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Futuro da esquerda brasileira passa pela federação partidária

Por Theo Rodrigues

11 de outubro de 2016 : 09h54

Por Theo Rodrigues, colunista do Cafezinho

 

“O único ponto de partida para uma esquerda realista em nossos dias é uma constatação lúcida de sua derrota histórica”. A já conhecida frase de Perry Anderson publicada no editorial da New Left Review em 2000 ainda nos serve de guia para os dias de hoje.

Em 2016 a esquerda brasileira foi derrotada. E a derrota foi substantiva. Por um lado, perdeu em um coup de main a presidência do país, mas também perdeu no voto as eleições municipais. Após o impeachment veio o fim do monopólio da Petrobras no Pre-sal e a PEC 241 aprovada na noite de ontem. Todas retratam o retorno com sucesso da agenda neoliberal no Brasil. Reconhecer isso é o primeiro passo para um possível retorno da esquerda.

Passado o momento de assimilação da ruína, resta a antiga questão leninista: “Que fazer?”

A avaliação é clara: em um país com dimensões continentais como o nosso e com um sistema político multipartidário baseado em eleições proporcionais para o parlamento, nenhum partido tem condições de levar adiante sozinho o seu programa. A partir daí surge com cada vez maior vigor a ideia da Frente Ampla como guarida à esquerda.

De fato, já houve uma Frente Ampla vitoriosa no Brasil em 2002 quando o PT trouxe para vice de Lula o empresário José Alencar do então PL. Essa Frente Ampla se reconfigurou em 2010 quando o PMDB assumiu a vice-presidência na chapa de Dilma Rousseff.

No entanto, a tal Frente Ampla começou a se desfazer em 2013 quando o PSB de Eduardo Campos saiu da base aliada, em 2015 com a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados e, finalmente, em 2016 com o impeachment.

Agora, com os partidos da esquerda isolados do cenário político, e com os erros da primeira experiência devidamente aprendidos, ressurge a necessidade da Frente Ampla. Mas qual seria a diferença dessa nova organização?

Uma avaliação comum na esquerda brasileira é a de que essa nova Frente Ampla não pode ser dirigida unilateralmente pelo PT. É preciso um compartilhamento maior das decisões em seu interior. Uma sinalização importante nesse sentido seria o PT ceder a vaga do candidato presidencial em 2018 para outra legenda da Frente, quem sabe Ciro Gomes do PDT.

Se a amplitude não estiver apenas no nome, precisará reunir em seu bojo duas frentes dos movimentos sociais que hoje estão organizadas na sociedade brasileira: a Frente Brasil Popular (PT, PCdoB, PDT, MST, UNE, UBES, CUT, CTB etc) e a Frente Povo Sem Medo (PSOL, MTST etc).

A nova Frente Ampla deve representar o que há de novo na sociedade brasileira. Por isso, para completar a chapa para a eleição de 2018 é preciso também algum nome que venha dos movimentos sociais, talvez um líder do MTST ou uma ex-presidenta da UNE. Indicações também podem vir do atual quadro partidário como Fernando Haddad ou mesmo Eduardo Suplicy.

Há um outro aspecto relevante para a constituição dessa Frente Ampla.

No Congresso Nacional tramita uma Proposta de Emenda Constitucional que visa reduzir drasticamente a quantidade de partidos existentes no país.

A PEC 36/2016 de autoria dos senadores tucanos Aécio Neves e Ricardo Ferraço propõe a cláusula de barreira – ou seja, só poderão funcionar no Congresso partidos que tiverem mais de 3% dos votos – e o fim das coligações partidárias.

Se aprovada, partidos como PCdoB, PSOL, REDE, PV, PPS, PPL, PSTU, PCB e talvez o PDT deixariam de ter tempo de televisão, rádio e acesso ao fundo partidário. Ou seja, acabariam.

Contudo, a dialética tem das suas ironias. Da contradição de uma mudança institucional que reduz direitos dos partidos políticos, pode surgir a brecha para uma nova forma de atuação da esquerda brasileira: a federação partidária.

A PEC põe fim à coligação entre partidos, mas cria um novo mecanismo chamado federação partidária. Os partidos unidos em uma federação partidária disputam juntos as eleições, mas após eleitos precisam continuar funcionando como um bloco político até a realização de novas eleições quatro anos depois.

Federações partidárias assim já funcionam em outros países com sucesso como a CDU e o Bloco de Esquerda que fazem parte do governo em Portugal ao lado do PS, ou a Frente Ampla que está no poder no Uruguai há 12 anos.

É intuitivo imaginar no Brasil, pelas afinidades eletivas que emergem, a conformação de três federações partidárias: uma com PT-PDT-PCdoB, outra com REDE-PV-PPS-PPL e, por fim, outra com PSOL-PCB-PSTU.

Essa nova Frente Ampla poderá, portanto, estar materializada na federação partidária.

Claro, em um mundo ideal – ou, numa expressão de alhures, no “otimismo da vontade” –  a Frente Ampla consistiria num guarda-chuva para essas três federações partidárias.

Mas é aqui que reside o maior dos problemas. O “pessimismo da razão” nos obriga a avaliar que dificilmente esses três blocos caminharão juntos em 2018. Provavelmente lançarão candidatos próprios, quais sejam, Ciro Gomes, Marina Silva e Luciana Genro.

Uma coisa é certa: o sucesso da empreitada dependerá da generosidade política de todos para cederem em algum ponto.

Seja qual for o limite possível para a amplitude dessa Frente, o futuro da esquerda passará por essa reorganização coletiva.

“Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, diríamos com Paulo Vanzolini.

 

Theo Rodrigues é sociólogo e cientista político.

 

Theo Rodrigues

Theo Rodrigues é sociólogo e cientista político.

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15 comentários

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Cartola Cartolino

12 de outubro de 2016 às 08h32

AE CUZAO QUE LIBERA OS POSTS , VCS COMUNISTAS SE FUDERAM KKKKKK A DIREITA ESTARA MAIS AINDA EM PESO NA POLITICA EM 2018 ….. VCS SERAO DEPORTADOS PRA COREIA DO NORTE …..KKKKKK

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Nazario Bento

11 de outubro de 2016 às 18h53

Estava lendo o artigo e tudo muito bem, tudo muito bom, a provável Federação Partidária não é má ideia e aí vem a cacetada! O despirocado apresenta as 3 possíveis FPs e uma delas seria formada por REDE-PV-PPS-PPL!!! É prá acabá! Rede chefiada pela marina silva, a qual apoiou o impedimento da Dilma, assim como o pv e pps que votaram em peso pela PEC 241. Que lindo começo de FPs! Quem é esse mané-cueca que escreveu o artigo?

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João Luiz Brandão Costa

11 de outubro de 2016 às 18h31

Primeiro, a grande pergunta. O que fazer dessa massa amorfa de “parlamentares” que sabujam feito merda n’água, em torno do poder, seja ele de que bordo for, guiados somente por interesses pessoais os mais inconfessáveis, desde simples vaidade e avidez pelos holofotes e poder, a questiúnculas paroquiais e, por fim (ou seria princípio?) locupletação? Qual será o coeficiente de renovação do próximo congresso?. Receio que a redução e/ou extinção de partidos periféricos não seja a resposta, pois, parlamentares dessa laia os há também nos ditos grandes partidos. Há que se começar por consertar e arrumar a casa de cada partido progressista. Federações com o quadro atual, é tiro no pé.

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C.Poivre

11 de outubro de 2016 às 14h18

Precisamos neste momento de uma Frente pela democracia, que foi a principal perda para o país em 2016, portanto o principal agora é a restauração dela e por isso sugiro que as duas frentes já existentes se unam na Frente Brasil Democrático ou Frente Brasil pela Democracia, ou algo parecido.

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    Cartola Cartolino

    12 de outubro de 2016 às 08h28

    VAI LUTAR POR DEMOCRACIA EM CUBA , COREIA DO NORTE E VENEZUELA ….ESSES PAISES APOIADOS PELA ESQUERDA E PELO PT SIM SAO PAISES TERRORISTAS E DITATORIAS …

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Victor Silva

11 de outubro de 2016 às 13h49

Pqp, você querer Theo colocar a Marina como sendo de esquerda nessa frente é um acinte…
Que a Marina vá se entender com as Direitas e faça alianças com DEM e PSDB…
Marina não é de esquerda é de direita, fato!

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    Osmar Gonçalves Pereira

    11 de outubro de 2016 às 19h26

    Rede, PV, PPS, PPL (esquerda?)… penso que p iniciar a discussão devemos colocar em causa a real “identidade” dos partidos e não perder de vista que os partidos são parte integrante da dita “sociedade civil organizada” e, ainda, para serem elegíveis os representantes de outras organizações (Movimentos, Coletivos, etc) devem estar filiados a um partido. A democracia representativa passa pelos partidos: é preciso integrar os movimentos ou mudar o sistema, por exemplo: um movimento/coletivo poderia concorrer no âmbito do Município e ir “subindo de patamar” de acordo com seus resultados eleitorais. São idéias que precisavam ser depuradas.

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Nelson Mucio Moreno Quintanilh

11 de outubro de 2016 às 11h30

Em um País onde a esquerda faz oposição a esquerda é mais provável que o futuro da esquerda seja a lata do lixo, os egos não se misturam!

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laertix

11 de outubro de 2016 às 10h54

Desde quando o PPS é de esquerda? Só se for pra ser quinta-coluna da direita.

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Cazador de Estafadores

11 de outubro de 2016 às 10h38

Será que não percebem que nosso voto de nada vale?
Se não agrada a “elite” ela o cassa,entendam pois que eles guerreiam uma guerra de classes e nós acreditamos que nosso voto tem valor e é respeitado.

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Cazador de Estafadores

11 de outubro de 2016 às 10h35

Emir Sader
Bom que o Ciro Gomes agora esteja na esquerda, embora a forma como ele critica o Lula não seja de alguém de esquerda. Críticas que o Lula nunca faz. Lula poderia reforçar que enquanto ele lutava contra a ditadura, o Ciro era da Arena. Que quando o Lula lutava contra o governo FHC e o Plano Real, o Ciro era ministro do FHC e batia duríssimo nos petroleiros pela sua greve contra o Plano Real. Ou poderia lembrar que o PT apoia o Freixo no segundo turno, enquanto o partido do Ciro apoiou o candidato do PMDB no Rio e deu a vice, que tentava aliviar o Pedro Paulo das agressões. Mas o Lula não faz isso, porque como o maior dirigente da esquerda brasileira, ele preza, antes de tudo, a unidade da esquerda.

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    Victor Silva

    11 de outubro de 2016 às 14h15

    Todo mundo na vida muda de opinião e posturas politicas ao longo da vida, assim como Ciro e o próprio Lula…
    Eu sou hoje um homem completamente diferente do que eu era ha 10 anos atras…
    O Lula errou e não pode ser poupado das criticas porque é de esquerda…

    Lula se diz de esquerda, mas fez alianças com a Direita Neoliberal e a adotou uma politica economica Neoliberal, que é a mesma do Governo Temer, só que mais branda…
    Muitas das reformas que estão hoje em votação no congresso, inclusive a da Previdência foi enviada pela Dilma… Se Dilma tivesse continuado como Presidenta, o Henrique Meirelles seria o ministro da fazenda, porque Lula pediu por ele…
    Muitos Ministros de Temer foram Ministros de Lula…

    É por causa de pessoas como você que a esquerda não se uni e esta destruindo o pais, sim destruindo, pois enquanto brigamos, nos dividimos e a direita governa…

    Vou de Ciro Gomes em 2018 porque ele é Nacionalista progressista e Desenvolvimentista…
    O que mata na esquerda é o seu fundamentalismo… Cada partido acha que tem a sua razão e se acha o unico sabedor da verdade… Os partidos de esquerda lembram muito as igreja evangélicas, que ficam brigando entre si, para ver que tem a verdade e quem arrebata mais fieis…

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      Cazador de Estafadores

      12 de outubro de 2016 às 06h56

      DEMENTE!

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      Mariana

      12 de outubro de 2016 às 20h26

      O nacionalismo oportunista do Ciro eu conheci depois de ler Mangabeira Unger e conversar com pessoas que moram no Ceará… Vai ser apenas mais um Collor. É só olhar a herança política no estado em que a oligarquia Gomes governa com os Jeirissaty

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Lafaiete

11 de outubro de 2016 às 10h34

Como insistir em cuidar do galinheiro com um quintal infestado de raposas famintas?

Para mudar o Brasil, só com um partido muito diderente, onde o povo participe efetivamente, sendo o ator de sua própria história!

Esse não é um partido formado por políticos profissionais!

https://www.facebook.com/LafaieteDeSouzaSpinola/posts/376383689185712

Só com um partido como esse conseguiremos essa educação:

https://www.facebook.com/LafaieteDeSouzaSpinola/posts/536024086555004

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