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Tempos de cólera

Por Redação

19 de dezembro de 2016 : 16h34

Por Maria Fernanda Arruda

A intolerância não é mais do que o egocentrismo extremo, que toma a forma de violência: a rejeição de tudo o que não seja o próprio EU, projetado na Igreja, nos dogmas, nos slogans, que em si não dizem nada, pretendendo tudo. A intolerância é a negação da sociabilidade, do diálogo, a palavra falada substituída pelo grito de guerra. Ela pressupõe a autoridade inquestionável e injustificável, a autoridade que se baseia na força e na violência física.

O fascismo é necessariamente intolerante, baseado no mito de uma união nacional, onde os indivíduos estão dissolvidos e fundidos numa vontade única: a de quem manda. Como se chega a isso? Com o medo, o medo da liberdade de ser, da responsabilidade individual que se torna aterradora. E inauguramos o século XX sob o signo do medo, medo do terrorismo islâmico, dos africanos que querem uma terra prometida, dos pobres e miseráveis, convidados a matar para comer.

A cultura brasileira, se não foi nunca cordial, incorporando um alto grau de violência, a que se praticou nos eitos e nas senzalas, a que existiu em Canudos e nos trabucos dos cangaceiros, ainda assim não se marcou por intolerância: o preconceito de cor sempre foi despido, junto com as roupas, para o sexo de brancos e negros; as senhoras piedosas, rosário nas mãos, sempre buscaram a ajuda dos orixás nos terreiros; pobres e ricos dividiram por muito tempo os espaços domésticos, até que Ramos de Azevedo criou a casa moderna, com a sua rigorosa divisão , os espaços da família e o da criadagem. A rua, nas cidades brasileiras, foi sempre o espaço de todos, onde ricos e pobres mantinham educadamente a hierarquia definida pelo poder do dinheiro.

Mas os novos tempos são comprovadamente tempos de cólera. O medo está produzindo quantidades cada vez maiores de intolerância. Os brasileiros estão sendo ensinados a ter medo e a rejeitar o que não é seu e nem parte de seu mundo mais próximo. A pedagogia da intolerância vem sendo ministrada nas escolas, na imprensa, nos clubes, no trabalho e enfim nas ruas. As manifestações introduziram definitivamente a violência irracional que se dispensa de justificativas que não há.

As propostas de governo foram ofuscadas pelos xingamentos e acusações de corrupção, de incompetência, de incontinência… Os brasileiros foram sendo divididos em função das legendas partidárias. O PT, Lula, Dilma e os cidadãos aliados passaram a ser rejeitados, aviltados, agredidos. E assim as ruas voltaram a ser ocupadas por maltas de furiosos, rebeldes sem causa, sem consciência, motivados exatamente pelo medo que lhes é ensinado pela televisão.

Há hoje mais de 50 milhões de brasileiros inoculados com o vírus da intolerância. Eles não têm objetivos claros, não têm argumentos, apenas odeiam, odeiam a pobreza, a negritude, a indisciplina dos que não querem mais ser cumpridores de ordens. Renunciaram à sua individualidade e à sua liberdade, entregando-as aos repórteres policiais, aos jornalistas políticos e analistas econômicos. A intolerância que dispensa até mesmo os dogmas: há um momento em que ela passa a existir em si, um moto contínuo.

Aterrador é que, sujeitos aos mesmos medos, muitos dos que estão na banda da banda de cá foram se fazendo não menos intolerantes. Não toleram os que não os toleram e mais os que não aceitam os dogmas do PT, os que são capazes de criticar Dilma Rousseff e Lula. E eles precisam ser criticados. Duramente. A linguagem dos fascistas declarados é descosturada, ilógica, arbitrária, inspirada pela violência. A linguagem dos que estão se tornando stalinistas é muito bem estruturada, baseada em argumentos, em sonhos que dispensam a avaliação crítica do que está acontecendo no mundo real.

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7 comentários

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Torres

19 de dezembro de 2016 às 16h58

Queria saber em que lado começou a intolerância.

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    Octavio Filho

    19 de dezembro de 2016 às 21h37

    Os intolerantes são sempre de direita. Muito mais agora que o Lula será eleito novamente em 2018!!!

    Responder

      Torres

      19 de dezembro de 2016 às 23h09

      Já vi muitos intolerantes de esquerda.

      Responder

Antonio Passos

19 de dezembro de 2016 às 16h45

É como disse Jânio de Freitas ontem: “só um país muito CHINFRIM assiste isso tudo”. Não há mais palavras nem esperança, apenas a constatação do pior final de ano da história desta Chinfrinlândia. Aqueles 7 x 1 hoje parecem mais do que um resultado catastrófico, foi uma profecia, um retrato do que viria: o fim do Brasil como país. É assustador, chocante observar a quantidade de homens chinfrins que povoam nossas instituições. De onde vêm tantos traidores de um país, onde foram educados para serem tão canalhas, o que têm na mente enfim para fazer tanta imundície e vilania com a cara mais deslavada do mundo ?

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    Octavio Filho

    19 de dezembro de 2016 às 21h42

    Espero que os políticos de esquerda tenham aprendido a lição. Com a direita não dá para negociar. Voltando ao poder, ACABAR COM A GLOBO, esta é a meta. Investigação e punição para todos os membros do MP e do Judiciário que tenham prevaricado. Investigação de toda suspeita de corrupção da direita. E não será pouca a investigação. Nada de fazer como no caso do BANESTADO. Se o Moro tivesse sido punido naquela época por prevaricação e os políticos e empresários ligados ao PSDB e ao sistema financeiro tivessem sido presos e obrigados a devolver o dinheiro, não teríamos esta avacalhação do nosso País.

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      Mannish Manalishi

      20 de dezembro de 2016 às 00h05

      A gloebbels não é origem nem centro de poder. É instrumento.

      Responder

    Mannish Manalishi

    20 de dezembro de 2016 às 00h02

    Onde foram educados? No berço.
    Lembra do Dalagnol dizendo que nosso destino é ruim porque fomos colonizados por degredados? Ele aprendeu isso desde o berço.

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