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O gasoduto da discórdia

Por Tulio Ribeiro

20 de fevereiro de 2019 : 01h46

Grandes projetos de energia permitem desenvolver o capitalismo de países a um nível que podem garantir um crescimento sustentável por décadas. Quando a anglo-holandesa Shell tentou fazer o primeiro transporte do petróleo de Bakum para a ásia oriental via ‘Canal de Suez’ economizando quase 6500 km, foi a estadunidense Standard Oil que entrou na justiça,em Londres, para tentar impedir com receio da concorrência. A história divide aliados e se repete , mostrando que mesmo entre parceiros políticos existe possibilidade da discórdia por razões econômicas ou de estrtégia geopolítica.

Nesta ordem de ideias o canal que pode levar o gás, tornar-se um elemento-chave nos tensos e mutáveis equilíbrios geopolíticos da Europa Oriental. A discórdia é chamada de ‘Nord Stream 2’. Um gasoduto que irá transportar anualmente mais de 50.000 milhões de metros cúbicos de gás natural da Rússia para a Alemanha e tem atraído muita oposição dos parceiros europeus e os Estados Unidos.

Este empreendimento de iniciativa de transportar em larga escala energia , ligando o Mar Báltico com a distância de 1.225 quilômetros entre as cidades de Ust-Luga e Lubmin, permanecem praticamente a mesma rota que o gasoduto irmão ‘Nord Stream’, construído em 2011. Esta rede integrada aceleraria uma aliança entre o russo gigante estatal Gazprom e empresas da Alemanha, França, Áustria e Países Baixos. Significa dobrar a capacidade atual, bombeando para a Europa quase um quarto da demanda total de gás natural na União Europeia (UE).

Neste sentido o projeto tem um significado especial para Alemanha. Segundo o governo da chanceler Angela Merkel, o polêmico projeto satisfará a necessidade alemã de encontrar uma fonte para fornecer este hidrocarboneto precioso, mas poluente. A principal potência econômica do continente é também o país que mais consome gás natural e importa mais – 44,84% vem da Rússia. Em 2017 a produção de gás na Alemanha caiu 8,3%, uma tendência que ocorre em menor escala em todo o território da UE e reforça esta necessidade com os seus apoiantes justificar a criação de “Nord Stream 2′.

Assim como no século passado com o Canal de Suez. A realidade chegará em um ano, fazendo jus ao nome de o o gasoduto da discórdia, o que é particularmente preocupante com parceiros europeus como Ucrânia e Polónia, cujo os seria interesses seriam feridos pelo fortalecimento da infra-estrutura russo. Mas o projeto também possui restrições em Bruxelas, ao ser contraditório com as políticas de contenção russos da UE, que há anos promove iniciativas para reduzir a sua dependência energética da Rússia. Atualmente, até 35% do gás natural utilizado na Europa provém do subsolo russo, uma situação que Moscou deseja elevar rapidamente nos próximos anos devido à escassez de fornecedores para os europeus.

Outro oposicionista a criação do ‘Nord Stream 2’ são os EUA , segundo relatos pela “razão” que acentuará essa dependência. Para Donald Trump, fervoroso adversário do projeto, fará a Alemanha “prisioneira da Rússia”. Vários especialistas dizem que o Kremlin vê este gasoduto um mecanismo para reforçar a sua influência e prejudicar a Ucrânia, que ainda lidera o trânsito de gás russo para a Europa e com quem Moscou mantém uma guerra de baixa intensidade. já que em 2014 anexou a península da Criméia. Os 3 bilhões de euros obtidos através de taxas de trânsito são necessários para o governo ucraniano manter a gestão do país que realiza eleições em 31 de março.

Neste jogo, Kiev e Washington jogam no mesmo time contra os alemães e russos, e garantiram que trabalharão para “neutralizar” o projeto geopolítico de Vladimir Putin. “Não podemos garantir a defesa do Ocidente se nossos aliados se tornarem dependentes do Oriente”, disse o vice-presidente Mike Pence neste fim de semana em Munique.

A oposição americana ao ‘Nord Stream 2’ também se deve às suas aspirações de competir no mercado global de energia. Durante anos, a Casa Branca tem promovido a extração de gás natural através de fracking e comercialização na forma líquida, um mercado que é o poder de mais rápido crescimento e em que a Rússia é o sétimo exportador. “O gás liquefeito americano é bem-vindo na Europa, mas tem que enfrentar a concorrência como os outros”, dizia uma carta aberta assinada por deputados alemães de vários partidos. Contra esse pano de fundo, Washington ameaçou as empresas envolvidas com sanções econômicas, uma prática repetida na administração Donald Trump.

Mesmo sendo aliado na União Europeia , a França demonstrou surpresa e apreensão.
A questão está na ambição comercial da Alemanha que gera críticas do parceiro. O projeto gerido a partir de fora da Europa permite uma maior independência da Alemanha e neste sentido a França demanda um maior controle pela UE e uma participação maior de suas empresas.

Superando anos com discursos evasivos sobre a iniciativa , Merkel reconheceu que o gasoduto é um projeto geopolítico subvalorizando a capacidade dos efeitos em relação a Ucrânia. Comandada pelo ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, o “Nord Stream 2” seguirá seu curso.Um variável determinante nesta seara é o grau de intensidade dos EUA em fazer oposição. Caso os americanos passem para uma prática de retaliações como as sanções, pode produzir como inevitável uma aliança ainda mais próxima entre Paris e Berlim, neste caso mais significativo do que os discursos políticos podem esconder.

Tulio Ribeiro

Túlio Ribeiro é graduado em Ciências econômicas pela UFBA,pós graduado em História Contemporânea pela IUPERJ,Mestre em História Social pela USS-RJ e doutorando em ¨Ciências para Desarrollo Estrategico¨ pela UBV de Caracas -Venezuela

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6 comentários

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Paulo

20 de fevereiro de 2019 às 18h34

É estranho mesmo, a despeito dos interesses e justificativas suspeitas dos americanos, ver a Alemanha abraçar um projeto que cria dependência estratégica brutal…não adianta querer atrair a Rússia para a esfera do euro porque os russos têm uma visão autoritária da política e não se ajustariam aos pressupostos exigidos pelas democracias ocidentais.

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    Alan Cepile

    21 de fevereiro de 2019 às 10h00

    No seu texto, pega a frase:

    “não adianta querer atrair a Rússia para a esfera do euro porque os russos têm uma visão autoritária da política e não se ajustariam aos pressupostos exigidos pelas democracias ocidentais”, e faça o seguinte:

    Tira a palavra “Rússia” e coloca “EUA”.
    Tira a palavra “russos” e coloca “americanos”.
    Tira “ocidentais” e coloca “que não seja a americana”.

    O resultado é exatamente o mesmo.

    Responder

Fernado

20 de fevereiro de 2019 às 10h59

Acelera Putin !

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Carlos

20 de fevereiro de 2019 às 10h58

Um xadrez político comandado por bilhões de dólares .

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Marcos Videira

20 de fevereiro de 2019 às 09h11

“Não podemos garantir a defesa do Ocidente se nossos aliados se tornarem dependentes do Oriente, disse o vice-presidente Mike Pence.”
A Europa e as Américas são constituídas por coitadinhos, indefesos. Se não fosse os EUA…
Trump é o maior sintoma da decadência do império dos EUA.

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Aline

20 de fevereiro de 2019 às 03h10

Energia é a base das potências,por isto Hitler foi a Rússia e o Japão bombardeou Pearl Harbor .
Raciocínio perfeito Sr cafezinho

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