Cafezinho 2 minutos: Posse de Bolsonaro e alegações finais contra Lula

Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

A Cedae pública: uma vitória da política sobre a mídia

Por Miguel do Rosário

07 de dezembro de 2018 : 10h15

Nos dias de hoje, é raro comemorarmos vitórias da classe política sobre as pressões midiáticas, por sua vez ditadas – invariavelmente – por interesses antipopulares patrocinados pelo mercado financeiro.

O Globo publica hoje um editorial furibundo contra a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), no qual critica a decisão da casa de derrubar o veto do governador Pezão, hoje preso, a um projeto de lei que proibia a venda da Cedae.

Voltando um pouco, para o leitor entender.

Quando o governo do Rio se viu completamente quebrado, sem dinheiro para pagar os salários de seus servidores, ele apelou ao Planalto. Que, por sua vez, condicionou qualquer ajuda ao governo do Rio à adesão a um “Regime de Recuperação Fiscal”, que incluiria venda de ativos, entre eles a Cedae.

Em dezembro de 2017, o banco BNP Paribas emprestou R$ 2,9 bilhões ao governo do Rio, para ajudá-lo a pagar os salários atrasados. A garantia dada foi a… Cedade.

Houve protestos massivos de populares, servidores, parlamentares. Nada adiantou. O governo Pezão sofreu pressão de todos os lados: da justiça (que o prenderia logo em seguida), da Globo, do Planalto, e, sobretudo, da situação fiscal do estado, quebrado após a Lava Jato desativar ou suspender indefinidamente todos os grandes projetos de infra-estrutura que geravam renda e impostos. Então o governo usou até o limite seu poder de persuasão e chantagem e conseguiu aprovar a venda da Cedae na Alerj.

Mas aí entra o deputado estadual Paulo Ramos, um brizolista discreto, que estava no PSOL há algum tempo, até ser expulso do partido porque votou contra a prisão (ilegal, diga-se de passagem) dos deputados Picciani, Albertassi e Paulo Melo.

Aí vale uma rápida digressão. Os partidos de esquerda que defendem Lula Livre e criticam (com razão, com muita razão) os abusos da Lava Jato apoiaram a prisão desses deputados, embora esta fosse completamente inconstitucional, pois se deu sem flagrante e sem autorização da Casa.

A direção nacional do PT determinou o apoio a prisão dos deputados, punindo (embora não com expulsão) o deputado Andre Ceciliano, que desobedeceu à legenda. O PSOL aderiu entusiasticamente à tese da prisão e expulsou Paulo Ramos, que votou pela soltura dos colegas, sumariamente.

O PDT, por sua vez, votou em peso pela soltura, com exceção de Martha Rocha, que até hoje se orgulha de seu voto, e que, segundo o presidente Carlos Lupi já deixou claro, tem o apoio do partido para disputar a prefeitura do Rio em 2020.

Enfim, expulso do PSOL, Paulo Ramos voltou ao PDT, e este ano se elegeu – com uma votação modesta, de 25 mil votos – deputado federal pela legenda.

Voltando à Cedae, Paulo Ramos conseguiu apoio da maioria da Alerj para aprovar uma emenda de sua autoria que tinha uma lógica cristalina, irrefutável. Como a União tem uma dívida de cerca de R$ 4 bilhões com a Cedae, reconhecida inclusive pelo Supremo Tribunal Federal, nada mais justo do que usar esse montante como garantia para o empréstimo com o BNP Paribas.

Segundo o último balanço oficial da empresa, a receita operacional líquida da Cedae em 2017 foi de quase R$ 5 bilhões.

O lucro líquido da empresa em 2017 foi de R$ 279,7 milhões. Em 2016, havia sido de R$ 379,2 milhões; em 2015, R$ 248,8 milhões e 2014 foi de R$ 460,3 milhões.  Ou seja, nos 4 anos de 2014 a 2017, a empresa gerou lucro líquido de R$ 1,4 bilhão.

É uma empresa, portanto, que dá lucro para o Estado, e que o ajuda a pagar as contas. Vendê-la apenas piorará a situação fiscal do Rio de Janeiro.

É verdade, infelizmente, que o estado do Rio sofre horrivelmente com problemas de saneamento, e que grande parte da culpa disso recai sobre a incompetência da Cedae. Por outro lado, a empresa vinha fazendo enormes investimentos nos últimos anos, e não me surpreenderia que muitos deles (talvez todos) estejam parados por causa da Lava Jato, que impôs uma paralisia generalizada em qualquer tipo de obra pública em andamento no país.

A solução não é, definitivamente, vender a Cedae, inclusive porque se trata de uma privatização quase impossível, de tão complicada, por causa da fragmentação da empresa.

O governador eleito, o juiz Wilson Witzel, apesar de suas posições conservadoras, e para a desgraça da Globo, é contra a privatização da Cedae. A pressão sobre ele – oriunda da mídia e do mercado financeiro – será grande, mas ele experimentará uma situação fiscal um pouco mais folgada que a de Pezão, em virtude da recuperação dos preços do petróleo e o consequente aumento dos royalties pagos ao estado do Rio.

Até o momento, portanto, a Cedae continua pública, e a salvo da sanha dos abutres financeiros. Parabéns ao deputado Paulo Ramos e à Alerj

E abaixo a Rede Globo!

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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22 comentários

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Brasileiro de Souza

08 de dezembro de 2018 às 09h38

Creio que algo vai acontecer na hora décima, na véspera de tudo… O imponderável, o inacreditável, o inesperado, o contingencial… Mas o Mourão vai ser diplomado e vai ser empossado. Hoje é sábado também na França. Lula Livre dia 10. Vai que falte luz na TSE e seja transferido para outro dia ? Vai que um pelotão de bactérias avance com a baixa da imunidade do estresse corruptor no Impostor ? Nunca subestimem os auspícios de uma alma inocente que clama aos céus das criptas profundas do seu ser! ” Não ficará pedra sobre pedra! “

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    Brasileiro da Silva

    08 de dezembro de 2018 às 11h40

    esse chá que vc tomou é dos bons. O Aragão que forneceu?

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Nostradamus ( banquinho & bacia )

08 de dezembro de 2018 às 08h28

Vamos discutir a antecipação do início do fim do governo corrupto do coiso a partir das últimas notícias do Coaf, do chilic do Onyx, do revide do Mourão… Não consigo lembrar o nome da Marcela do coiso… mas a mulher do coiso com um chequinho de R$ 24.000,00 não é para colocar na cestinha do pastor né ?
O coiso é miudinho, não sabe falar e se entrega na sua fala simplória. Tá comprometido até a garganta com as famílias e os crentes cuja ética não é lá essas coisas muito rigorosas mas sim prosperidade do bolso e relativismo morista. Estão todos verdadeiramente ca.gados, por dentro e por fora, respingou no ventilador. Agora é só ter calma que esse será o assunto frustrante da ceia de Natal dos eleitores arrependidos. Mais um passo e vão para as ruas como em França.

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    Nostra

    08 de dezembro de 2018 às 09h25

    Monologando… e como fica a situação dos Gomes articulando uma oposição para ajudar, para inglês ver, uma enjambração inclusive com o psdb… pdt… tão sentando no colinho do coiso… Pelo bem do Brasil!!! KKKKKKKKKKKKKK cada passo que o coiso dá mais phode o nosso povo, cada ministro que apresenta é um aprendiz de feiticeiro, uma bruxa… temos que ajudar… E daí Ciro ? Com a palavra Ciro Gomes! O coiso e sua raça, sua seita está com a corrupção até na garganta! O Collor quer ser presidente do senado… pacabá… e daí Ciro, Cid ? Vai lá tirar satisfação com ele… para apanhar na cara…

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Paulo

07 de dezembro de 2018 às 18h27

Não se entrega água e energia elétrica nas mãos de empresas privadas, como bem o demonstram a antiga Light, de São Paulo, e a Sabesp, que, há 3 ou 4 anos, quase deixa seca a maior cidade do país por falta de investimentos (a Eletropaulo – que sucedeu a Light, pagando caro por isso, a 4 anos do fim da concessão centenária – foi vendida; e a Sabesp está parcialmente privatizada, mas, por pressão dos acionistas, que só queriam realizar lucros, não investiu nem anteviu a crise hídrica).

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    Brasileiro da Silva

    07 de dezembro de 2018 às 22h06

    Tem toda razão. O modelo de SP é falido. Correto esta o modelo do NE, que não depende de ajuda federal e tem todas residências com água potável, saneamento e luz. SP devia seguir o exemplo. #SQN

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      Paulo

      07 de dezembro de 2018 às 22h36

      Não vejo razão para entregar monopólio público nas mãos de empresa privada. Sempre que isso ocorre, pagamos duas vezes: uma (antecipada) para construir o patrimônio privatizado; e outra para mantê-lo e ainda gerar lucro, pós-privatização. Em Londres e Paris a água é pública, e essa é uma tendência mundial: quem privatizou está tomando de volta os serviços de captação, tratamento e fornecimento…

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Roque

07 de dezembro de 2018 às 16h19

Que bola fora Miguel… O Rio está quebrado por conta única e exclusiva dos bandidos da Alerj e dos ex governadores pilantras e dos assaltos na Petrobrás. Culpar a Lavajato é uma falta de respeito com seus leitores.

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    Alan Cepile

    07 de dezembro de 2018 às 17h21

    A corrupção na BR é desde a época da ditadura, se isso fosse o motivo principal o Rio deveria estar quebrado desde os anos 70/80.
    Além do mais, a BR arrecada pro governo federal, o Rio ganha royalties e no máximo oferece mão de obra, pois bem, a Farsa Jato deu o golpe no petróleo brasileiro, paralisou até as refinarias só pra agradar os yankees e isso colocou na rua milhares de trabalhadores.
    Vc é brasileiro, americano ou é apenas mais um coxa retardado???

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      Roque

      07 de dezembro de 2018 às 18h10

      kkkkkkk, vcs são uns hilarios… Quer dizer que a corrupção na Petrobrás vem desde o regime militar??? Quantos anos vc tem? Pelo jeito uns 19 ou no máximo 20, pois, não sabe nada dos governos militares. Me aponte apenas um militar que seja milionário, fruto desta tal corrupção que vc disse. Militonto, saia da condição de sapo fervido, deixe de ser vaca de presépio, e passe a pensar um pouquinho só com o restinho de massa cinzenta que ainda existe no seu cérebro. Sou brasileiro sim, coxinha sim, mas nunca um petralha safado corrupto e lavador de dinheiro público.

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Renato

07 de dezembro de 2018 às 14h16

Culpa da Lava-Jato, culpa de Sérgio Moro, culpa do impeachment, é górpi , é górpi, é górpi !

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    Alan Cepile

    07 de dezembro de 2018 às 17h22

    Que o diga Rodrigo Tacla Duran….

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      Roque

      07 de dezembro de 2018 às 18h19

      Militonto, tá nessa de talco durango até hoje?? kkkkkkkkkkkkkkkkkkk, Vc não cansa de passar vergonha na net né… kkkkkkk

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        Alan Cepile

        07 de dezembro de 2018 às 18h27

        Coxa que não traz nenhum argumento, nenhum fato novo só merece uma risada kkkk

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          Brasileiro da Silva

          07 de dezembro de 2018 às 21h14

          Que tal vc nos trazer uma prova do Tacla Duram. Só uma. Ajuda o PT, faz esse esforço…,

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Alan Cepile

07 de dezembro de 2018 às 14h14

Ok, 100% na conta da Farsa Jato pode ser um pouco exagerado, mas país nenhum no mundo implodiria sua indústria e seu desenvolvimento por conta de uma operação pra pegar corrupto.

Isso só o Brasil, um país saqueado, faz.

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    ari

    07 de dezembro de 2018 às 17h54

    “O Brasil, para eles, não é um lugar para investir, mas para saquear.”
    (Tijolaço)

    Responder

Alan Cepile

07 de dezembro de 2018 às 14h11

Miguel,

Vale lembrar que o barril de petróleo voltou a cair, estava $86 a 2 meses atrás e hoje está $63, logo, não dá pra contar com nenhuma recuperação por conta da cotação do barril, a volatilidade é muito grande.

Responder

    Miguel do Rosário

    07 de dezembro de 2018 às 14h43

    63 ainda é um bom preço. Não pode cair abaixo de 40, como ficou de 2014 a 2016.

    Responder

Justiceiro

07 de dezembro de 2018 às 12h51

[…]prisão (ilegal, diga-se de passagem) dos deputados Picciani, Albertassi e Paulo Melo.”
*********
Não acredito Miguel, que você está chamando esses caras de inocentes.

Não acredito, Miguel, que você culpe a Lava Jato pelo estancamento de investimentos em saneamentos, no caso da CEDAE

Era melhor deixar a roubalheira correr frouxa?

Por fim, governo não é pra administrar um monte de empresas, seja deficitária ou não. Governo é para cuidar da segurança, saúde, educação, previdência – e aqui estão inclusos aposentadorias e proteção dos desvalidos – e defesa.

O resto? VENDE TUDO!!!!!!!

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    Nelson

    10 de dezembro de 2018 às 00h00

    “governo não é pra administrar um monte de empresas, seja deficitária ou não. Governo é para cuidar da segurança, saúde, educação, previdência”

    A mesma arenga neoliberal fundamentalista que vem sendo repetida há umas quatro décadas. FHC usou e abusou dela para nos engabelar com suas privatizações, doações do nosso patrimônio e riquezas, na verdade.

    E como estão, saúde, educação, previdência e segurança, depois que FHC entregou quase 70% do que era nosso para a farra de lucros de uns poucos grandes grupos privados?

    Eu nem precisaria dizer, mas o que temos é que a dívida pública se multiplicou e a grande maioria do povo está ainda mais desassistida que antes das privatizações nesses quesitos que, segundo nossa Constituição, são direitos que o Estado brasileiro deveria prover a cada cidadão(ã).

    Se você estivesse a ler algo consequente e não só abobrinhas neoliberais, ficaria sabendo que,
    mesmo nos Estados Unidos, pátria da iniciativa privada, 84% dos serviços municipais são públicos.

    Por que será que, no país em que o capitalismo é tratado como um sistema que faz parte de uma ordem divina, a maioria ainda prefere que os serviços não estejam em mãos da iniciativa privada, meu caro?

    Para o caso de que tu queiras refrescar tuas ideias, sugiro que leias a excelente matéria “Ideias ‘modernas’ de Doria estão ultrapassadas nos Estados Unidos: depois de muito experimentar, 84% dos serviços municipais são públicos” que o Viomundo publicou em agosto do ano passado.

    Para tanto acesses https://www.viomundo.com.br/denuncias/ideias-modernas-sobre-gestao-de-doria-estao-ultrapassadas-nos-estados-unidos-depois-de-muito-experimentar-80-dos-servicos-sao-publicos.html.

    Você vai constatar o quanto a mídia hegemônica e seus comentaristas, supostos especialistas em tudo, escondem ou distorcem os fatos ou simplesmente mentem, descaradamente, sem qualquer prurido, para nosotros. Por óbvio, toda a monumental manipulação perpetrada pela grande mídia não é feita pensando no bem estar do povo brasileiro como um todo.

    Responder

Gustavo

07 de dezembro de 2018 às 12h08

A grande culpa dos infortúnios dos cariocas é a má escolha de seus políticos. Cabral está condenado a mais de 200 anos de prisão, Pezão foi preso, boa parte da Alerj está na cadeia.

Se os cariocas melhorassem a escolha de seus dirigintes sequer estaríamos discutindo privatização da CEDAE.

Colocar a quebradeira do Rio na conta da Lavajato é fazer vista grossa para todo o roubo daqueles que dilapidaram patrimônio público.

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