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Trump e as eleições brasileiras de 2018

Por Miguel do Rosário

11 de novembro de 2016 : 11h49

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Arpeggio – coluna política diária

Por Miguel do Rosário

Primeiramente, me desculpem pela ausência nos últimos dois dias. Compenso no final de semana. Sem mais, vamos ao trabalho.

Nos últimos dois dias proliferaram análises sobre as eleições americanas e seus resultados. Acho importante, porém, mantermos sempre uma perspectiva objetiva. Hillary Clinton teve 59,4 milhões de votos. Donald Trump teve 200 mil votos a menos, 59,24 milhões de votos.

Ganhou o que teve menos votação popular.

Poupar-los-ei, todavia, de conclusões apressadas sobre essa diferença. O sistema eleitoral americano indicou a vitória de Trump e isso é o que importa.

Igualmente, acho ociosas as análises que falam dos votos nulos ou da abstenção como se isso diminuísse a vitória de Trump. Não diminui.

É um raciocínio similar ao que deveríamos aplicar à vitória de Dória em São Paulo e Crivella no Rio.

Numa democracia, vence quem ganhou conforme as regras. Ponto final.

Se quisermos apontar a principal diferença entre a cultura política americana e a brasileira, a principal seria o respeito ao resultado.

Repare que, mesmo com Trump tendo menos 200 mil votos que Hillary, ele já emerge como a nova grande liderança americana, com a qual todos devem se acostumar. A mídia americana não fala em “nação dividida”, e os democratas não contestam o resultado.

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Essa cultura política de respeito ao resultado eleitoral acontece porque há um grau maior de politização do americano. Neste ponto, talvez seja importante reiterar o fracasso das pesquisas eleitorais nos EUA. E se elas perderam num ponto tão objetivo, que era indicar em quem os americanos votariam, como confiar nas sondagens mais subjetivas, que tentam captar a “desilusão” do eleitor americano com o sistema?

Explico melhor: entende-se que o eleitor americano está desiludido com o sistema, mas o que pode indicar, com segurança, que este sentimento é diferente do que sentia o americano no século XIX?

Melhor nos apegarmos, portanto, a fatores mais objetivos, mais concretos. Por exemplo, os debates que antecederam as eleições nos EUA. A maioria são abertos, com sinal disponibilizado para qualquer emissora, realizados em horários compatíveis com o tempo de lazer do cidadão. Não são programados para depois da novela, num horário em que a maioria dos trabalhadores já estão dormindo.

Outra diferença é que o debate se dá entre os candidatos. A interferência da mídia através de perguntinhas capciosas, como acontece no Brasil, é mínima. A mídia não pode pautar o debate, como acontece aqui. Os próprios debatedores discutem entre si livremente.

Eu não me canso de me impressionar com a apatia da esquerda brasileira, que não denuncia essa bizarrice, dos debates entre candidatos acontecerem em horários tão inconvenientes.

Mudemos de assunto.

Hoje um analista político que eu sigo no twitter, o George Marques (@GeorgMarques), publicou uma notinha do jornal O Globo de hoje.

 

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O próprio Marques observou, ironicamente, que a prosopopeia platinada é uma esperteza da mídia quando quer esconder quem está por trás da crítica.

O grupo Globo, por exemplo, com sua receita líquida de 16 bilhões de reais, também faria parte do “PIB”, certo? Não seria mais honesto então dar nome aos bois.

É curioso que a imprensa brasileira se furte, sistematicamente, a dar informação.

No entanto, a notinha diz muito mais do que aparenta a primeira vista. Ela expressa, em primeiro lugar, uma visão ideológica tão antidemocrática que chega a dar nojo.

Quem é o PIB? Os trabalhadores que o produzem ou os capitalistas que o embolsam?

Além disso, o que mais esperam de Temer? Como é possível esperar mais submissão ao “mercado” (essa outra entidade inanimada que tanto fala aos jornalões) do que a já demonstrada por Temer desde que assumiu o governo?

Não parece haver muito mistério. A mídia quer forçar Michel Temer a tomar medidas cada vez mais radicais, do ponto-de-vista neoliberal, sempre desprezando a opinião dos brasileiros (desprezo do qual Temer se orgulha, visto que repete, com frequência, que não se importa com popularidade), para forçar o eleitorado em 2018 na direção de um tucano que venha salvar a pátria.

Qual a raiz da crise?

Ora, são várias, mas se torna cada vez mais chocante que o governo federal e os governos estaduais, que o Judiciário e o Ministério Público, diante das propostas de redução brutal dos gastos sociais, não tenham a decência de oferecer ao país um corte de todas as mordomias.

Carros oficiais, verbas de gabinete, benefícios extras, diárias, auxílios. Tudo deveria ser cortado radicalmente. Ao invés disso, juízes ainda falam, neste momento, em reinvidicar salário?

Até nisso a mídia brasileira é a principal culpada, porque ela jamais fez reportagens apontando os desequilíbrios do sistema de salários no funcionalismo público brasileiro. Qual a diferença entre um salário de professor de escola secundária e um juiz? Como é essa mesma comparação em outros países?

O problema central do Brasil é a informação. Sem ela, não temos como discutir políticas públicas, ajuste fiscal, soluções para a crise.

Além disso, até quando a grande mídia irá blindar o governo Temer ocultando as manifestações crescentes em escolas, instituições federal, universidades? Até mesmo universidades privadas estão começando a se organizar.

Contra a Dilma, havia movimentos patrocinados por partidos de direita e por organizações de financiamento obscuro, com apoio irrestrito da grande mídia. Contra Temer, há coisa diferente. Os estudantes de escola secundária estão chocados com o desprezo do governo pela educação. O Ciência sem Fronteiras foi encerrado de maneira autoritária, sem explicações maiores além de um editorial eufórico da Globo. Centenas de milhares de estudantes brasileiros de escolas públicas tiveram oportunidade de estudar no exterior por causa desse programa. É claro que a revolta desses estudantes contra a PEC 55 e contra o governo Temer nasce desse tipo de desrespeito.

O que acontecerá agora?

Esses estudantes, mesmo quando as ocupações e greves terminarem, não desaparecerão do mapa. Ao contrário, eles emergirão desse processo mais politizados do que eram antes de entrar nele.

Me parece que a Globo, que é a representante máxima do golpe, e detêm muito mais poder do que o governo Temer, traçou a seguinte estratégia: ela escolheu o inimigo contra o qual pretende lutar. Ela quer que o inimigo seja alguém ligado à direita evangélica, tipo Crivella. Então em 2018, teríamos um candidato tucano enfrentando um evangélico. Essa oposição forçaria os setores mais “liberais” e “modernos” a apoiarem o tucano. Por isso a vitória de Trump chocou tanto a Globo, porque ela percebeu que o eleitor não é o ratinho comportado de laboratório que se esperava. Ele – o eleitor – não perdeu sua intuição, e se ele percebe que estão tentando enganá-lo, ele reage.

A ocupação de escolas e universidades – e não apenas pela ocupação em si, mas pela maneira como elas estão sendo geridas – mostra uma juventude muito mais politizada do que a mídia esperava. A direita midiática, ao antagonizar com esses estudantes, está ajudando a formar um exército de democratas contra a manipulação das notícias.

***

Por fim, sobre a Lava Jato. Agora não é mais possível esconder que ela se tornou, e não é de hoje, uma das principais âncoras que impedem o navio de zarpar. E já não é só ela. A Lava Jato contaminou o sistema judicial, que enlouqueceu, criando um cenário de insegurança jurídica que faz com que nenhum investidor, brasileiro ou internacional, queira arriscar seu dinheiro num país em que as leis não são mais regidas pelo Constituição e pelo bom senso político e econômico, e sim pela cabeça de juízes e procuradores desvairados, facilmente manipuláveis por editoriais e capas de jornal.

O prejuízo causado pela Lava Jato, à economia, à credibilidade do Brasil, à democracia, ao direito penal brasileiro, é obviamente incalculável.

E agora, perdida em seus labirínticos e surreais powerpoints, a Lava Jato tenta aplicar o golpe final em Lula, mas já não tem credibilidade para tal, então continua tentando atacar pelos flancos, sempre com ajuda da mídia, criando novas e intermináveis etapas.

Ao unirem sua imagem de maneira tão íntima ao golpe, a Globo, a Lava Jato, a elite financeira e a classe média manipulada, produziram os símbolos contra os quais haverá luta: a concentração da mídia, a manipulação da informação, a manipulação da justiça, o roubo organizado das nossas riquezas, a manipulação das consciências.

Quanto mais repressão, mais impopular se tornará esse regime. Para evitar sangria de popularidade do governo que apoia, a mídia apoia a repressão e continua incitando a população a apoiar, com isso formando uma opinião pública extremamente agressiva, que tenderá a votar em candidatos de extrema direita, como Trump nos EUA, como Bolsonaro no Brasil.

Sempre é importante lembrar que Bolsonaro lidera, de maneira isolada, as pesquisas de intenção de voto para presidente em 2018, entre os eleitores mais ricos.

Eu separei algumas tabelas da pesquisa Datafolha mais recente para a eleição presidencial em 2018. Observe que, nos quatro cenários, Bolsonro lidera nas duas faixas de renda superiores, tanto a que reúne eleitores que ganham entre 5 a 10 salários, como a dos eleitores que ganham mais de 10 salários.

Lula, por outro lado, permanece muito forte entre os mais pobres e menos escolarizados. Se a economia continuar piorando, haverá mais pobres e, portanto, mais eleitores de Lula. Esta é a razão pela qual o golpe quer tirar Lula do jogo em 2018 para se consumar.

Observe ainda que Lula lidera isoladamente entre os eleitores que tem mais de 60 anos. Esse é um eleitor importante, que tem memória.

É interessante notar que o Datafolha incluiu Michel Temer no primeiro cenário, e o seu desempenho é pífio, inclusive entre eleitores com maior escolaridade e renda.

Observe o cenário D, que inclui Geraldo Alckmin, Aécio, Bolsonaro e Sergio Moro: entre eleitores com menor renda, Sergio Moro tem apenas 4% e Jair Bolsonaro 3%.  Entre as famílias com renda maior, Moro e Bolsonaro lideram. O principal desempenho de Moro está entre famílias que ganham entre 5 e 10 salários, junto as quais é o candidato preferido, com 16% das intenções de voto (na mesma faixa, Lula tem 13% e Aécio 10%).

Os números mostram que se a direita midiática e seus aliados na casta jurídica decidiram tirar Lula do jogo político, poderá haver uma migração em massa desse eleitorado para figuras como Bolsonaro.

O cenário C mostra que Ciro Gomes tem, curiosamente, uma penetração muito forte entre as classes mais abastadas, em especial as famílias que ganham mais de dez salários: entre estas, ele aparece na liderança, com 17% das intenções de voto, à frente de Bolsonaro, com 16%.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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7 comentários

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André

22 de janeiro de 2017 às 11h42

Milhares de estudantes foram para o exterior? De onde vc tirou essa informação? O eleitor do Bolsonaro na sua maioria vota nele por ele representar uma imagem de político honesto. O eleitor do Lula é exatamente a imagem do povo brasileiro, corrupto, ignorantes, frouxo e egoísta, principal motivo que o Brasil nunca será um país sério… Não são ações sociais que vão mudar a mente corrupta da população brasileira, tem que acabar com a Lei de Gérson, qualquer outra proposta que não ataque esse problema cultural é querer somente impor uma opinião dizendo que esquerda é melhor que direita e vice e versa.

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Marcelo Duarte

12 de novembro de 2016 às 18h12

Sou assinante mas não consigo ler a materia toda..

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Daniel

11 de novembro de 2016 às 23h24

Eu acho que os blogs estao levantando a bola do Bolsonaro, a comparacao e’ ridicula, como e’ ridicula a comparacao de um capiau subdesenvolvido com um bilionario do mundo desenvolvido. Vale a pena lembrar que o desastre do primeiro trimestre do Governo Dilma teve tambem a participacao de alguns blogs sujos, pois em vez de esperarem pelo menos 6 meses de governo e nao entrar na onda da globo-aecio, detonaram Dilma diariamente. Alguns destes blogs de esquerda estao mais perdidos que a propria esquerda.

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João Luiz Brandão Costa

11 de novembro de 2016 às 18h23

Miguel, eu acho que ainda estás com o jet-lag letárgico da tua ausência. Vè bem que tem manifestação praca la nos Steites e já morreu gente. Fica ixsperto cara!

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Dilma Coelho

11 de novembro de 2016 às 17h06

Agora os blogs, por falta de assunto, cansarão a paciência comparando o Trump com esse bolsonada.
Por favor há tanto que dizer sobre outros assuntos…

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Pedro Tietê

11 de novembro de 2016 às 12h44

Dá para falar algo além do óbvio por favor meu caro blogueiro

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Atreio

11 de novembro de 2016 às 12h17

é…parece simples fazer o óbvio e seguir a lei…mas os golpistas nacionais, perderam as eleições e chutaram o balde, gagar*m na cabeça de todos. prefiriram o pior possível apenas pra ganhar migalhas….não puderam ver o horizonte…muito menos tentar enxergar além do alcance. e como seu alcance sempre foi curto….babou.
a meleca q eles fizeram ainda será cobrada deles.
eles já nem conseguem andar nas ruas, nem em seus shopings first class….ridicularizados…as pessoas apontam…gritam “golpista!”

deviam ter lido mais, assistido a aula de filosofia até o fim ao invés d ir pra casa na cheroka do marquinho, convivido e conversado com pessoas de diferentes origens e aprendido a respeitar o proximo.
vamos agir.
não vai levar 21 anos de novo.

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