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Considerações sobre produtividade & outros desafios

Por Miguel do Rosário

21 de janeiro de 2014 : 14h52

Folheando o Valor enquanto almoçava, topei com uma reportagem que explica um bocado a explosão de ansiedade em setores de classe média que vimos em 2013. Relatório da Organização Mundial do Trabalho, divulgado recentemente, sobre as tendências mundiais do emprego, aponta para os riscos enfrentados por países que investem no aumento da produtividade no trabalho.

Alguns trechos da matéria:

“Um exemplo diferente é encontrado no Brasil, que tem experimentado crescimento econômico relativamente modesto nas últimas décadas”, diz a OIT. Muitos trabalhadores que deixaram a agricultura foram incorporados em empregos com baixa produtividade no setor de serviços, e não em indústrias com maior produtividade. Além disso, boa parte da indústria local não se beneficiou de inovações ou diversificações significativas, “e o resultado é que seus ganhos de produtividade não atingiram os níveis que sustentam o crescimento econômico”. (…)

A OIT chama a atenção para análises apontando o risco da “armadilha da renda média”, na qual um país obtém rápida transformação setorial nas primeiras bases do crescimento econômico, mas depois mostra-se incapaz de melhorar a produtividade e a inovação, que podem levá-lo a renda maior.

O alerta é válido, na minha opinião. Lembro-me que, logo no início do governo Dilma, o professor Wanderley Guilherme já alertava que a nova gestão enfrentaria exatamente esse tipo de problema: após a melhora dos índices sociais, registrada no governo Lula, as demandas sociais tenderiam a ser mais complexas e mais difíceis de atender no curto prazo.

Além da produtividade, acho que o Brasil merecia também grandes reformas na área das licitações, que é onde se concentra a maoria dos problemas de corrupção e baixa qualidade dos serviços prestados.

Com o notório aumento no número de brasilieros viajando ao exterior, em especial para nações super-desenvolvidas, tem aumentado o choque cultural desses viajantes com o que encontram em seu próprio país, quando retornam ao lar. Por que as ruas e estradas no Brasil são feitas de material quase descartável, formando buracos com tanta facilidade? Qual o material usado? Quando se faz uma licitação para se asfaltar uma rua ou estrada, o Estado leva em consideração, com o rigor necessário, a durabilidade do material? Ou a questão do preço fica em primeiro plano?

Esse tipo de problema é um dos obstáculos clássicos para o Brasil passar para uma etapa superior de desenvolvimento. Não basta apenas trazer os miseráveis para uma suposta classe média, avaliada segundo critérios extremamente baixos; é preciso também oferecer às atividades produtivas a chance de elevar a sua produtividade, para que o país possa, efetivamente, crescer econômicamente.

Outro ponto que o Brasil terá de discutir é a questão da meritocracia. Não podemos deixar que a direita se aproprie de um tema que, historicamente, sempre foi caro à esquerda. Os brasileiros da faixa inferior da pirâmide social merecem serviços públicos de qualidade executados por servidores de elevada competência e engajamento profissional. Se a esquerda se deixar manietar pelo corporativismo, se os próprios sindicatos e centrais não lutarem contra o corporativismo, o povo irá votar em candidatos que prometam pensar com mais objetividade na qualidade e no mérito dos profissionais da rede pública.

A estabilidade no serviço público foi uma conquista importante, e tem de ser preservada para evitar processos de demissão em massa sempre que um novo político ascende ao poder. Mas precisa ser relativizada, segundo regras de bom senso, para que não permitam os descalabros profissionais que assistimos no serviço público. Servidores públicos negligentes sempre põem a culpa na precariedade do ambiente de trabalho, mas a sua negligência se integra a uma cultura geral de incompetência que prejudica todo o sistema público nacional. Médicos que não trabalham precisam ser substituídos por profissionais ativos, engajados, até mesmo entusiásticos. A mesma coisa vale para professores, engenheiros, ou qualquer servidor público.

Um outro fator fundamental para injetar energia na indústria brasileira, a meu ver, é investir no setor ferroviário de alta velocidade, incluindo aí metrôs, trens de superfície (VLTs) e trens balas a ligar grandes cidades. Para fugirmos da dependência que temos, no Brasil, da indústria automobilística, e também para oferecermos uma solução para a crise de mobilidade urbana de nossas metrópoles, temos que ter trens de alta velocidade.

Onde está o projeto do trem-bala? Por que ele é adiado indefinidamente? Por que o governo não consegue transmitir à sociedade o grau de sua importância? Por que essa covardia? As manifestações de 2013 parecem ter feito o governo se acovardar mais uma vez, receoso de que o trem-bala fosse visto como uma obra faraônica desnecessária. Ora, é preciso fazer a sociedade enxergar o trem-bala como um investimento integrante de um novo projeto de país. É preciso mostrar o que a China está fazendo. A televisão aberta precisa mostrar aos brasileiros que todos os países modernos ou em vias de se modernizarem investiram e continuam investindo em grandes projetos ferroviáerios.

O trem-bala vai custar uma fortuna porque é um projeto inaugural, todo elaborado com peças importadas e executado por mão-de-obra importada, visto que não temos tecnologia ou know-how para construir trens de alta velocidade. Mas o projeto implica em transferência de tecnologia e construção de fábricas no Brasil para as peças de reposição. Se o projeto for integrado a um plano maior, de ligar todas as capitais com trens-balas e criar uma indústria nacional ferroviária, creio que os brasileiros o apoiarão entusiásticamente.

Por que FHC pôde dar, tranquilamente, mais de R$ 100 bilhões para os bancos, por ocasiões do Proer, ao final de seu governo, e Dilma não pode investir R$ 30 ou 50 bilhões num trem-bala que vai durar mil anos?

Para evitar corrupção e superfaturamento, todos os gastos com a construção do trem-bala deveriam ser publicados na internet.

O debate se o trem-bala se auto-pagaria, a meu ver, é medíocre. É conduzido, em geral, por pessoas que sempre viajaram de trem pela Europa e nunca reclamaram quando pegaram vagões vazios. Ora, o retorno para o Estado, em termos de produtividade econômica, conforto individual, além da melhora da imagem internacional, de possuir um moderno sistema de trens, sempre será superior a um eventual déficit financeiro operacional nos primeiros anos.

Mas não é o caso, por exemplo, do trem-bala entre Rio e São Paulo. Me parece evidente que não será sub-utilizado. Será uma alternativa confortável e moderna aos transportes rodoviários e aéreos, já sobrecarregados.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Dil Costa

21 de janeiro de 2014 às 23h26

penso q um dos caminhos seria a moralizacao dos Municipios!Os Municipes tem q apreender a fiscalizar com mais atencao seus Edis”! Nos gdes. ou pequenos Municipios o Corporativismo grassa a ‘rola’ !

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