Cafezinho 2 minutos: Posse de Bolsonaro e alegações finais contra Lula

Wanderley Guilherme faz balancete das novas chapas presidenciais

Por Miguel do Rosário

08 de agosto de 2018 : 16h03

No blog Segunda Opinião

BALANCETE

Por Wanderley Guilherme dos Santos
7 de agosto de 2018

Em matéria de estratégia, a do PCdoB foi a de maior êxito. Ameaçado pela nova legislação de perder privilégios parlamentares, sem assento em comissões, mesas diretoras, fundo partidário e tempo de televisão, as eleições proporcionais são o objetivo primordial do partido. Associando-se a chapas fortes, contará com votos dos partidos das coalizões para eleger seus candidatos. A apresentação de Manuela como candidata a presidente foi audaciosa. Destinada a ser absorvida, a candidatura ficou à beira do precipício com a escolha de Katia Abreu por Ciro Gomes. Se Lula continuasse a recusá-la o PCdoB teria que enfrentar sozinho a competição presidencial, provavelmente não tendo votos para atender à exigência da lei eleitoral para a representação no parlamento. Estratégia bem traçada e bem executada.

Ciro Gomes é o único capaz de promover duas campanhas simultâneas. Katia Abreu dispõe de personalidade e capacidade de articulação que a permitem fazer campanha em um lugar enquanto Ciro circula em outra praça. Marina Silva ou Geraldo Alkmin não contam com tal recurso. No PT, já com o problema de informar a seu eleitorado que o candidato não é o Haddad, mas Lula, exceto se Lula for impugnado, Manuela não tem como se apresentar senão junto com Haddad, deixando claro que, se Lula for candidato, o vice não será o Haddad, ali presente, mas ela, que, por ora, não é nada. Um pequeno transtorno será explicar, caso perguntem, o que acontecerá com Haddad, se Lula for candidato: voltará a dar aulas no INSPER, colégio de radicais antipetistas, ou será confirmado, não como o mensageiro de Lula, mas como vice mesmo? Aí o destino incerto será da Manuela. Nada disso tem importância para o eleitor, segundo os estrategistas do PT e seus porta-vozes na imprensa alternativa, porque eleger Lula ou seu preposto é o que importa. Mais nada.

Quanto a programas, Marina Silva, não obstante assessores de peso, não abre mão de confundir o eleitor com seu estilo baixo austral de Augusto dos Anjos. As votações que tem obtido são o maior mistério do comportamento eleitoral brasileiro. Se ela afirmar que, com os erros e roubalheiras do passado recente, pior do que está não pode ficar, será considerada uma declaração socrática – tipo, eu só sei que nada sei -, embora um plágio de Tiririca, cuja votação é igualmente incompreensível. Alckmin dispensa apresentar programas porque já é conhecido há vinte anos.

O cartapácio do PT rebobina programas conhecidos, acrescenta velhuscas bandeiras como um imposto sobre fortunas e ignora por completo o complexo desafio da revolução industrial ponto 4 sem fazer ideia do problema de emprego que o País terá pela frente. Refere-se à intervenção no mercado da informação, sem maiores esclarecimentos, e serve a fantasia de reforma política junto com a promessa de uma Assembleia Nacional Constituinte. Mas a segunda, se cumprida, não promoveria a primeira? Talvez não, pois, segundo os pensadores petistas, os deputados não alteram as condições que lhes proporcionaram o mandato. Bem, fora a grosseira análise de como funciona um parlamento, onde pensam buscar candidatos e eleitores distintos dos atuais? Quanto a isso o programa oferece o conhecido escapismo de que tudo será feito depois de ampla consulta à população. Bem, não importa porque o projeto real é eleger Lula ou quem ele mandar.

O programa de Ciro Gomes tenta apresentar diagnósticos específicos de vários problemas materiais e esboça linhas de ação para minorá-los. Há substância para discussões relevantes, inclusive sua tese de que o presidencialismo é a fonte de todos os males e o parlamentarismo um primor de engenharia: se não está funcionando, o grupo deixa o governo e outra eleição, ou indicação do próprio parlamento, escolhe o grupo substituto. Não haveria o problema agônico da sucessão que precisa esperar quatro, cinco ou seis anos para solucionar um vexame como o de Michel Temer, por exemplo.

Ocorre que a Alemanha dos anos 30 era parlamentarista, na companhia de Portugal salazarista e outros da mesma cepa. Ciro está equivocado quanto à história das formas políticas. Em compensação, tem revelado conhecimento e preocupação com o ingresso do Brasil na ordem robótica, com a perspectiva de se tornar um dos países cronicamente proletários no mundo da automação. Mas todas as entrevistas são desperdiçadas com debates sobre o temperamento do candidato, suas relações com o PT e Patrícia Pilar. Ou seja, a imprensa convencional também não quer saber do programa de ninguém: já tem seu candidato tanto quanto parte considerável da imprensa alternativa. Pensamento único em todos os canais de comunicação.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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OZEAS LUIZ MAINENTI SIMOES

09 de agosto de 2018 às 01h34

a tedndenciosidade do wanderley e do rosário para ciro é patente. por~em como sempre, a arrogância de ciro impediu voos mais altos. tivesse se incorporado cedo a esquerda, seria hoje vice de Lula , com voz para falar. dizer que kástia abreu é uma grande aquisiçãso chega a ser risível.

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    Miguel do Rosário

    09 de agosto de 2018 às 06h23

    prezado, vou relevar seu comentário sobre tendenciosidade, que é uma besteira. mas porque você acharia que interessaria a ciro ser vice de Lula, se representa um outro programa e um outro projeto?

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      Nostradamus ( Consultoria política e psicológica )

      09 de agosto de 2018 às 10h08

      Finalmente, nada como o tempo!, pude entender seu pé atrás com o Lula ! Outro programa e outro projeto. Tá explicado Miguel. Pode publicar que não é xingamento. Bay

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      NeoTupi

      09 de agosto de 2018 às 11h17

      Se representa um programa e projeto significantemente oposto ao do pt e pcdob então por que ficou pregando união das esquerdas com o pt e pcdob em torno de Ciro?

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        Miguel do Rosário

        09 de agosto de 2018 às 11h21

        Porque a aliança é entre projetos diferentes. Senão não precisaria haver movimentos pela união, porque já estariam unidos. O PT não se alia ao PMDB. Não são diferentes? E não vêem necessidade de se aliar em prol de um projeto em comum?

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          NeoTupi

          09 de agosto de 2018 às 12h48

          Obvio, mas contradiz sua pergunta: “porque você acharia que interessaria a ciro ser vice de Lula, se representa um outro programa e um outro projeto?”
          Então também não é diferença de programa que esteve em questão para Ciro não aceitar ser vice de Haddad.

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