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Diretor de “Estive em Lisboa” fala sobre o atentado em Orlando

Por Miguel do Rosário

14 de junho de 2016 : 10h59

Foto: Cena do filme “Estive em Lisboa e pensei em você”.

Uma reflexão sobre o atento em Orlando

Por José Barahona, especial para o Cafezinho

O tiroteio de ontem em Orlando é um acontecimento horrendo e condenável em todos os sentidos. Por trás de um manto de religião, cometém-se crimes sem explicação, defendem-se ideias nefastas e, o pior é que tende a espalhar-se um único olhar sobre pessoas pelo simples fato de pertencerem a uma determinada religião. Convivi com Habib Hussein, um muçulmano que mora em Portugal e conheci a sua história muito particular durante a filmagem de “Estive em Lisboa e lembrei de você”.

O fanatismo religioso não é regra geral e a tolerância existe, e deve existir, em todas as culturas.

Habib Hussein é um caso particular, mas simbólico das migrações entre várias regiões do mundo ao sabor dos acontecimentos políticos e sociais da história dos últimos cem anos. Tal como vários outros personagens de Estive em Lisboa e lembrei de você, também ele está num lugar onde aparentemente não pertence. E digo aparentemente porque Habib Husein é um dos muitos que fazem parte de um só mundo, um mundo que se quer de portas abertas e não fechadas, um mundo solidário e humano.

Vivendo de forma precária na Índia, em 1945 a família de Habib emigrou para a África do Sul em busca de uma vida melhor, objetivo de todos os emigrantes. Na África do Sul não lhes foi permitida a entrada. O regime feroz do apartheid vigorava com força e a comunidade indiana já era em grande número. A família acabou por procurar abrigo na antiga Lourenço Marques, capital da então colônia portuguesa de Moçambique, onde se instalou. Habib viveu e cresceu em Lourenço Marques e a “revolução dos cravos”, que derrubaria o regime fascista de Marcelo Caetano, sucessor de Oliveira Salazar, apanha-o cumprindo o serviço militar. Nessa época, 1970-74, trava-se nas ex-colônias portuguesas da África, Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde, uma guerra anacrônica em que os povos originários lutavam pela independência. Portugal era a última potência colonial européia e mantinha suas colônias com o sangue de muitos jovens portugueses para lá enviados para combater.

Apanhado nesse movimento, Habib combateu ao lado dos portugueses já que, a essa altura, já tinha a cidadania lusitana. Assim como o senhor Alexandre, outro personagem do nosso filme, que emigrou para o Brasil para escapar da guerra colonial, Habib foi uma vítima desse esforço de guerra desmensurado que custou inúmeras vidas aos portugueses. Com a revolução de 1974, as guerras da
independência acabaram e as antigas colônias foram feitas independentes.

No entanto, nesse meio tempo, estalaram guerras internas, incentivadas pela “guerra fria” entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. É por causa da independência e pelo eclodir de novas guerras que muitos portugueses resolvem voltar à metrópole. Habib Husein, cidadão português de origem indiana, residente em Moçambique é um dos “retornados”. Os chamados “retornados do Ultramar”, oriundos das ex-colônias, foram mais de 500 mil. Meio milhão de cidadãos portugueses que hoje em dia, mais de 30 anos passados, estão completamente integrados à sociedade portuguesa.

Creio que Estive em Lisboa e lembre de você pode ajudar chamar a atenção para estas situações, num mundo que trata muito mal e com olhos desconfiados os imigrantes de todas as origens, barrando dramaticamente por vezes a sua entrada e seus caminhos migratórios. Independentemente de raça ou de crenças, o mundo é só um e é um mundo de todos os seres humanos que se saibam respeitar.

* José Barahona, cidadão português, residente no Rio de Janeiro, é diretor do filme “Estive em Lisboa e lembrei de você”, em cartaz em vários cinemas.

13 de Junho de 2016

Trailer do Estive em Lisboa:

Habbib Hussein fala sobre o seu passado. 16 DE JUNHO NOS CINEMAS! from Refinaria Filmes on Vimeo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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