História: Brizola na Unicamp em 1987

A Morte Banalizada

Por Redação

11 de maio de 2019 : 23h15

Por Marcio Tenenbaum

Advogado e membro da ABJD-RJ

Com a expressão “a banalidade do mal”, Hannah Arendt estabelece uma nova visão sobre o tema. O mal não é retratado como algo maligno, visível a olho nu, nascido, crescido e voltado para um fim determinado ou contra um objeto determinado. O mal pode tomar uma pessoa como a que está ao seu lado, sem nenhum sinal exterior aparente.

Arendt interpreta o mal a partir do julgamento de Eichmann em Jerusalém, depois de ter sido sequestrado pelo Mossad, serviço secreto israelense, quando vivia tranquilamente em um subúrbio de Buenos Aires.

Durante o julgamento de Eichmann, Arendt percebe que ele não é nada senão um burocrata como qualquer outro, que, na realidade, ao organizar o transporte dos trens que levavam os judeus aos fornos crematórios, fazia apenas um trabalho burocrático no intuito de satisfazer seus superiores, com o singelo objetivo de subir na carreira militar.

O que Hannah Arendt investiga ainda é como uma sociedade permite que se desenvolva um mal de tal magnitude sem que haja qualquer vislumbre de humanidade em seu ator, na total ausência da percepção de que os transportados nos trens de gado eram seres humanos.

Como pode haver um ausência absoluta de humanidade? Por que Eichmann tapou seus ouvidos para os avisos do crime que estava perpetrando, sejam avisos externos ou avisos vindos da sua própria consciência?

Hannah Arendt percebe que na sociedade alemã nazista Eichmann não precisava tapar seus ouvidos para não escutar avisos do crime que estava perpetrando, porque não havia quem pudesse dar esses avisos, simplesmente porque na sociedade nazista alemã a instância “moral” estava comprometida com a ideologia nazista.

Na sociedade alemã nazista o mandamento “Não Matarás”, que existe em qualquer sociedade que tenha caminhado para a construção do processo civilizatório que culminou no Estado de Direito moderno, foi transformado em “você pode e deve matar”.

Nas últimas semanas vimos o governador do Rio de Janeiro em um helicóptero atirando em comunidades sob o pretexto de combater a criminalidade; vimos o presidente da república estendendo o direito de portar armas a diversos setores da sociedade sob o pretexto de autodefesa.

Desde o impeachment de Dilma Rousseff e, recentemente, na campanha eleitoral para presidente, o candidato vitorioso anuncia sua intenção de matar setores da esquerda e declama louvores a antigos torturadores e assassinos, agora transformados em heróis na luta contra um comunismo que só ele enxerga.

O mandamento “não matarás” também em nosso país, nos dias atuais, passou a ser “podem matar” e “podem destruir o patrimônio nacional”. Evidente que, à semelhança da Alemanha nazista, a liberação e a apologia de assassinatos contra os indesejáveis também acabarão em algum tipo de tragédia. Como lá na Alemanha nazista aqui também não há nenhuma voz moral no interior das elites que diga: não se pode matar seres humanos.

E finalmente, à semelhança da Alemanha nazista, os autores dos crimes perpetrados, seja contra cidadãos, seja contra o patrimônio nacional, não sairão impunes, porque o recado de Hannah Arendt é que o mal, apesar de parecer banal, jamais poderá assumir uma dimensão de normalidade ou ser tolerado por qualquer sociedade que se pretenda civilizada.

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12 comentários

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Jorge

13 de maio de 2019 às 08h34

Sim esta parecendo Russia nas decadas de 30 e 40 quando Stalin e seus comparsas mandaram matar todos os seus opositores e trabalhadores que nao concordaram com eles. Inacreditavel que nazismo e socialismo ainda tenham espaco nos dias de hoje.

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Paulo

12 de maio de 2019 às 21h00

Parece que o Bolsonaro vai indicar o Moro para o STF, em novembro de 2010, com a compulsória do Celso de Mello. Bom, mas insuficiente para controlar a 2ª Turma e garantir o império da lei, ali dentro (é só a troca de um homem de bem por outro). O GM deveria ser convidado a sair…pra não falarmos de Toffóli, Lewandowsky, que tanto esforço fazem para assegurar a impunidade, nesta quadra triste de nosso país…

Responder

    Paulo

    12 de maio de 2019 às 21h01

    Ops, novembro de 2020!

    Responder

lucio

12 de maio de 2019 às 20h24

o governador do rio (que já tem um sobrenome nazista) é pior que o eichmann. nao é um burocrata, ele gosta mesmo de sangue.

Responder

Antoni Souto Coutinho

12 de maio de 2019 às 12h31

Caro Renato, lamentavelmente, você está incluído entre os que não vêem. Para o bem da verdade e da nação, procure ser imparcial; analisar dados estatísticos confiáveis e comparar.

Responder

LUPE

12 de maio de 2019 às 01h26

Caros leitores

Miliciano quadrúpede, imbecil
+ mais outro quadrúpede miliciano imbecil

é o jogo que nossos nossos inimigos mais querem,
para destruir o Brasil,
em proveito próprio.

Escolas……………….nada……………

Nossos inimigos superpoderosos
desejam um Brasil destruído,
povo massacrado, ignorante,
desesperado.

Para poderem prosseguir
com tranquilidade
com seus saques,
pilhagens,
roubos

ESCABROSOS.

Que a Grande Mídia ,
que trabalha para eles esconde,
não noticia,
não informa,
não faz Lava Jato.

Sacou????

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Luciano Rollo Duarte

12 de maio de 2019 às 00h12

Excelente avaliação do momento armamentista e de morticínio estatal, levado adiante por governador e presidente absolutamente inconsequentes!
Parabéns ao autor!

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Renato sampaio

12 de maio de 2019 às 00h08

Caríssimo senhor , espero que sejam abatidos todos aqueles que estejam com armas em punho ou pendurado em seus ombros , passou muito tempo sem nenhuma ação repressiva com a conivência tanto de políticos,advogados porta de cadeia E outros mais. Infelizmente a razão de ser disso tudo é a falta de política voltada para a educação,coisa que PT e demais esquerdistas em 16 anos deixaram de lado.

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    Carlos Marighella

    12 de maio de 2019 às 08h27

    Foi com fake news assim que nossa população foi enganada a votar num coitado como o bozo.

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      Antoni Souto Coutinho

      12 de maio de 2019 às 12h32

      Caro Renato, lamentavelmente, você está incluído entre os que não vêem. Para o bem da verdade e da nação, procure ser imparcial; analisar dados estatísticos confiáveis e comparar.

      Responder

    lucio

    12 de maio de 2019 às 14h21

    renato ignorantissimo,
    analize um por um os orçamentos publicos dos ultimos 20 anos: com o PT o investimento em educaçao dobrou. com temer e bozoneuro voltaram atras.
    é vs que deveria ser abatido que gente idiota que nem vc só danifica a sociedade.

    Responder

      Henrique

      13 de maio de 2019 às 01h41

      Não só o orçamento da educação; o orçamento da corrupção quintuplicou. O orçamento da educação , mas a educação brasileira continuou um merda . Lembremo-nos que Dilma , aquela da Pátria Educadora, já tinha iniciado os cortes no Fies, no Ciência sem fronteiras e nas próprias universidades federais.

      Responder

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