceção, até hoje não se importaram muito em saber o que o cidadão quer e COMO ELE PODE AJUDAR!!!

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Julienn Fernandes

11 de outubro de 2013 às 01h22

A vingança de Marina, a seguir, cenas do próximo capítulo…

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O Cafezinho

11 de outubro de 2013 às 00h56

luiz fernando, o wanderley não agrediu. quem chegou com muita agressividade foi a marina, falando que não está pensando mais em ser candidata e sim em combater o “chavismo do PT”, e fundar uma “nova república” – uma república recém-iniciada, em 1988.

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Maria J. Gama

11 de outubro de 2013 às 00h55

Perfeita análise!

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Jorge Silva

11 de outubro de 2013 às 00h44

O PSDB está longe de ser um partido de extrema direita…

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Luiz Fernando Dudu Azevedo

11 de outubro de 2013 às 00h42

Marcelo, demonizar a Marina não vai dar em nada! Fico surpreso com o posicionamento do Wanderley Guilherme dos Santos. Acho que ao invés de agredir, devemos discutir com ela as posições que afirmam ela ter: “…, Marina pintou-se com as cores da reação, as mesmas que usa em suas preferências sociais: contra o aborto legal, contra o reconhecimento das relações homoafetivas, contra as pesquisas com células tronco, enfim, contra todos os movimentos de progresso ou de remoção de preconceitos”. ESCLAREÇO: NÃO TENHO AINDA CANDIDATO.

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Jorge Silva

11 de outubro de 2013 às 00h40

O problema não é o PT ter o Wanderley ao seu lado e sim o Wanderley ter o PT…

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    Thiago Silva

    11 de outubro de 2013 às 04h46

    Quanta leviandade…

    Responder

O Cafezinho

11 de outubro de 2013 às 00h05

Binho, o artigo é do professor Wanderley Guilherme, maior cientista político vivo da América Latina. Se ele é “porta-voz” do PT, é uma honra para o PT. Melhor ter um Wanderley a seu lado, do que a família Borhausen…

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Antônio Carlos

10 de outubro de 2013 às 20h28

A Marina Silva, em termos de conteúdo político, é irrelevante. Equivale ao Eduardo Campos e a qualquer Zé da Barrica da nossa política. O seu cacife, como dos demais políticos da oposição, decorre apenas de contar com a grande mídia oposicionista e grupos econômicos para sustentar a sua candidatura. Assim, qualquer que for o adversário de Dilma em 2014, a disputa ficará do mesmo tamanho. Ou seja, o PIG e os patrocinadores são mais fortes do que esses candidatos inflados.

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Binho Vianna

10 de outubro de 2013 às 20h02

Cafezinho reflete o medo do PT em relação a Marina pois é porta voz informa do PT

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Nandinho Guerra Jr.

10 de outubro de 2013 às 18h49

ela pode ter empurrado, ainda mais, o psb pra direita, mas já faz um bom tempo que ele deixou de ser socialista, não foi ela quem o tornou de direita

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