Boulos no programa de Maurício Meirelles

Outro caso curioso foi a projeção de um matemático da USP (que não é o Alberto Almeida), de que Haddad tinha 99% de chances de ganhar as eleições. O PT não se apercebeu do ridículo de divulgar uma coisa assim.

Os prognósticos de Alberto Almeida

Por Miguel do Rosário

06 de novembro de 2018 : 15h02

No início de 1940, o Reino Unido já estava em guerra contra a maior potência militar da época, a Alemanha. Mas o primeiro ministro inglês Neville Charmbelain, do Partido Conservador, ainda continuava acreditando em algumas falsas promessas de Hitler e Mussolini. Aliados do primeiro ministro, como o Lorde Halifax, defendiam que, para se evitar o pior, a Inglaterra fizesse novas concessões ao regime nazista.

O volume das críticas a Chamberlain cresceu a níveis insuportáveis. Então Winston Churchill, do mesmo partido, mas com apoio forte na oposição, assumiu o cargo e rechaçou peremptoriamente qualquer novo acordo com Hitler. E venceu a guerra.

Menciono essa história para provar que críticas sempre são necessárias, sobretudo nos momentos mais perigosos. A tese de que “não é hora” de criticar não é racional. Quanto mais grave o momento, mais importante que haja uma vigilância crítica sobre as lideranças políticas, justamente para ajudá-las a corrigir suas rotas a tempo de evitar maiores danos ao coletivo.

Muito mais perigoso do que uma crítica bem fundamentada é a embriaguez nascida do falso elogio e de uma análise pouco realista da conjuntura.

Até porque, de suas lideranças políticas, o povo não espera milagres, e sim franqueza e honestidade.

Se o povo sente que suas lideranças estão lhe escondendo a verdade, ele procurará outras que lhe inspirem mais confiança.

Esse foi, a meu ver, um motivo que fez o PT perder muitos votos na eleição deste ano, sobretudo entre eleitores com ensino médio para cima. A história de que Lula era candidato, e que poderia sim ser eleito e assumir, podia colar com o eleitor analfabeto, mas irritava profundamente o restante da sociedade, que tinha informações suficientes para saber que aquilo não era verdade, e que o partido estava tentando lhe enganar.

Setores da elite simpatizantes do PT tinham perfeita consciência de que a história era uma grande fraude, mas aceitavam a narrativa como necessária para se conquistar o voto iletrado. A estratégia embutia um mal disfarçado preconceito contra a capacidade intelectual do povo.

Para silenciar as críticas que alertavam para os perigos de uma estratégia baseada numa fraude tão explícita, surgiram os “profetas da vitória”, cientistas políticos que faziam prognósticos forçadamente otimistas.

Entre estes, o mais notório foi Alberto Carlos Almeida.

O internauta Fernando Paiva (@FernandoFSPaiva) fez um thread de twitter com algumas críticas às previsões de Almeida ao longo da campanha. Vale a pena seguir o fio ao final do post. É muito interessante.

Enquanto intelectuais independentes alertavam que as pesquisas mostravam fortíssima rejeição ao PT e a Lula, sobretudo nas grandes cidades, no Sul/Sudeste e nas classes médias, sinalizando uma grande dificuldade eleitoral, em especial no segundo turno, a cúpula do partido e os blogs aliados não apenas procuravam ignorar essas análises, como dispenderam uma grande energia para neutralizá-las. A militância fanatizada, por sua vez, agredia e tripudiava. A orientação da cúpula era manter a militância presa aos prognósticos mais delirantes, desde que esses fossem úteis às estratégias.

Ao contrário dos alertas lançados pelos intelectuais independentes, todos confirmados, nenhuma dessas “previsões” delirantes e otimistas – e que ignoravam tanto as pesquisas como qualquer observação isenta da realidade – se materializou.

Até hoje, alguns petistas ou simpatizantes lembram das pesquisas do primeiro semestre de 2018, favoráveis a Lula, atendo-se somente à sua primeira página. Ignoram as outras informações que ali constavam: dentre elas, a mais perigosa, para a esquerda, era o forte apoio social à condenação e prisão de Lula, muito expressivo em setores numerosos e influentes da população.

Das duas, uma: ou se acreditava nas pesquisas ou não se acreditava. Se havia essa fé toda nelas, então ela tinha que ser completa, ou seja, deveria-se acreditar também nos dados negativos.

Não se tratava, em nenhum momento de “abandonar” Lula, mas sim de separar, cuidadosamente, a sua defesa jurídica pessoal da estratégia maior de ampliar o leque de apoios políticos, visando conquistar setores plurais da sociedade, vencer as eleições e construir uma base social que desse sustentabilidade ao governo.

***

Eu reproduzi os comentários de Paiva abaixo. Leia e comente.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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