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Marcos Nobre: Bolsonaro pode transformar Brasil em mistura de Filipinas com Turquia

Por Miguel do Rosário

15 de outubro de 2018 : 10h02

Na Folha

Haddad precisa representar mais que o seu partido, diz Marcos Nobre

Filósofo diz que único caminho para o ex-prefeito é abrir mão do protagonismo petista e atrair adversários para seu governo

15.out.2018 às 2h00
Patrícia Campos Mello
Marco Rodrigo Almeida
SÃO PAULO

Há apenas um caminho para Fernando Haddad (PT) conseguir o feito improvável de derrotar Jair Bolsonaro (PSL) na eleição: mostrar que ele, Haddad, não é o candidato do PT, mas sim o de uma frente democrática.

Palavras, porém, não bastarão para convencer o eleitor e possíveis aliados de que o governo dele seria radicalmente diferente de qualquer governo anterior do PT: o partido terá de ceder poder e fazer gestos concretos, adverte o professor de filosofia da Unicamp Marcos Nobre.

Na avaliação de Nobre, o primeiro passo de Haddad deveria ser abrir mão de se candidatar à reeleição, caso eleito, e afirmar que Ciro Gomes (PDT) será o candidato dessa frente democrática em 2022.

O segundo passo seria incorporar pontos do programa de outros candidatos, de forma unilateral, sem exigir apoio em troca. Isso valeria para qualquer legenda que não tenha anunciado apoio a Bolsonaro, como a Rede de Marina Silva e o PSDB.

O PT também deveria renunciar a uma candidatura à presidência da Câmara, embora tenha a maior bancada, e integrar a sua campanha nomes como Nelson Jobim, para a pasta da Segurança, Joaquim Barbosa, sinalizando um compromisso com o combate à corrupção, e Marina no Meio Ambiente.

“Se quiser ser o candidato do PT, Haddad vai perder, e o peso de uma possível regressão autoritária ficará sobre as costas do PT; o partido tem uma tarefa histórica e, se jogar fora essa chance, as pessoas vão perguntar: por que então não deixaram o Ciro? ”

Folha: O senhor falou em artigo recente que, mais uma vez, o PT tem uma chance de renascimento. Qual seria o caminho para o candidato Haddad vencer as eleições, com essa vantagem tão grande para Bolsonaro? 

Se quiser ganhar, Haddad tem que ser o candidato de uma frente de defesa das instituições democráticas. Se quiser ser o candidato do PT, vai perder. E o peso de uma possível regressão autoritária vai cair sobre as costas do PT.

E como construir essa frente? Haddad deveria sinalizar claramente para o eleitorado que o governo dele será radicalmente diferente de qualquer governo anterior do PT.

A primeira coisa é chamar Ciro Gomes e dizer: “Eu abro mão de me candidatar à reeleição se for eleito e acho que nessa frente que montamos Ciro deveria ser nosso candidato em 2022”. Com isso, afasta-se o medo que as pessoas têm de que o PT vai se perpetuar no poder.

A segunda coisa é tomar pontos programáticos não só dos partidos que apoiarão Haddad, como PSOL, PDT e PSB, mas também tomar de outras candidaturas, de maneira unilateral, sem ter o apoio deles. De todas as forças políticas que disseram que não votam no Bolsonaro, ele tomaria unilateralmente os pontos do programa , sem negociar, sinalizando: “eu quero você dentro do meu governo”.

Poderia adotar, por exemplo, a agenda ambiental de Marina Silva, a proposta de Alckmin de criação de uma força de segurança nacional. Precisa abrir espaço para que Marina e Ciro participem. Deveria chamar uma figura como Joaquim Barbosa para representar, dentro do governo, o combate à corrupção. Chamar Nelson Jobim para ser responsável pela segurança pública.

Haddad precisa fazer movimentos nesse sentido. Se não fizer, não estará querendo de fato ampliar a sua base, não mostrará empenho em fazer um governo diferente.

É um desafio histórico, uma oportunidade de refundação. Para sair das cordas, o PT precisa de ajuda. E o PT pedindo ajuda, precisa também distribuir poder, de verdade.

Mas lideranças como Ciro, Marina e Fernando Henrique Cardoso têm se mostrado resistentes a um apoio aberto a Haddad… [Cafezinho: Não é totalmente verdade: Marina e FHC, de fato, ficaram neutras; Ciro e seu partido declararam apoio a Haddad. Mas, de fato, não foi um apoio muito entusiástico] O que acabei de dizer significa fazer gestos concretos na direção dessas pessoas. Não é apenas, “eu quero conversar com você”. Palavras não bastam.

São gestos concretos para se formar uma frente. Uma frente não se forma apenas porque do outro lado há um risco à democracia. “És responsável pelo segundo turno que conquistas” —o “Pequeno Príncipe” aplicado à política.

Não pode simplesmente dizer, “perdemos”. Pode perder, evidentemente, mas tem que de fato tentar.

Pelo que conhecemos do DNA do PT, vê alguma chance de isso realmente acontecer? Quando se tem uma tarefa histórica na sua frente, as pessoas e as instituições mudam. A situação é completamente diferente da de qualquer outra eleição. Se Haddad jogar essa chance fora, carregará esse peso. Vão perguntar: “por que, então, não deixou o Ciro ir?”.

Então Haddad deveria dizer ao eleitor: “Eu proponho essa frente e quero te convencer de que esse governo será muito diferente de todos os outros, que o PT não terá o protagonismo que teve nos governos anteriores. Então quero que seu voto, que hoje é de Bolsonaro, venha para mim. Mas se isso for impossível para você, se sua ojeriza ao PT é superior a qualquer outro sentimento, então, por favor, não vote em Bolsonaro”. Isso ele poderia dizer ao eleitor do PSDB.

Se FHC se mantiver neutro, isso mancha a biografia dele? Se queremos formar uma frente que tenha por princípio aceitar toda e qualquer pessoa que defenda as instituições democráticas, não pode ter pedágio. O primeiro pedágio é começar a acusar as pessoas. A formação dessa frente é uma dança, e cabe a Haddad dar o primeiro passo. São vários passos simultâneos.

Por enquanto, parece que a abordagem do PT tem um pedágio, usa a mensagem de “ou você nos apoia, ou apoia o fascismo”… Também não digo que essa seja a abordagem do PT. Não quero botar pedágio nem de um lado, nem do outro. Cabe a Haddad, não ao PT, dar o primeiro passo.

Isso são sinais para o eleitorado, as pessoas têm que perceber isso. Haddad tem que dizer: “Há duas possibilidades. Eu proponho que esse sistema funcione de maneira diferente. Meu adversário quer que esse sistema seja destruído. Isso é que está em jogo”.

O senhor sente um movimento de setores da sociedade e da imprensa para normalizar Bolsonaro, ou existe de fato um exagero nessa ideia de que ele fará um governo autoritário? A normalização está sendo feita há muito pela mídia tradicional e pelo mercado. No momento em que ficou claro que as forças anti-PT e antissistema confluíram para a candidatura dele, passaram a tentar civilizar Bolsonaro.

Mas Bolsonaro já deixou absolutamente claro que é incivilizável. Há uma ilusão da elite pensante de que é um candidato controlável. Pergunto: se o New York Times fosse um jornal brasileiro, o que teria feito com Bolsonaro?

Bom, mas existe a discussão sobre o posicionamento do NYT em relação a Trump, que seria panfletário e enviesado, em comparação, por exemplo, com o Washington Post, que adotaria postura crítica, mas com maior distanciamento…

O NYT tomou uma decisão: Trump não é um candidato normal, as instituições estão em risco, e nesse momento as regras mudam. O WP resolveu tratar Trump como um candidato normal. A imprensa brasileira foi WP, não o NYT. Acho a posição do WP equivocada.
E não estou aqui comparando Trump a Bolsonaro. São incomparáveis. Um dos movimentos mais fortes de normalização de Bolsonaro é compará-lo a Trump.

Nunca houve uma ditadura militar nos EUA. Nunca o cara que ganhou uma eleição nos EUA apoiou uma ditadura militar. As instituições americanas têm uma solidez que aguenta o Trump. Imagine um presidente autoritário no Brasil, com instituições em colapso, como são as nossas? Não há instituição democrática que aguente Jair Bolsonaro.

O fato de o PSL, o partido de Bolsonaro, ter feito a segunda maior bancada da Câmara, e que provavelmente será engordada com deputados de partidos nanicos que devem migrar para ele, isso não significa que haverá governabilidade? O partido com a maior bancada, o PT, tem apenas 11% da Câmara. A fragmentação é gigantesca. Você precisa ter uma capacidade de articulação, de reorganização do sistema, que o Bolsonaro não tem. A única resposta que poderá dar é truculência. Ele não tem equipe, nenhum requisito para reorganizar o sistema. Reorganizar o sistema não tem nada a ver com ter maioria parlamentar.

O risco de que o sistema político não consiga se reorganizar é muito alto. E, se não se reorganizar, a hipótese de um golpe volta à mesa.

Quando o senhor menciona a possibilidade de golpe, estamos falando de um golpe clássico ou algo mais insidioso, os golpes graduais, em sistemas com eleições, que vêm ocorrendo em países como Turquia e Venezuela? Seria uma mistura de Filipinas com Turquia. Nas Filipinas, virou uma coisa do tipo: você tem algum problema para resolver com seu vizinho, com lideranças indígenas, pode resolver que o Estado não vai mais arbitrar. O Estado deixa de arbitrar conflitos violentos na sociedade.

O senhor vê isso como uma possibilidade no Brasil? Isso já está acontecendo e vai piorar. Se Bolsonaro tivesse alguma responsabilidade, iria para a TV e diria para essas pessoas: parem. Só que ele tem um problema. Se disser para essas pessoas pararem, está aceitando que é responsável por essa violência. Então temos um impasse. Esse é o lado Filipinas. O outro lado é o de estrangular as liberdades, como é no caso da Turquia.

Como sabemos, a mídia tradicional está em crise profunda. Caso ele ganhe, teremos um presidente com tendências claramente autoritárias num momento em que a imprensa está com dificuldades enormes. Então é a receita para ter restrição, para o governo ir para cima da imprensa.
Você elege seus próprios canais oficiais, segue com campanha em redes sociais, em que não há nenhum controle, e diz : “não acredite em nada que a mídia tradicional diga”.

RAIO-X
Marcos Nobre, 53, é professor de filosofia da Unicamp e pesquisador do Cebrap. É mestre e doutor em filosofia pela USP. Escreveu os livros “Imobilismo em Movimento” (Companhia das Letras, 2013) e “Como Nasce o Novo” (Todavia, 2018)

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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22 comentários

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Luis Campinas

16 de outubro de 2018 às 10h16

Quem dera a questão que estamos a passar fossem por eventuais erros petistas. A derrota tem razões mais profundas. Desde havia muito, um certo setor da sociedade estava inerte. O último movimento institucional que avancou ainda que timidamente no sentido progressista cultural foi a outorga da Constituição de 88. Nossa sociedade sequer conseguiu impor culpa a assassinos e torturadores da ditadura, menos ainda desconcentrar os meios de comunicação, pior concentramos mais. Temos uma classe media mal educada pois com raras exceções é mal instruida. Suas deformações infelizmente começam nos lares e solidificam-se nos acessos comunicativos. Neste cenário seria uma proeza e é, não ser homofóbico, racista. Machista quem não é? Tudo isso e a contrapo-los tinhamos e ainda temos oito anos de alguns erros mas de muito acertos. Mas tudo trabalhou contra. Nenhuma instituição se prestou a carta magna e a guerra hibrida que antes houvera posto suas mãos nos EUA e danos causou numa nação mais democrática e com instituições ao menos sólidas em seus compromissos, imagine o que faria e fez nessa geringoronça no pior sentido possivel chamada Brasil? Fosse quem fosse na disputa contra a niva ameaça mundial sucumbiríamos. Estes atores que fora estão inclusive Ciro e seu exagerado anti petismo acrescetariam o que? Quem dera nosso problema fosse o PT. Aliás quem assim pensa faz parte daquele senso comum predador que apontei e que por ser um pouco mais recatado, ainda assim é do preconceito e o destila a toda hora. Em horas de cólera rareia a coragem e prosperam os oportunistas. Ainda tento o melhor, mas caso o pior venha, aconselho a não fazerem prospecções pq o pior ainda não veio, virá!

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crazy-fla

15 de outubro de 2018 às 19h56

Vai transformar numa Somália mesmo!!!

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Bozo & Andrade Artigos para Festas Infantis

15 de outubro de 2018 às 15h45

Filósofo conhecedor de teoria crítica frankfurtiana chega a tais conclusões com considerável atraso de muitos meses. Frente Democrática não é mais possível, pois partido da estrelinha (Peteca) sabotou ideia desde começo do ano. Tempo urge para que intelectuais críticos voltem a pensar realidade nacional, não mais se comportando como torcedores alucinados de Guru da Esquerda e seu partido, ambos rebaixados à segunda divisão eleitoral.

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    Tamosai

    16 de outubro de 2018 às 04h18

    OK. Cabo Anselmo.
    Tem gente que percebe as suas manobras.

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      Bozo & Andrade Artigos para Festas Infantis

      16 de outubro de 2018 às 09h17

      Recomendamos leitura de texto do economista Paulo Nogueira Batista Júnior, no qual modo “já ganhou” estava plenamente ativado, para comprovar o quão ridículo é fato de intelectuais abdicarem da crítica e passarem a fazer parte de torcida organizada. Reiteramos que nosso voto será de Andrade no segundo turno, mas eleição está virtualmente perdida. Entendemos, ademais, que tese de Tarso Genro sobre refundação do partido da estrelinha sobre novas bases éticas e morais encontra-se na ordem do dia. O que tais obviedades têm em associação com triste figura de Cabo Anselmo só mesmo o sr. e outros adoradores do templo peteca podem saber.

      Responder

Ricardo

15 de outubro de 2018 às 15h42

” mostrar que ele, Haddad, não é o candidato do PT, mas sim o de uma frente democrática.” Frente democrática formada por PT, PSOL e PCdoB ? Não me façam rir !

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    Ultra Mario

    15 de outubro de 2018 às 18h31

    Por favor leia o texto antes de postar.

    Responder

      Tamosai

      16 de outubro de 2018 às 04h20

      Você está querendo demais pedindo para ele ler o texto. Ele só está aqui para postar mensagens de ódio. Não ficaria surpreso se ele for um milico reformado e de pijama, postando barbaridades.

      Responder

sempre Voltaço

15 de outubro de 2018 às 14h47

O Filosofo tá atrasado. Não há tempo pra mais nada.
O coiso já ganhou. Eu vou anular meu voto por causa do PT jurídico traíra que deixou o nosso presidente eterno mofar na cadeira. Quer exemplo maior da traição? Hadad foi ao encontro com o coisa ruim do mensalão, o capitão do Mato, o doutor joaquim… fala sério.

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    Tamosai

    16 de outubro de 2018 às 04h21

    Tudo isso para justificar votar no Coiso?
    Você só está aqui para postar mensagens de ódio. Não ficaria surpreso se você for um milico reformado e de pijama, postando barbaridades.

    Responder

      Mariana T Noviello

      16 de outubro de 2018 às 04h32

      O texto é irônico!! Leia o artigo inteiro. A culpa já é jogada no PT, já está acontecendo. A culpa é sempre posta no PT e isso aplaca as coinsciências das outras pesssoas!

      Responder

      Mariana T Noviello

      16 de outubro de 2018 às 04h34

      Já disse o texto é pró-PT, isso se chama ironia.

      Responder

      sempre Voltaço

      16 de outubro de 2018 às 10h07

      cara, abra sua mente. Leia o meu comentário.
      Vou anular o meu voto. Ambos não me representa.
      Eu sou Lula..Lula…Lula. que foi traído pelo PT Jurídico.
      Ah..no primeiro turno votei no Ciro. tá bom pra vc?

      Responder

Acauã Rodrigues

15 de outubro de 2018 às 13h29

Porque a demora em publicar comentários ?
Já faz mais de uma hora que comentei aqui
Há que se ter agilidade a fim de espelhar a reação dos leitores…
(não precisa publicar este, é claro…rs)

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    Acauã Rodrigues

    15 de outubro de 2018 às 13h30

    Impressionante….rsrsrsrs

    Responder

Acauã Rodrigues

15 de outubro de 2018 às 12h42

Existem algumas obviedades que nos assombram.

Como, AGORA, o Haddad/PT conseguiria fazer esta alquimia de encarnar uma luta mais ampla, de Campo Democrático, se desde sempre e inclusive nas amarrações para o 1º Turno o PT fez a política do próprio umbigo ?

Todas as iniciativas do PT foram absolutamente erradas do ponto de vista do fortalecimento do Campo Democrático. Basta lembrar da sórdida jogada e isolar o Ciro Gomes, para se garantir na hegemonia da centro-esquerda. A insistência na “candidatura Lula”…

A Nomenklatura Lulo-petista agiu de forma mesquinha, curta. Pensou na sua própria sobrevivência enquanto aparato burocrático, e não em estratégia Política, com “P” maiúsculo.

Chego a pensar que consideraram inclusive ser melhor perder mas se manter como o grande polo de oposição, ao invés de se desapegar e apostar em outra liderança com mais condições de representar o Campo Democrático.

Enfim, uma junção de Mesquinhez Política com Burrice Estratégica

E o leite derramado não voltará ao pote.

Responder

Paulo

15 de outubro de 2018 às 12h37

Nosso ilustre professor está fora da realidade. Não há mais tempo para “frentes”…

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Chauke Stephan Filho

15 de outubro de 2018 às 11h48

Quanto mais eu leio essas figurinhas da esquerda, mais razões percebo para me sentir um fascista.

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