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Crédito: Marcelo Brandt/ G1

A pesquisa “retroativa” do Datafolha

Por Miguel do Rosário

02 de setembro de 2019 : 14h07

A notícia, naturalmente, é boa para a oposição. Mas deixemos os fogos de artifício para os ingênuos.

Em primeiro lugar, lembremos que pesquisa é pesquisa, e urna é urna. E as pesquisas mais recentes, no Brasil (nos EUA também), tem tido imensa dificuldade de captar a onda conservadora.

Se pretendemos, algum dia, oferecer uma análise cética diante de cenários negativos para o campo progressista, teremos que dedicar o mesmo ceticismo quando as pesquisas forem “boas”. Gramsci preconizava otimismo na ação, mas pessimismo na análise teórica. O que significa: quando o cenário parecer muito róseo, desconfie; mas quando houver sinais de tempestade, acredite.

Dito isso, analisemos com sangue frio os números divulgados pelo instituto.

O Datafolha afirma que se as eleições fossem hoje, Haddad venceria por 42% a 36%, ou seja, com 6 pontos de vantagem. Haveria ainda 18% de votos em branco e  4% de indecisos.

Esses são votos totais. Se computarmos apenas os votos válidos, Haddad teria hoje – segundo o Datafolha – 54% dos votos válidos, contra 46% de Bolsonaro.

Em números de eleitores, isso significaria que Bolsonaro, ao invés de registrar os 57,8 milhões de votos que recebeu em outubro de 2018, teria hoje 48 milhões de votos, quase 10 milhões de votos a menos.

Haddad, por sua vez, que recebeu 47 milhões de votos, teria hoje 56,7 milhões de votos, quase 10 milhões de votos a mais.

Entretanto, é no corte de classes que a gente vê a relativa convergência entre o resultado das urnas e a intenção de votos.

Entre os empresários, Bolsonaro venceria por 61% contra 26% de Haddad.

Bolsonaro venceria em todas as faixas de renda, com exceção daqueles que ganham até dois salários mínimos, entre os quais Haddad ganharia de 49% a 28%. O presidente tem sua principal vantagem entre os que ganham de cinco a dez salários mínimos, onde venceria por 53% contra 27%.

Essa vantagem na classe média (não confundir com “elite”) faz toda a diferença no processo político-eleitoral, porque ela tem poder de criar ondas de opinião extremamente eficientes em prazos curtos.

Ondas de opinião são, frequentemente, o que esquerda e direita tem chamado de “fake news’, mas que não passam da velha e tradicional guerra de narrativas, que existe desde tempos imemoriais, e que consiste em falar mal do inimigo e bem dos amigos.

Bolsonaro voltaria a ganhar, segundo o Datafolha, em todas as regiões do país, com exceção do Nordeste, onde o Haddad ganharia por 57% a 23%. No Sul, Bolsonaro ganharia por 43% a 32%.

É particularmente positivo para Haddad que, nessa pesquisa, ele ganharia também entre os eleitores com ensino médio, de 42% a 37%, e empataria tecnicamente entre os com ensino superior a 38% a 40% Bolsonaro.

Entre os desempregados que buscam emprego, 52% votariam em Haddad, o que também mostra uma dinâmica importante sobre para onde irão os votos dos eleitores afetados pela crise.

O fator raça também merece ser considerado. Haddad ganharia de 53% a 26% entre pretos, de 43% X 36% entre pardos, mas perderia de 36% a 43% entre brancos. Os números mostram que a questão identitária, se encaminhada com estratégia e inteligência, pode beneficiar muito a oposição.

Entre mulheres, Haddad ganharia de Bolsonaro por 44% a 32%. Como são maioria da população, e compõem hoje os segmentos mais instruídos da população, o voto feminino também fará uma diferença fundamental em 2022.

Entre os evangélicos, 47% votariam em Bolsonaro e 32% em Haddad. O petista tem maioria entre os católicos, 46% a 33%.

A Folha informa que ouviu 2.878 pessoas entre 29 e 30 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o intervalo de confiança é de 95%.

Vamos aguardar a publicação da íntegra da pesquisa, para continuarmos nossas avaliações, mas à guisa de conclusão prefiro, seguindo a lição do velho Gramsci, manter o ceticismo.

Os números mostram que a principal dinâmica continua a mesma, com Haddad sofrendo ainda forte rejeição na classe média, de maneira que acho mais provável que o resultado, se fosse hoje, não seria tão diferente do apresentado nas urnas.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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