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Os adversativos inversos da grande mídia

Por Miguel do Rosário

13 de setembro de 2016 : 18h34

(Foto: Fabiano do Amaral/CP)

Arpeggio – Coluna política do editor

Por Miguel do Rosário, editor-chefe do blog O Cafezinho

Já escrevi sobre isso num post, mas vale bater na mesma tecla.

Reparem bem nesse post no blog da Miriam Leitão, e tentem identificar o que há de curioso nele:

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Antes o mote era assim: as coisas estão boas, mas piorando e vão ficar péssimas.

Agora é assim: hoje as coisas estão ruim, mas pararam de piorar e tendem a ficar estáveis.

Antes era: tá bom mas tá ruim. Agora é: tá ruim mas tá bom. As adversativas se inverteram.

No mesmo artigo do blog da Miriam Leitão, há um gráfico:

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Observe que – o próprio blog da Miriam menciona isso quando tenta mostrar a força da economia brasileira – as vendas vinham crescendo sistematicamente até o final de 2014. Na época, porém, a imprensa não era otimista.

A queda no varejo coincide com o período de sabotagens múltiplas à economia e à política. Que país do mundo, por exemplo, paralisa simultaneamente, bloqueando contas, prendendo cúpulas (tudo sem sentença, etc), proibindo novas atividades, de virtualmente todas as suas grandes indústrias de engenharia, construção pesada, naval, petróleo e gás?

Só mesmo na terra encantada de Macunaíma, em que o emprego e a vida de milhões de brasileiros são sacrificados no altar dos derrotados nas eleições!

Outra chamada que eu gostaria de comentar:

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Todos os dias, milhares de intelectuais, no Brasil e no exterior, expressam a sua insatisfação com o golpe. Eu estive semana passada na sede do Instituto de Estudos Sociais e Políticos do Rio de Janeiro (IESP), ligado à UERJ, para uma entrevista com João Feres, e conversei com outros cientistas políticos. Eles me disseram que 80% dos cientistas políticos entendem que houve um golpe de Estado no país.

Além disso, a imprensa internacional tem se posicionado, em sua maior parte, de maneira crítica ao golpe. Confira a imprensa alemã!

A imprensa brasileira é tão cafona ao se apegar aos mesmos órgãos de sempre, sobretudo à Economist, revista ultraconservadora britânica, para defender um conceito puramente político!

Eu comprei uma Economist há alguns meses, e, francamente, que decepção. Eu poderia resumir a Economist como uma revista intelecto-coxinha, com altas doses de desonestidade.

Golpe é um conceito político tradicional da história brasileira. É evidente que quem deu o golpe vai insistir, até o fim, para que o golpe não seja chamado de golpe. O golpista vai esmurrar a mesa e dizer que não vai aceitar ser chamado de golpista, como fez Michel Temer. Vai dizer que “não pegou”, como também fez Michel Temer quando perguntado com doçura por um repórter global.

É óbvio, porém, que um governo que precisa repetir o tempo inteiro que não é golpista, que precisa de uma imprensa a repetir, diariamente, que não foi golpe, é um governo golpista.

Não foram os votos da Economist que foram roubados. Foram os nossos votos. Não apenas 54 milhões de votos. Todo o eleitorado brasileiro foi roubado.

O golpe está destruindo as duas únicas liberdades da democracia liberal: a liberdade política social, expressa no voto, que permite que eu governe a mim mesmo através da escolha do meu representante; e a liberdade individual, expressa nas garantias legais do indivíduo – incluindo o indivíduo presidente da república – contra o Estado. Isso sem falar na Lava Jato, operação emblemática de um Estado que não mais respeita as garantias individuais, vistas sempre como “obstrução de justiça”.

Os liberais brasileiros, mais uma vez, traíram as causas liberais.

Sobre a cassação do Cunha, ela reforça a minha tese de que o golpe veio das castas burocráticas associadas ao grande empresariado e à mídia. Os parlamentares se orientam pela Globo. Se a Globo manda cassar o Cunha, eles cassam. Se a Globo desse sinal verde para Cunha ficar, ele ficava.

Neste sentido, os parlamentares não são diferentes dos juízes. Os juízes, incluindo os do Supremo Tribunal Federal (STF), obedecem caninamente à mídia.

Ironicamente, apenas Gilmar Mendes, por gozar de um capital excedente ideológico, pode se dar ao luxo de tomar decisões contrárias à mídia. Mas quando ele o faz, é porque Gilmar entende, corretamente, que a mídia precisa seguir uma orientação que nem sempre converge com a sua própria agenda.

Os outros ministros, no entanto, obedecem à Globo sem pestanejar, ganham prêmios da Globo, dão entrevistas em que falam exatamente aquilo que a Globo deseja ouvir. Ricardo Lewandowski, por exemplo, costumava ligar para Merval Pereira, no dia seguinte às votações da AP 470, para explicar algumas de suas posições.

Eu insisto num ponto: prêmio da Globo para juiz é propina. É imoral. Inclusive é proibido pelo código de conduta da magistratura, mas juiz, no Brasil, pode tudo.

O judiciário brasileiro é o principal cão de guarda das elites do dinheiro. Por mais que alguns juízes tentem fugir a esse papel, a corporação, como um todo, o exerce. E dificilmente alguém chega ao STF sem ter passado antes por um longo filtro, no qual se eliminam qualquer candidato com algum resquício de coragem, independência ou mesmo criatividade.

Se o Brasil enfrenta uma crise fiscal, porque a mídia não fala o óbvio? É preciso reequilibrar todo o sistema de salários do funcionalismo público, elevando o salário de professores, enfermeiros, médicos, pesquisadores e operadores sociais e reduzindo o salário da alta burocracia, que aufere renda completamente incompatível com o padrão médio do cidadão brasileiro e muito acima dos padrões de países mais ricos do que o nosso.

A poesia de Ayres Brito é a mesma de Michel Temer.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Roberto

13 de setembro de 2016 às 22h49

O Impedimento do Collor também foi golpe, Collor foi até inocentado esses dias!

Da qui vinte anos Dilma também sera inocentada não se preocupem!

Responder

Eros Alonso

13 de setembro de 2016 às 20h16

Leitão? Esse bicho tem que comer no Natal. Essa galinha cacareja não muda mais nada. ela não tem mais a credibilidade que a classe média pensa que tem.

Responder

marco

13 de setembro de 2016 às 19h27

E não existe remédio,pelo menos por enquanto,espero eu,para acabar com esse CANCRO DA SOCIEDADE.Quisera que houvesse,mas não me iludo,acho que morro antes.

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