Entrevista de Haddad ao SBT

A pior entrevista da história

Por Pedro Breier

17 de setembro de 2018 : 11h49

O título é hiperbólico, mas esta foi a forte impressão que ficou da entrevista de Fernando Haddad ao Jornal Nacional.

“Entrevista”, aliás, está longe de ser o termo mais adequado para o que aconteceu ontem à noite. “Tentativa grotesca e mal-sucedida de massacre” está mais próximo da realidade.

William Bonner e Renata Vasconcellos pareciam dois personagens de Malhação, a interminável novela para adolescentes da Globo: afoitos como costumam ser os jovens e afetados como costumam ser, em cena, os atores globais.

O nítido objetivo dos entrevistadores era arrancar de Haddad algumas respostas pré-determinadas – certamente pelo alto comando da Globo. O mesmo método foi empregado na sabatina de Haddad na Globonews, inclusive com várias perguntas muito semelhantes.

Em ambas as entrevistas tentou-se, por exemplo, fazer com que o candidato do PT fizesse um pedido de desculpas à população.

Ao perceberem que Haddad não cairia nessa estúpida pegadinha, os inquisdores, tanto no JN quanto na Globonews, ficaram ouriçados. É como se eles fossem atores da Globo, fingindo serem jornalistas, com réplicas previamente preparadas para cada tipo de resposta do candidato. Quando o candidato sai um pouco do script, eles ficam perdidos e um tanto desesperados.

Outra dessas toscas tentativas de arrancar uma resposta específica de Haddad foi com relação à sua derrota na eleição municipal, em 2016. A genial ideia era fazer com que Haddad dissesse que o eleitor errou ao não elegê-lo.

O petista obviamente não disse isso (falou que o eleitor foi induzido a erro). Bonner e Renata, como dois adolescentes tentando “ganhar” uma discussão, passaram a repetir freneticamente que Haddad estava sim dizendo que “o eleitor errou”. O script do episódio deve ser seguido a qualquer custo…

Haddad teve um bom desempenho, na medida do possível diante das 62 interrupções que sofreu (fonte: Revista Fórum) – mais que todos os outros candidatos, três vezes mais que Alckmin.

Destaque para o momento em que Bonner inclui Dilma Rousseff em uma lista de “presos, condenados, réus e investigados”, e Haddad rebate dizendo que Dilma não é ré. Bonner insiste que Dilma é investigada e Haddad diz que “investigada, a Globo também é”, afirmando ainda que isso é de interesse da população sim, já que se trata de uma concessão pública. O ponto negativo é que, pelo jeito, Haddad continua achando golpe uma palavra muito forte, já que não usou-a.

O ridículo da postura dos entrevistadores – falar mais que o entrevistado – ficou evidente ao final, quando Haddad fez uma pergunta retórica e Bonner, empertigando-se todo, mandou um “você fez uma pergunta e agora eu vou responder” e desatou a falar, assumindo de vez o papel de entrevistado. Simplesmente patético.

A TV continuou ligada após o JN e eu assisti a um trecho da novela global. As semelhanças da novela com o JN são impressionantes: em ambos a qualidade técnica, a produção impecável e as belas imagens são inversamente proporcionais à trama inverossímil, ao texto simplório e ao roteiro absolutamente bizarro.

Pedro Breier

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

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9 comentários

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Decio Adams

20 de setembro de 2018 às 19h19

O habitual em uma entrevista é que o(s) entrevistador(es) façam uma pergunta e depois concedam o tempo para que o entrevistado responda satisfatoriamente o que foi perguntado. Se ficar faltando algum esclarecimento, pode ser feita uma pergunta complementar e dado o tempo de resposta. É isso que eu conheço de entrevistas. Qualquer jornalista que se preze, tem isso como ponto fundamental de seu comportamento.
O que William Bonner e Renata Vasconcelos fizeram com Haddad e em menor escala com outros candidatos, é uma inadequada forma de “inquisição”. Se a pessoa entrevistada não tem tempo de responder ao que lhe perguntam ela tem, a meu ver, todo o direito de interromper e se retirar, uma vez que nenhuma regra básica aplicável à situação está sendo respeitada. A dupla de prepostos da Globo, fizeram na verdade um desserviço significativo à população que os assistia. Não tive ocasião de ver ao vivo e chego à conclusão de que não perdi nada. Ganhei foi tempo e serenidade que teria perdido se estivesse vendo a situação.

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Carlos Pereira

18 de setembro de 2018 às 12h33

Vulgo Bolsonauro ou Bozonauro não precisa ser investigado, como se não bastasse as besteiras que fala e pensamento tosco, só afunda depois desse vice “Mourão” que ele foi se juntar. Senão vejamos:
-STJ mantém condenação de Bolsonaro por ofensas a Maria do Rosário
Deputado foi condenado a pagar R$ 10 mil a Maria do Rosário por dizer que ela não merece ser estuprada por ser ‘muito feia’. Bolsonaro disse que recorrerá ao STF, onde é réu (G1).
-Sakamoto: Para vice de Bolsonaro, a malandragem é africana e a indolência, indígena. Pode Arnaldo????
Tal pai, tal vice. O Brasil não merece isso. Como disse Boulos são 50 tons de Temer!
O Melhor candidato é sem dúvida nenhuma: Lula. Lula Livre!
Na falta, ainda bem que temos Haddad Presidente!

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Capanema

17 de setembro de 2018 às 20h34

– Mas qual figura política não está sendo investigada? – perguntou Haddad
– Jair Bolsonaro… – respondeu Bonner.
– …. (cara de bunda)… – Haddad

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    Carlos Pereira

    18 de setembro de 2018 às 12h37

    Vulgo Bolsonauro ou Bozonauro não precisa ser investigado, como se não bastasse as besteiras que fala e pensamento tosco, só afunda depois desse vice “Mourão” que ele foi se juntar. Senão vejamos:
    -STJ mantém condenação de Bolsonaro por ofensas a Maria do Rosário
    Deputado foi condenado a pagar R$ 10 mil a Maria do Rosário por dizer que ela não merece ser estuprada por ser ‘muito feia’. Bolsonaro disse que recorrerá ao STF, onde é réu (G1).
    -Sakamoto: Para vice de Bolsonaro, a malandragem é africana e a indolência, indígena. Pode Arnaldo????
    Tal pai, tal vice. O Brasil não merece isso. Como disse Boulos são 50 tons de Temer!
    O Melhor candidato é sem dúvida nenhuma: Lula. Lula Livre!
    Na falta, ainda bem que temos Haddad Presidente!

    Responder

Vinicius Guimarães

17 de setembro de 2018 às 15h20

Haddad soube se comportar. Queriam que ele perdesse o controle, e ele não só não o perdeu, como assumiu o comando: “quando a minha honra está em jogo, eu é que defino a hora de parar”, e falou até o momento que quis. Impôs-se. Mais não poderia fazer.

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Joseane

17 de setembro de 2018 às 14h30

Eu, como não faltei às aulas de Língua Portuguesa (análise do discurso), muito menos às aulas de História, não vi entrevista. O que vi foi uma “INQUISIÇÃO NÃO SANTA”.
Foi visível nas falas, até mesmo nas feições dos “inquisidores”, o desejo, tão somente, de desqualificar o PT e o seu candidato.
LULA JÁ ESTÁ LIVRE! LULA JÁ ESTÁ NA HISTÓRIA!

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    Edson

    17 de setembro de 2018 às 21h00

    Realmente, o lula está na história, como o único ex-presidente preso por corrupção no Brasil. Quem defende ladrões é …… estude um pouquinho de administração se saberá o que ele fez e um pouquinho de história (comunista) e saberá o que o pt quer fazer.

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Francisco Solano P. de Lima

17 de setembro de 2018 às 13h27

Interessante as opiniões do colunista. Todos os candidatos que foram “entrevistados” no Jornal Nacional passaram por um processo de “liquidificação”. A meu juizo aquilo não é entrevista e sim um debate com os apresentadores.

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    Serg1o Se7e

    17 de setembro de 2018 às 13h56

    É que esse colunista em particular é bem fã do pt e acaba não vendo outras coisas…

    O que eu vi foi de um lado um certo despreparo, poucos argumentos e algumas falas inverídicas, e do outro dois apresentadores.

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