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‘Estamos presenciando uma adulteração feroz da democracia’ na Argentina, diz jornalista

Por Redação

04 de fevereiro de 2016 : 17h12

Para Victor Hugo Morales, demitido da rádio onde trabalhou por 30 anos após posse de Macri, presidente traz de volta ao poder ‘modelo que trabalha à revelia do povo’

por Bruno Cirillo, no Opera Mundi

O jornalista e radialista Victor Hugo Morales foi demitido numa segunda-feira, 11 de janeiro, um mês após Mauricio Macri assumir a presidência da Argentina. Voz crítica do atual governo, que considera “o rosto do grupo Clarín”, Morales foi dispensado pela Rádio Continental, a terceira mais ouvida do país, pouco antes do início do seu programa matinal. Ele teve alguns minutos para se despedir da audiência que liderava, após 30 anos de trabalho. No dia seguinte,milhares de pessoas protestaram contra sua demissão na Praça de Maio, no centro de Buenos Aires.

O locutor recebeu Opera Mundi em seu apartamento na avenida do Libertador, zona nobre da capital, localizado a duas quadras de onde vive Macri. Por coincidência, naquele dia (21 de janeiro), o vizinho presidencial estava em Davos, na Suíça, buscando potenciais investidores e uma aproximação com o premiê britânico, David Cameron, durante o Fórum Econômico Mundial. “Mais uma vez, a Argentina está do lado do Fundo Monetário Internacional”, lamentou Morales. “O país está recuperando a proteção do FMI e sua credibilidade com a bancada internacional, em uma nova relação com o poder financeiro. Ao mesmo tempo, aqui, há uma falta de respeito brutal com os valores da república e da democracia.”

Para criar um ambiente propício a investimentos estrangeiros, Macri está se valendo de velhas receitas neoliberais: redução das taxas para a exportação de produtos agropecuários; fim da restrição à compra de moeda estrangeira (o que já derrubou o peso argentino ante o dólar); abertura para as importações, que eram restritas até então; e a retirada dos limites para grandes operações de crédito e para a entrada de capital especulativo no país.

No entanto, a população está presenciando o que Morales considera “um panorama político bastante pobre”, com a demissão em massa de funcionários públicos; a prisão arbitrária da líder política Milagro Sala; repressões violentas a protestos (o que não acontecia no governo anterior); a nomeação de dois magistrados para a Corte Suprema de Justiça, sem o aval do Legislativo; e o cerceamento da Lei dos Meios com a assinatura de cinco decretos presidenciais – no total, foram 260 canetadas do presidente somente no primeiro mês de sua gestão.

O que sucede, segundo o jornalista, “é um claro entorpecimento das funções do Estado, com 12 ou 14 empresas importantes designando suas funções, a partir de lobbies”. Sua principal crítica na área econômica vai contra a abertura comercial. Segundo ele, a ex-presidente Cristina Kirchner conseguiu manter estável o nível de emprego ao fortalecer do mercado interno, restringindo as importações – de fato, nas ruas de Buenos Aires, o desemprego não parece ser uma preocupação maior do que a inflação, que se mantém em 30% ao ano. “Abrir as portas para as importações vai ser completamente devastador para a economia argentina”, acredita Morales.

“Para os macristas, há uma recuperação da forma de desenvolvimento que eles conhecem, em que o impulsor é o FMI. Tudo o que está acontecendo com a Europa, na Espanha por exemplo, tem a ver com o FMI; o que já viveu a economia da América Latina [entre as décadas de 1980 e 1990] tem a ver com o FMI. É a reaparição de um modelo que trabalha à revelia do povo”, observa Morales, considerado “peronista” por uma colega da rádio onde trabalhava – o peronismo é uma corrente política da esquerda dos anos 1940 e 1950 à qual parte significativa da população argentina é fiel até hoje. “É a chegada da direita ao poder por via democrática, algo que nunca havia ocorrido na Argentina. A direita sempre teve que apelar para as ditaduras. Estamos presenciando uma adulteração feroz da democracia”, afirma.

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Victor Hugo Morales (centro, ao microfone) durante protesto contra sua demissão em Buenos Aires em 12 de janeiro

Los rebenques

Sentado numa sala repleta de obras de arte e ao lado de uma pilha de jornais, Morales acusa o grupo Clarín, corporação das comunicações apontada por ele como a grande articuladora do governo atual, de ter se financiado em conivência com a ditadura militar argentina, que durou entre 1976 e 1983. Segundo ele, no período, a companhia dominou a produção de papel e se apropriou dos principais jornais do país, “derrubando por completo outras possibilidades de imprensa”. A inimizade de Morales com o conglomerado de mídia se acirrou em 1992, quando o Clarín passou a comprar e vender futebol.

El rebenque. Sabes o que é el rebenque?”, questionou o jornalista, sem ser entendido. “El látigo, aquilo que os vaqueiros utilizam para golpear o cavalo”, reforçou, explicando com um gesto – referia-se a chicotes. “O Clarín se lançou com um chicote sobre o futebol: compravam o direito de transmissão barato e vendiam caro. Desse modo, compravam também os canais, e acabaram possuindo quase 300 canais.” Especializado na cobertura esportiva, sendo um conhecido narrador de jogos na Argentina, Morales trabalha como os grandes jornalistas dessa área: parte do gramado para esmiuçar o campo político e econômico do país. “Tenho uma velha confrontação com o Clarín porque, como jornalista esportivo, denunciava sua atuação no futebol.”

“Eu poderia fazer uma coleção de ataques diretos que o Clarín fez contra mim, para me triturar. Embora eu critique o kirchnerismo, eles conseguem fazer parecer que eu sou um kirchnerista boçal. Sua finalidade é me desautorizar”, diz. O periódico deu destaque a uma de suas declarações – do discurso que Morales fez na Praça de Maio após ser demitido da Rádio Continental – no título de uma matéria: “Devolvam-me o programa e esquecemos tudo”. Para o jornalista, a imprensa argentina, sob o oligopólio do Clarín, tende a favorecer Macri e ocultar notícias negativas a respeito do governo, como o número de servidores demitidos nas últimas semanas (mais de 25 mil, segundo estimativas), que não rendeu notícias nos dois maiores veículos (El Clarín e La Nación). “Não existe nada mais mafioso e corrupto na Argentina do que o grupo Clarín”, acusa.

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25 comentários

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Benjamin Horta Moraes

05 de fevereiro de 2016 às 15h31

Aqui que se sabem eleger governantes bons. O resto é merda. .

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Leila Maria

05 de fevereiro de 2016 às 12h57

Argentina indo para o brejo com Macri. Veja do que escapamos.

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Benjamin Horta Moraes

05 de fevereiro de 2016 às 09h43

Estão acabando com os vagabundos. Isso sim é democracia. Acabar com vagabundos. Vai trabalhar putada

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    Octavio

    07 de fevereiro de 2016 às 13h52

    Putada!!?? Obviamente vc não conheceu a Argentina no final do governo Menem. Até as professoras estavam se prostituindo para manter os seus filhos alimentados.

    Responder

Jorge Menezes

05 de fevereiro de 2016 às 03h09

Menem estabeleceu relações “carnais” com os EUA e o povo argentino não ganhou nada com isso.

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    Hell Back

    05 de fevereiro de 2016 às 16h01

    Ganhou sim, mas a literatura não me permite dizer aqui nesse blogue. rs rs

    Responder

Malceny Maia

05 de fevereiro de 2016 às 00h39

Que lindo..amem

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Evando Nunes II

04 de fevereiro de 2016 às 23h32

O cafezinho, como vai a democracia na Venezuela??

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Paulo Henrique

04 de fevereiro de 2016 às 22h52

Esse cafezinho não toma vergonha na cara mesmo e depois ainda fala da grobo e da folha, pega a entrevista do Paulo Henrique Amorim argentino, Victor Hugo Morales, o Macri não ofereceu uma grana pra ele não???? É pq o governo da Cristina era ótimo, pra ele é claro!!!! kkkkkkkk

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Fábio Lima

04 de fevereiro de 2016 às 20h18

Já foi tarde !

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Dodd Henning

04 de fevereiro de 2016 às 22h16

A Argentina desenvolveu uma Vacina para o Brasil. #LulaEuConfio

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Odete Maria Pottmaier

04 de fevereiro de 2016 às 22h01

No Brasil, também.

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Silvio Sabá

04 de fevereiro de 2016 às 22h00

Mande sua denuncia também, vamos entupir o twiiter desse povo até eles nos ouvirem:
DENUNCIA: IMPRENSA CONTRA A DEMOCRACIA
http://denunciasos.blogspot.com.br/2016/02/imprensa-contra-democracia.html

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Maurilio Costa

04 de fevereiro de 2016 às 21h51

Não sei porque o espanto, não foi o povo que escolheu este presidente?

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Marcos Marcos

04 de fevereiro de 2016 às 21h49

Não sei como os Argentinos caíram nessa armadilha da imprensa. A direita latina é assim mesmo, adoram ditadores e falta de democracia.

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Dylan Heidmann

04 de fevereiro de 2016 às 21h47

Não vejo a direita compartilhando isso haha

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Edson Luiz Raminelli

04 de fevereiro de 2016 às 21h45

Quero ver o que os coxinhas daqui que aplaudiriam tanto a vitória do atual presidente da Argentina vão dizer quando o barco lá naufragar. Tá na cara que elegeram mal.

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João Cláudio Fontes

04 de fevereiro de 2016 às 21h41

Qualquer semelhança com o que está acontecendo no Brasil não é mera coincidência …

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Laurencio Tavares

04 de fevereiro de 2016 às 21h38

cheiro de ENHOQUE….

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Silvio Santos -

04 de fevereiro de 2016 às 21h37

Desejo a vocês, Paz, Alegria, Proteção e muitas conquistas, Deus abençoa vocês !

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    Hell Back

    05 de fevereiro de 2016 às 16h07

    Só falta a missa de sétimo dia. rs rs

    Responder

Laurencio Tavares

04 de fevereiro de 2016 às 21h37

a rádio tinha que ser vendida!

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