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Globo assume controle da Justiça no Brasil

Por Bajonas Teixeira

27 de abril de 2018 : 16h27

Por Bajonas Teixeira

Hoje parece ser um dia comum, como qualquer outro desse mês de abril. Mas não é. Uma coisa nova e imensamente significativa está se dando hoje: a Globo resolveu assumir o controle direto e articulado da Justiça no Brasil. O motivo é o de evitar que o STF recue, que passe a respeitar a Constituição e reveja as injustiças cometidas contra Lula, inclusive a sua prisão.

Nessa empreitada, coube à PF juntar material velho e imprestável, parte que já havia sido divulgada pela Veja em dezembro de 2017, empacotar e enviar para Moro. Já o trabalho artístico, de dar vida e substância a esse lixo, transformá-lo em mais um escândalo e mobilizar todo o judiciário, foi assumido pela Globo.

O portal do jornal O Globo deste 27 de abril de 2018  traz um claro  organograma das ações tomadas pela Globo para essa tarefa. É preciso escrever o enredo da culpa de Lula a qualquer preço, e fazer, o que é muito fácil, que a ficção atravesse das telas para a realidade.

O que é interessante, aliás, porque nessa semana seria julgado o processo contra Moro, relativo a divulgação das gravações ilegais e criminosas contra Lula e Dilma. Isso poderia pôr fim a todas as traquinagens do juiz, mas Cármen Lúcia (que faz parte do escrete da Globo, e foi entrevistada como musa jurídica por Pedro Bial) simplesmente adiou mais uma vez o julgamento.

É assim que a ficção, por mais grosseria que possa ser, toma o lugar da realidade. Mas agora a Globo pretende algo mais radical — a saber, que  a suposta realidade jurídica já seja escrita pela própria emissora.

O trabalho da Globo para criar o reality show judicial começou ontem. Como a decisão da Segunda Turma do STF desafinou, com a retirada das mãos de Moro dos trechos da denuncia da Odebrecht, a Globo, de maneira inteiramente ficcional, enxertou poder no manequim de Moro. A manchete principal que perdurou por horas na home do portal G1, e foi reproduzida em inúmeros sites do país, era a seguinte:

Ou seja, talvez mais que empoderamento se tenha aqui um “empoleiramento”, com a Globo montando um poleiro para Moro cantar de galo.  Uma vil, mas esperta, adulação à vaidade ferida do juiz.

Hoje, o jornal O Globo distribuiu as tarefas e articulou as frentes de ataque. Vejamos a imagem, ou melhor, o organograma do ataque da emissora para a tomada do judiciário, e logo abaixo, nossos comentários. Cada uma dessas matérias, publicadas hoje na home do jornal O Globo, tem por função montar um cenário na novela jurídica escrita pela Globo:

Toda a farsa, evidentemente, começa com a delação recebida e firmada pela Polícia Federal, que está na manchete principal: Palocci compromete Lula e Dilma em depoimentos já feitos à PF. Sim. Se trata de um vazamento da PF para O Globo. E mais: em março, a PGR pediu um inquérito sobre todos aqueles antigos vazamentos que foram tão úteis nos ataques à imagem de Lula. E quem está realizando essa investigação? Ninguém menos que a Polícia Federal. Portanto, não há problema. Está tudo em casa, o vazamento e a infiltração se faz em família.

Em seu roteiro, a Globo tem que ficcionar e tornar plausível, um impedimento que existe na realidade. É que a Polícia Federal é órgão de investigação e repressão, não podendo assumir a função de representar o interesse público, ao menos onde prevalece o estado de direito. Isso cabe aos procuradores federais. Menos ainda, pode a PF julgar, o que cabe aos juízes. Como resolver isso? É a tarefa que a Globo dá ao STF. Isso está na matéria que tem o título de Caso Palocci pressiona STF a decidir sobre validade de delações da Polícia Federal.

Entregue ao STF o seu papel e o script a ser representado, vem o MPF. Ele não aceitou as denúncias de Palocci, não acreditou nelas, as viu como parciais, seletivas, sem ligações com os fatos e, no fundo, disparatadas. O artigo de Merval Pereira, A hora de Palocci, procura justificar o injustificável, apenas indicando o interesse óbvio de que, embora sendo denúncias sejam parciais e seletivas, o que importa é se servem aos interesses de Sérgio Moro, ou seja, se ajudam na destruição de Lula:

“A delação premiada do ex-ministro de Lula e Dilma Antonio Palocci parece ser uma bomba de efeito seletivo, e por isso os procuradores de Curitiba não a aceitaram. Mas a Polícia Federal considerou que a seleção, que, por exemplo, evita acusações a pessoas com foro privilegiado, não invalidava as outras denúncias, e agora caberá ao juiz Sérgio Moro decidir se homologa ou não o depoimento.”

Quanto ao MPF, ele é citado na matéria anódina com o título Saiba porque o MPF resistiu a um acordo de delação com Palocci.  Essa matéria serviu apenas para insinuar que a emissora pode jogar a população contra o MPF e que, por isso, é melhor ele dançar conforme a música. É por isso que ela começa se dirigindo ao público e em tom de revelação: “Saiba porque o MPF resistiu a um acordo com Palocci”.

Já sabemos até agora que 1. Essa denúncia de Palocci é ilegal, já que ‘legalidade’ está sub judice no STF. 2. Os procuradores de Curitiba, sempre tão afoitos contra Lula, recuaram diante do lixo tóxico chamado Palocci. 3. As denúncias de Palocci são seletivas, impróprias e calibradas para satisfazer os procuradores de Curitiba, mas, como nem eles aceitaram, coube a PF, ao aparelho repressivo, impor sua verdade ao país.

Mas teria a PF alguma prova que fizesse aceitável as denúncias de Palocci? Não. Para nosso maior pasmo, não há qualquer prova.  E é o próprio editorial do Globo acima, quem o diz. Depois de diversas considerações banais como pardais, afirma:

“Aguarda-se para saber se Palocci provará o que fala e/ou ajudará na obtenção de provas. “

Como pode? É inacreditável. Como é possível que a Globo estampe em suas manchetes a denúncia escandalosa de Palocci e, ao mesmo tempo, confesse que não há nela qualquer prova? Isso só é possível se, na verdade, essas manchetes, editoriais, e artigos, forem encarados não como ligados a fatos, mas muito mais como scripts e enredos através dos quais a emissora realiza sua tomada de assalto do judiciário.

Pois é isso. A oca denuncia colhida pela PF, tão vazia que os procuradores do Ministério Público Federal de Curitiba não a aceitaram, serve para a Globo dar um passo adiante. É o que está no portal do G1, na forma de uma calúnia sem qualquer lastro ou fundamento, já que, como disse o editorial que citamos, ainda  “Aguarda-se para saber se Palocci provará o que fala e/ou ajudará na obtenção de provas”. Vejam as mentiras e calúnias de Palocci ganhando a forma de escândalo na home do portal G1:

Aqui se fecha o roteiro que a realidade, mas precisamente o judiciário brasileiro (que aliás, há muito tempo vem se habituando a representar farsas e comédias) deve levar à cabo e inserir com violência na realidade. Tudo isso deve se tornar real para que Lula continue preso. Essa é a mensagem inclusa no roteiro da Globo. Se esse fosse um país que conservasse um mínimo de normalidade democrática, essa operação da Globo mesclando artifícios, intrigas, calúnias, ficções úteis, distopias institucionais, desvios de função da mídia, assalto à institucionalidade do país, destruição do capital político, etc. etc. seria visto como o que é, na realidade, crime político.

Mas no Brasil de hoje, agonizando sob as botas da ditadura midiática do golpe, o que está sendo tramado nesse dia 27 de abril – a tomada de assalto do poder judiciário, o único ainda relativamente autônomo (e autônomo porque rezava conforme a cartilha da Globo) – tem tudo para dar certo. É bem provável que a próxima reunião do STF aconteça no Projac.

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