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Pneumologista da Fiocruz: não há alternativa ao isolamento radical

Por Redação

27 de março de 2020 : 14h44

Essa entrevista com a pneumologista da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, ao jornal O Globo, precisa ser lida com atenção por todos.

Ela alerta que “estão ocorrendo mortes por coronavírus sem diagnóstico na rede pública”, e que os danos aos pulmões, provocados pela doença, ainda não foram devidamente avaliados.

A cientista também corrige a informação errada do presidente: ” o vírus é muito mais transmissível e letal do que a gripe comum. E é imprevisível”.

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No Globo

‘Estão ocorrendo mortes por coronavírus sem diagnóstico na rede pública’, diz pneumologista da Fiocruz
Margareth Dalcolmo defende o isolamento radical para que a Covid-19 não custe ainda mais caro

Por Ana Lucia Azevedo
27/03/2020 – 04:30 / Atualizado em 27/03/2020 – 09:53

A pneumologista da Fiocruz Margareth Dalcolmo lembra que a Covid-19 e suas sequelas ainda são em grande parte desconhecida spela comunidade científica Foto: Mauricio Bazilio / Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro

RIO — Como todos os médicos e cientistas, Margareth Dalcolmo, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fiocruz, uma das pneumologistas mais experientes do país, se preocupa muito com o risco de o Brasil não fazer o isolamento social necessário e a Covid-19 explodir descontroladamente nas comunidades onde as pessoas vivem aglomeradas e sem saneamento.

Ela teme porque vê, a cada dia, a doença mostrar um pedaço mais feio de sua face. As sequelas dos sobreviventes podem ser incuráveis. E no Brasil a Covid-19, até o momento, tem atacado adultos com menos de 50 anos com a ferocidade com que afeta os idosos na Itália.

O conhecimento muda a cada dia. Em que pé estamos?
Sabemos que esse vírus é muito mais transmissível e letal do que a gripe comum. E é imprevisível. Que fique claro, ele não causa uma pneumonia clássica, do tipo que os médicos estão acostumados a ver.

Como ela é?
A pneumonia da Covid-19 é muito diferente da comum. Ela se caracteriza por ser intersticial e que evolui com fibrose pulmonar, muitas vezes precoce. As tomografias dos pulmões mostram marcas que se parecem com fibroses antigas. Nunca vimos isso antes. E isso é só parte do problema.

E o que mais?
O processo inflamatório é muito grande. A Covid-19 causa uma imensa inflamação. Ela começa pelos pulmões, mas depois se espalha pelo corpo, pega outros órgãos.

Como é a evolução dos casos graves?
A maioria começa como uma gripe comum e evolui rapidamente para insuficiência respiratória aguda decorrente de uma pneumonia. Mas a inflamação é tão grande que leva à sépsis, ou inflamação generalizada. Todo o corpo começa a sofrer e a falhar. Na terceira fase vemos o paciente sofrer de síndrome de angústia respiratória (Sara). Muitos não voltam dessa fase.

Qual a extensão dos danos nos sobreviventes?
Não sabemos. Como é uma doença nova, não há estudos com um grande número de pacientes, que mostrem as sequelas mais frequentes, os danos que elas causam. Não sabemos qual o grau de sequela que os sobreviventes podem ter. E se as sequelas que vemos agora serão permanentes ou superadas. Não sabemos como ficarão os pulmões desses pacientes. Se as cicatrizes causadas pela Covid-19 ficarão e que tipo de perda de função poderão provocar. O mundo ainda não conhece a face dessa doença, só um pedaço dela.

E quando conheceremos?
À medida que o tempo avançar e possamos saber o que aconteceu com os sobreviventes. Como os pulmões deles reagiram, por quanto tempo sentirão problemas e se algum dia se livrarão deles.

A disponibilidade de respiradores é essencial agora. Por que não foi com pandemias como as de gripe?
O tempo que os pacientes graves precisam de ventilação é chocante e um dos fatores que ameaça de colapso o sistema de saúde. Mesmo na gripe H1N1, que causou pandemia em 2009 e ainda mata muita gente no Brasil e no mundo, ele não é tão grande. Na H1N1 é de, em média, sete dias. Na Covid-19, de 20 dias, às vezes mais.

Qual a dimensão disso?
É verdade que 80% dos casos são leves e não precisam de hospitalização. Mas metade dos 20% restantes vai precisar de ventilação, de respiradores. Se há mil infectados, isso é absorvido pela rede de saúde. Mas se há 50 mil infectados, haverá 5.000 pessoas precisando simultaneamente de respiradores. Esse é o horror dessa doença que se espalha depressa e deixa muita gente doente ao mesmo tempo.

É isso que tem levado os médicos na Itália a escolher que pacientes salvar?
Sim. Os mais velhos têm sido preteridos porque suas chances são, em tese, menores. Mas essa é uma decisão horrorosa. Imagine ter que fazer isso várias vezes por dia, o tempo todo. Temos pavor aqui no Brasil de começar a ter que fazer a mesma coisa em breve. A Fiocruz, por exemplo, está se preparando para poder oferecer 400 leitos. Mas em quanto tempo eles serão ocupados?

Qual o risco Brasil para a Covid-19?
O Brasil tem seus próprios riscos, que nos deixam muito vulneráveis. Podemos não ter tantos idosos quanto a Itália, mas temos imensa parcela de nossa população vivendo em condições precárias em comunidades. São pessoas que correm alto risco tanto para si próprias quanto para perpetuar a disseminação da doença.

O quão vulneráveis são?
Um exemplo é o caso da tuberculose, uma doença que é fator de agravamento da Covid-19. O Brasil tem uma taxa elevada, cerca de 30 casos por 100 mil habitantes. Em cidades como o Rio de Janeiro, ela já é muito alta, de 70 a 75 casos por 100 mil. Mas na Cidade de Deus, onde houve um caso, na Rocinha e em Manguinhos, por exemplo, ela explode para 280 a 300 por 100 mil. E nos presídios chega a absurdos 2.500 casos por 100 mil. Cerca de 80% dos casos de tuberculose são pulmonares. Quando a Covid-19 encontrar a tuberculose teremos uma mortalidade absurda.

Isso pode mudar o perfil da doença no Brasil?
Sim. Aqui poderemos “rejuvenescer” a Covid-19. A minha preocupação é que a média de idade aqui seja muito mais jovem do que na Itália, justamente por nossas condições socioeconômicas. Mas não só por isso, mas também pelo que temos visto nos hospitais.

E o que tem sido observado?
A média de idade dos pacientes em estado grave no Brasil está, por ora, entre 47 anos e 50 anos. São pessoas de classe média e alta, internadas na rede particular. E aqui ainda nem sabemos bem o que está acontecendo porque existe uma lacuna entre os números oficiais e o que acontece nos hospitais. Não temo em dizer que estão ocorrendo mortes por Covid-19 sem diagnóstico na rede pública.

Por quê?
Porque sépsis e doenças pulmonares são muito comuns e não há testes para toda a rede.

O que podemos fazer hoje?
Defender o isolamento social radical. Não há alternativa. Isso tem um alto custo econômico, terrível mesmo. Mas a doença custará ainda mais caro. O Brasil tem milhões de trabalhadores informais. O governo tem que ajudá-los, mas a iniciativa privada também deveria colaborar com essa parte. Não haverá vacina para salvar as pessoas nessa pandemia. A vacina será para daqui a cerca de dois anos. Mas as pessoas estão morrendo agora.

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6 comentários

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dcruz

28 de março de 2020 às 13h33

Esse louco bozo tem que ser contido a todo custo, a justiça já barrou uma propaganda feita com o nosso dinheiro que incitava as pessoas a voltarem ao trabalho. Depois de dizer a abissal sandice que o brasileiro estava acostumado a esgoto e por isso era imune a várias doenças não pode se esperar mais nada desses celerado. Se os seus seguidores fanáticos culpados desses fantoche do Trump e de militares estar no poder fossem os únicos que sofressem, tudo bem, eles que se explodissem, mas o problema que o contágio da doença é tão rápido e traiçoeiro que se alastraria rapidamente para um número incalculável de vítimas, quer dizer, o coronavírus não faz a diferença entre os idiotas que idolatram o bozo e os normais, típico caso de justos pagando pelos pecadores.

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Helena

27 de março de 2020 às 20h53

Se mortes estão ocorrendo causadas por Coronavírus sem diagnóstico na rede pública, então a quantidade que está sendo anunciada na imprensa de que estamos com quase 100 mortes está errada. A quantidade de mortes deve ser muito maior do que estão anunciando. Essa dupla Bozzo-Mandeta é perversa mesmo. Está tentando enganar o país inteiro com essa conversa de que não é necessário o isolamento social baseado em dados errados. Essa senhora tem que ser levada em alguma audiência no Congresso para fazer todos esses esclarecimentos e não permitir que Bozzo continue tentando enganar todo mundo. Mas o que esperar de alguém que só ganhou a presidência disseminando fake news…..

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Paulo

27 de março de 2020 às 19h27

Por enquanto, não…

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augusto

27 de março de 2020 às 15h42

Dra. aprendi varias coisas com esta sua entrevista. Muito obrigado.
Porem, adicionalmente, estou vendo que a MIDIA e os profissionais por ela entrevistados nada falam ou nao dão e.n.f.a.s.e alguma sobre o numero e a ridiculla abrangencia dos testes no Brasil, começando por Sao Paulo.
Em portugues claro, teriam que dizer assim: so temos 3000 casos porque temos quatro mil testes por semana (ou quinzena) e nada mais.
Se tivessemos ativamente 40 mil testes na populaçao, mesmo por amostragens maiores,, teriamos uns 15.000 infectados garantidos.
Em outras palavras o conjunto da informaçao é manipulado.

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chichano goncalvez

27 de março de 2020 às 15h20

Como certos governantes , ou melhor desgovernantes, tipo Trampozo e o Psicopata Bolso, mentem sem nenhum pudor, veja o Trampozo, anunciou uma vacina, que não vai dar em nada, pelo menos por enquanto, agora esta pedindo para as pessoas ficarem em casa, depois do colapso da saude, no pais que gasta bilhões em armas ao ano para matar, inclusive crianças. Este aqui não sabe nada de nada, é o unico completo idiota e maldoso do mundo, um verdadeiro psicopata. As pessoas que estão pedindo para que todos vão trabalhar, porque eles não vão e dão o exemplo ? Porque ? No deles doi, nos dos outros faz cocegas, é isso ?

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Alan C

27 de março de 2020 às 14h49

Esfregar essa entrevista na cara desse bozo dos infernos.

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