Vila Militar do Chaves (Adnet satiriza Bolsonaro)

Precisamos conversar sobre tudo, por Elika Takimoto

Por Miguel do Rosário

03 de outubro de 2017 : 11h13

Precisamos conversar sobre tudo

Por Elika Takimoto, em seu blog

A tática fascista é tentar desmoralizar o inimigo. Portanto, não raro vejo uma gama de comentários me atacando com o intuito de mostrar que falta a mim inteligência por defender o que acredito. É possível que estejam certos.

Então, fiz aqui uma seleção de alguns tópicos que considero importante discutirmos já que a violência tem aumentado em todo Brasil. Coloquei tudo o mais detalhado que consegui para que os que estão enxergando coisas que a minha mente limitada não consegue observar, mostre-me onde estou errando.

Não citarei a fonte porque entendo que não é nada pessoal e o discurso se repete apenas de formas diferentes. Vou dividir os assuntos da postagem para que eu mesma não me perca.

1 – Sobre a desmilitarização da polícia:

“Se for assaltado……em hipótese alguma deve chamar a PM !!!! A PM deveria estar sem armas…desmilitarizada………ligue para LIGHT….e peça uma iluminação melhor no local do delito……isso vai reduzir a criminalidade no seu bairro !!!!!!!“

Há um equívoco sério nesse discurso. Para começar, desmilitarizar a polícia nem de longe significa a extinção de policiamento e sim de uma transferência desse “serviço” para uma polícia sem arquitetura militar.

Temos hoje duas polícias: a civil e a militar. A primeira tem como obrigação cuidar da investigação e apuração de infrações penais. A segunda, o policiamento ostensivo e “preservação da ordem pública”. Uma função que é importante ressaltar é a do combate ao tráfico de drogas. Até aí não há problema algum. Quer dizer, há. Mas o que está em jogo é o treinamento nos moldes das Forças Armadas que a polícia militar recebe. Militares são treinados e preparados para defender o país contra inimigos e o povo não pode ser considerado inimigo. Isso só faz sentido se estivermos em um Ditadura.

Quem defende a desmilitarização da PM percebe que o modelo de segurança pública que temos, do qual a PM é uma parte primordial, está basicamente falido. Basta olhar em torno, andar pela cidade e você vai perceber que há algo inseguro no ar.

Há um atrito entre a Polícia Civil e Militar bem conhecido. Criando-se uma instituição única não haverá motivo de rixa entre elas. Mas o principal ponto é que o projeto visa diminuir a própria fonte da violência da PM: a hierarquia que existe ali dentro.

A falta de critérios para utilização de armas “não letais”, a truculência, a gratuidade da violência, a atitude de colocar a tropa de choque, reintegrações de posse se tornarem espetáculos de carnificina, bombas de gás e balas de borracha ao lado de manifestantes já mostram o seu caráter repressor e violento desnecessário nesses momentos.

Unificar ou transformar não são coisas que se consigam de uma hora para outra. Por isso, é necessário que comecemos a discutir o tema de forma séria.

Então, desmilitarizar a polícia significa desmantelar a estrutura militar da PM, tanto no que se refere à subordinação ao exército, como à sua estrutura interna. A PEC nº 51 que trata disso prevê a unificação das polícias civil e militar e criação de uma única força de segurança pública. Esse é o modelo mais comum no mundo, vale observar.

2 – Sobre a legalização da maconha:

“Se vc pegar seu filho FUMANDO MACONHA…….não o repreenda….e compre mais 100 gr para ele se divertir !!!!“

Vale observar que o álcool e o cigarro matam muito mais gente e destroem milhares de famílias e são legalizados. O ponto que a pessoa quis atacar foi que eu defendo a legalização da maconha. Tenho meus motivos , um deles é saber que a maconha causa muito menos dependência do que álcool ou tabaco.

No mais, o uso do cigarro, como todos podemos perceber, diminuiu drasticamente sem que fosse proibido, apenas usando campanhas de conscientização. Se for legalizada, a sociedade vai ter que aprender a conviver com mais essa droga, tal e como tem feito com o álcool e o cigarro. Se há efeito negativo em seu uso, o processo de aprendizagem social será extremamente valioso para poder diminuir esses efeitos como vimos com o cigarro.

Dizem que a legalização pode restringir melhor o acesso a menores do que proibição. Há quem acredite no contrário. Eu não sei o que pensar, mas há muitos lugares no mundo em que a legalização não significou, de fato, um aumento, a longo prazo, no número de usuários.

Não legalizar é apenas dizer que tudo continua como está, ou seja, com um lucro exagerado do negócio do narcotráfico. A legalização certamente reduziria de forma considerável o preço das drogas, pois acabaria com os altíssimos custos de produção e intermediação que a proibição implica.

É sabido e muito denunciado que existe uma ligação entre o narcotráfico e o poder político. A legalização acabaria com esta aliança. E mais, poderia significar o fim de uma relevante fonte de corrupção. Como disse, não é nenhuma novidade nem segredo que uma parte crucial dos políticos tem sido extorquida por narcotraficantes.

Outra possível consequência da legalização das drogas seria a economia de um bom montante da ordem de grandeza de milhões de reais que é usado em seu combate. Esse dinheiro poderia ser destinado para outra coisa como o combate a outros tipos de crime.

Enfim, se eu pegar meu filho fumando maconha quando ela estiver legalizada, é possível que eu aja da mesma forma quando o vejo tomando uma cerveja. Junto-me a ele sem medo de ser feliz conversando (sempre) sobre o perigo do excesso de seja lá o que for.

3. Sobre Direitos Humanos:

“Se alguém da sua família for assassinado……não fique revoltado com o bandido……ele não passa de um coitado, oprimido pela sociedade, faz isso pq não teve aulas de filosofia na escola….e tiraram a educação física que o tiraria da vida do crime pra ser jogador de futebol !!!!“

Achar que os defensores de Direitos Humanos são insensíveis às ações dos ditos “bandidos” e “vagabundos”, e que bastaria estar cara a cara com um revólver ou ver um filho ou parente ser morto para mudarem de opinião mostra o quanto não entendeu o assunto.

Para começar, não há possibilidade de prisão perpétua no ordenamento jurídico brasileiro. Ninguém, eu disse ninguém, segundo o que determina a lei, fica mais de 30 anos em cumprimento de pena. O que isso quer dizer? O cara pode ter cometido o crime que for, ele vai voltar para a sociedade.

O ponto é que não se constrói um prédio começando pela cobertura. Cabe uma pergunta: em que medida preferir ou incentivar medidas paliativas como as polícias (militares!) que invadem as favelas e as comunidades pobres pegarem infratores e jogarem em instituições carcerárias utilizadas como o depósito do “lixo humano” resolve os nossos problemas?

A grande maioria das pessoas tem capacidade de mudar. Seja através da religião seja da educação seja pelo trabalho. E muitas se tornam mais humanas e sensíveis quando lidam diretamente de forma séria com artes e esportes.

Deve-se, então, oferecer, intensivamente, o estímulo à reabilitação e a promoção de uma reintegração eficaz. É nesse momento que somos taxados de sonhadores. Sim. Sonhamos! Mas saibam que o fazemos em cima do texto da Constituição, dos Códigos, da Declaração Universal dos Direitos Humanos que já existe! Apenas não é colocado em prática. Então, de forma clara, só queremos o que está na nossa constituição e nunca foi aplicado de forma efetiva.

Ninguém defende bandido. Aqui se defende o ser humano e uma sociedade melhor. Se você tem uma dor de cabeça devido a um problema de pressão, por exemplo, não adianta ficar tomando analgésico e sim trabalhar no que está causando essa dor.

Por isso, é muito mais coerente brigar para que o Estado, como um ente que garante os Direitos individuais e coletivos, trabalhe no sentido de oferecer as mesmas condições de desenvolvimento a todos em qualquer etapa da vida e não tire das escolas disciplinas que são essenciais na formação de um ser humano mais empático.

4- Sobre a redução da maioridade penal:

“Se sua filha chegar em casa desesperada dizendo que foi estuprada………não dê ouvidos……procure o menor que fez isso…..o acolha….pague um psicólogo para ele……pq ele não tinha discernimento suficiente pra saber o que estava fazendo !!!!!“

Com a redução da maioridade penal, vamos precisar de uma nova estrutura, que vai demandar: número maior de policiais, de escreventes judiciais, de juízes, criação de novas Varas Criminais e Varas cumulativas, ampliação do espaço físico de delegacias, tanto para acomodar inquéritos como maior carceragem, ampliação do espaço físico em fóruns, criação e ampliação de presídios, contratação de carcereiros, faxineiros, serviços de manutenção, de fornecimento de alimentação, etc.

Complicado. Presos mais antigos serão liberados, certamente. E que tudo isso aconteça da melhor forma possível. O jovem entra com 16 anos na prisão. Que fique 10 anos preso nesse sistema falido. Sairá com 26 anos… bom? Reabilitado?

Quem defende a redução se esquece que daqui a 5, 6 ou 10 anos (dependendo do crime) eles estarão na rua novamente. E muito piores pois a prisão no Brasil não ressocializa ninguém como todos estamos vendo.

No mais, a redução da maioridade penal pode até piorar a violência no Brasil. O sistema prisional no brasileiro está degradante. Todos sabemos. O que resultaria unir jovens de 16 a 18 anos aos criminosos adultos? Respondo: eles, certamente, assim creio, seriam qualificados para mais crimes.

A ideia do Estatuto da Criança e do Adolescente e suas medidas socioeducativas buscam a recuperação desses jovens para o retorno a sociedade, pois eles também sofrem pena de internação. Por que não lutar para a melhoria desse setor? Qual a origem da dificuldade de olhar para o Estatuto com mais carinho?

5- Sobre discussão de gêneros:

“Se o seu filho chegar em casa dizendo que gosta do amiguinho……não se assuste……incentive-o………pois na verdade ele não tem sexo…..e pode escolher seguir o caminho que quiser…“

Isso não é pauta de esquerda, vale observar. Isso é questão de ser apenas um ser humano que aceita o outro do jeito que ele é.

Se meu filho chegar dizendo que gosta do amiguinho, por que deveria me assustar? Me surpreenderia e me entristeceria se ele chegasse dizendo que odeia o amiguinho.

Acho que me estendi demais, mas achei importante esclarecer porque não se trata de ficar brigando. Penso que devemos discutir mesmo cada ponto porque o barco é um só.

Que venham outros comentários como esses para que possamos mesmo debater esses temas que são urgentes em nossa sociedade e correr para a solução que não seja ficar enxugando gelo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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ari

03 de outubro de 2017 às 20h30

1. Uma coisa sobre que pouco se fala é o número de mortes provocadas pelo estado e sua polícia, inclusive a morte de policiais que frequentemente são mandados para as ruas sem preparo. De outro lado a PM é herança da ditadura e é basicamente a polícia para defender os interesses dos poderosos.
2. Infelizmente aqui é grande a influência das igrejas, inclusive parte da católica (vide, por exemplo, a Canção Nova) para quem os grandes pecados são o fumo, o álcool, drogas e claro sexo fora do casamento. Pra essas igrejas, não existe o pecado social. Uma vez ouvi o Pe. Fábio de Melo falar sobre a fome. Cheguei a pensar que a Canção Nova finalmente deixara de ser ópio do povo até ele esclarecer que falava da fome…na Somália.
3. Recomendo a todos que falam sobre a redução da maioridade penal assistirem o documentário Bus 174, disponível na rede. Lá pode-se ver que na verdade os grandes culpados são o estado e a sociedade. O menor, via de regra, é a vítima

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Thiago Prado Del Bel Belluz

03 de outubro de 2017 às 17h29

Excelente!

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Maria Thereza

03 de outubro de 2017 às 15h26

Parabéns pelo texto e pela abordagem de assuntos que, geralmente, são escamoteados sob o princípio geral da moral & bons costumes, para manter tudo exatamente como está, criminalizando os de sempre. Enquanto não entendermos que todos as questões apontadas são fruto da imensa desigualdade, desde o início, continuaremos apresentando soluções “fáceis” para problemas complexos, sem nunca sair do lugar.

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