Ato em defesa da imprensa

Ombudsman da Folha lê o Cafezinho e descobre que grande imprensa é central de Fake News

Por Miguel do Rosário

11 de dezembro de 2017 : 04h43

Com um atraso de mais de 10 anos, a Folha publica, através de sua ombudsman, sua primeira (e tímida) denúncia contra cobertura chapa-branca e acrítica de operações espetaculosas da Polícia Federal e seus desdobramentos judiciais.

Possivelmente, a jornalista leu alguma coisa do Cafezinho e descobriu que a grande imprensa brasileira se tornou uma central de Fake News.

As mentiras da Justiça são retroalimentadas pelas mentiras da mídia, num círculo vicioso e fascista que somente a razão neoliberal (absolutista e fanática) pode explicar.

Mais uns 10 ou 20 anos, e uma outra ombudsman da Folha vai criticar o papel do jornal na articulação midiática em favor do golpe de Estado de 2016 e na consolidação do regime de exceção, que tanta miséria e sofrimento estão trazendo ao povo brasileiro.

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Nem esperança nem equilíbrio

Por Paula Cesarina Costa, na Folha

10/12/2017 02h00
Recentes operações policiais mirando supostas irregularidades em universidades públicas provocaram reações contundentes de leitores. Atacam a Polícia Federal, o Ministério Público e seus métodos.

Reclamam de a Folha simplesmente reproduzir a versão da acusação, sem dar visibilidade e espaço às justificativas dos acusados. Queixam-se de que o jornal adere, de algum modo, ao que parte dos leitores acredita ser uma campanha contra a universidade pública.

Em um ano, desde o final de 2016, pelo menos seis operações policiais espetaculosas foram deflagradas em investigações de eventuais irregularidades. A imagem de policiais fardados e armados em campus universitário não traz boas recordações. Remete para muitos à ditadura militar, contra a qual grande parte da universidade se insurgiu.

Faz-se necessário rápido resumo das operações policiais a que me refiro. Em dezembro de 2016, a Operação PhD apurou eventual desvio de recursos de programas de incentivo à pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em fevereiro de 2017, Polícia Federal, Controladoria-Geral da União e Tribunal de Contas da União deflagraram a Operação Research, que apurava suposto repasse irregular de recursos mediante pagamentos sistemáticos, fraudulentos e milionários de bolsas a pessoas sem vínculos com Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Em setembro, o alvo da PF foi a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) durante a Operação Ouvidos Moucos. O reitor Luiz Carlos Cancellier foi preso, acusado de atrapalhar as investigações de irregularidades na concessão de bolsas para ensino a distância. Tornou-se a operação policial mais contestada até aqui, porque levou ao suicídio de Cancellier.

Em novembro, a operação Estirpe apurou superfaturamento e fraudes na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

No mesmo mês, um ex-reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foi acusado de receber propina de gráfica numa licitação para impressão e distribuição de provas de concursos e vestibulares, no âmbito da Operação Acrônimo.

Na semana que passou, nova operação da PF e da CGU na UFSC –Torre de Marfim– foi deflagrada com o objetivo de apurar patrimônio incompatível de servidores.

Por fim, a Operação Esperança Equilibrista, que investiga o suposto desvio de recursos públicos na construção do Memorial da Anistia Política, levou à condução coercitiva de reitor e professores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), gerando fortes protestos da comunidade acadêmica.

A ocorrência frequente de operações policiais em ambiente antes banhado em aura de superioridade moral obriga a maior reflexão.

A primeira impressão é a de que a Folha, em particular, não dedicou a prioridade necessária a operações policiais –tecnicamente corretas ou não– no meio em que vive grande parte de seu público-alvo e que vive com orçamentos à míngua.

É claro que nenhuma instituição está a salvo de irregularidades nem merece ser tida como intocável.

No entanto, amplia-se a opinião de que há uma banalização do instrumento das prisões temporárias no país. Pede-se com frequência que as conduções coercitivas sejam consistentemente justificadas. As operações não deveriam se transformar em cena de série policial. A imprensa tem responsabilidade na forma como divulga essas ações policiais.

Para o editor de “Cotidiano”, Eduardo Scolese, a cobertura segue o mesmo critério jornalístico de outras ações policiais e não há adesão à qualquer campanha. “Publicamos o fato, as alegações da corporação e os outros lados dos citados.”

É preciso tirar do chamado piloto automático a cobertura das operações policiais, de seus agentes e de seus métodos. Tais ações têm evidente interesse público. Cabe à imprensa cobrar de investigados e investigadores. Leitores questionam como lidar com as operações de modo a analisá-las também por eventuais inconsistências, arbitrariedades, objetivos políticos. Além de avaliar sua divulgação ou não.

Que instrumentos os jornalistas precisam ter para tal?

Em um país com a cultura de corrupção arraigada, a presunção da inocência por vezes parece deixada de lado. A imprensa não pode embarcar no clima que domina parcela da sociedade brasileira de acreditar que todos são corruptos, até que provem não sê-lo.

Chegou o momento de jornais e jornalistas aprofundarem discussões e reverem os procedimentos que adotam ao divulgar investigações do Ministério Público e das instituições policiais.

A imprensa precisa estar preparada para não ser apenas reprodutor de informações passadas por procuradores e policiais, por vezes de maneira incompleta ou manipuladora. É preciso investigação própria e uma narrativa crítica, fundamentada em fatos e equilibrada.

Que papel jornalistas e jornais pretendem assumir num mundo cada vez mais radicalizado, com condenações sumárias? São respostas que proponho que leitores e jornalistas busquem e debatam na tentativa de refletir sobre a gravidade do momento que o país vive.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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Ralfo Penteado

12 de dezembro de 2017 às 07h58

Mes passado, após 26 anos, deu um SPAN FINALE na folha de São Paulo , com letras minúsculas mesmo.

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Deise Pereira

11 de dezembro de 2017 às 22h24

Desculpem, mas isso é conversa para boi dormir. Não vão aprofundar coisa alguma. Em que planeta vive Madame Ombudsman da FALHA????? Está pegando pessimamente mal para a grande mídia também a nível internacional, só isso. Não alimentem ilusões. Simples assim!

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Jáder Barroso Neto

11 de dezembro de 2017 às 22h23

A “ombudsman” fez rol de “operações” em Universidades Federais, sugerindo suspeitas por serem muitas. Tantas que ela se esqueceu da UFOP, de Ouro Preto. Ela trabalha pela “Nova Ordem Mundial”, patrocinada por magnatas como Soros. É outra vaca.

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Eloiza Augusta

11 de dezembro de 2017 às 16h17

Parabéns pela matéria!

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Wilson C. da Silva

11 de dezembro de 2017 às 07h57

FRIAS, mesquitas , marinhos, civitas, saads e macedos….todos vão se encontrar com carminha, dodge lá do outro lado.

elas têm medo q seja o outro da rua.
ouvi que tão com medo de avião tb….

e parece q tavam no shopping na semana passada comprando uma mala maior….”retomada da economia” disseram.

sem crime não há impeachment.
eu sei, vcs sabem e tds ao seu redor tb sabem.

ANULA STF!
ANULA PGR!

ah, e jornalistas devem relatar fatos acontecidos e nao prever o futuro, dar opinião ou fazer propaganda. sempre relatando todos perspetivas do fato.

falem sobre cacellier, o impeachment sem crime, escolas tecnicas construidas de 2005 até 2015, vagas em universidades pblicas de 90 até hj, mais médicos, mutreta da seleção na copa 14, medalhas na olimpiada 16 , mutreta cbf/marinhos, tiplex de paraty, helicoca, apto de paris do efeaga, mirian dutra e margrit dutra….

faz uni duni te e escolhe uma.
ahhhhh, pode falar sobre reforma agraria ou monopolio midiatico no brasil tb.

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Jader

11 de dezembro de 2017 às 06h27

Boa reflexão

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