Live do Cafezinho: balanço dos partidos de esquerda

O deputado Marcelo Freixo (PSOL) Imagem: Ricardo Borges/UOL

Freixo explica porque desistiu da candidatura

Por Redação

16 de maio de 2020 : 19h30

Entrevista de Freixo ao Globo, onde ele explica porque desistiu de sua candidatura à prefeitura do Rio.

***

Por que o senhor está desistindo de ser candidato à prefeitura?

Não é uma notícia que dou com alegria. É uma decisão em formato de gesto, mais do que de palavras. É doído, mas é preciso que a gente sacuda um pouco esse processo para tentar a construção de um projeto no Brasil. Estou fazendo isso em nome de algo que é maior do que qualquer coisa. Considero o governo Bolsonaro uma ameaça à democracia. E por que tanta gente competente está assistindo a um incompetente no poder? Algum erro todos nós cometemos e estou me incluindo. Estou tendo um gesto de chamar para a unidade. No Rio, coloquei minha candidatura, que era supostamente natural. Tive muito apoio de imediato do PT, de quem não tenho uma vírgula para falar. No Rio, não houve nenhuma crise de hegemonismo do PT do qual ele é acusado em outros lugares. Também estava tendo diálogo com o PCdo B. Mas o PDT não aceitou essa composição, mesmo com muito diálogo com o (Carlos) Lupi. Mas, ele entende que o PDT tem que lançar candidato porque tem projeto para 2022. O PSB sequer quis fazer reunião, mesmo eu tendo solicitado inúmeras vezes.

Há alguma chance de voltar atrás na decisão?

Não. Não faz sentido. Repetiríamos uma situação como em 2016 e não vejo cabimento, diante de uma ameaça fascista e de um governo autoritário como o do Bolsonaro, nós nos comportarmos como sempre nos comportamos: divididos e fragilizados. Se é para isso, eu, antes de pedir para alguém tomar esse gesto, tomo uma atitude.

O medo de sair da eleição menor do que entrou pesa na decisão?

Não. Quando disputei 2012, quem acreditava que eu chegaria a 28%? Fui para 2016 no pior momento para ser candidato pela esquerda, que era o momento do golpe. É importante que eu tome essa decisão agora, em que as pesquisas apontam chance de irmos para o segundo turno. Mas, ir para o segundo turno com a esquerda dividida? Para quê? Vamos tentar ganhar o Rio, mas vamos perder o Brasil e a democracia, com o campo democrático se enfrentando e se engolindo, correndo o risco de não ter eleição em 2022.

Por que a dificuldade de união da esquerda?

O Bolsonaro é tosco, violento e autoritário. Para derrotar o bolsonarismo é preciso mais que responder as crises que ele provoca. Tem que ir além. Temos que vencê-lo com um projeto que seja melhor que o dele. Qual é o nosso projeto? E aí acho que o desafio que está colocado é construir uma proposta calcada no combate à desigualdade e na garantia de direitos. Temos que retomar a Constituição de 1988. Precisamos de um projeto que não seja meu, do (Fernando) Haddad, do Ciro (Gomes), de quem for. Estou pedindo uma unidade tanto no Rio quanto em outros lugres. Vou dar um exemplo: acho importante apoiar a Manuela D’Ávila em Porto Alegre. É uma candidata compatível com o que estamos debatendo e não tem unidade lá também. Em Pernambuco, a gente teve uma situação delicadíssima e não podemos correr o risco de perder nenhuma capital do Nordeste.

Acha que tem partidos da esquerda que não veem essa ameaça que o senhor fala?

Acho que até vê, mas entre ver e fazer uma coisa que seja mais coletiva vai uma distância. Dou o exemplo do impeachment. Quantos projetos de impeachment tem na casa? Mais de 20. Por que não conseguimos construir um projeto de impeachment coletivo, sociedade civil e partidos? Porque ficou um correndo na frente do outro para ver quem dá mais entrevista. Fica um querendo dizer que é mais contra Bolsonaro que o outro.

Tem uma disputa de ego na esquerda então?

É mais do que de ego, é uma disputa de espaço ali, só que não vai ter vitorioso de pedaço. A gente precisa ter maturidade. Muitas vezes conseguimos no Congresso. Mas a maturidade precisa sair dessas relações congressuais para as relações estratégicas de disputas eleitorais nas cidades. Não pode as pessoas se matarem nessas disputas. É muito ruim. Tenho muito respeito pelas diferenças. As diferenças que existem entre o PT e o PDT, eu respeito. Mas, não é possível que o tamanho dessas diferenças sejam maiores do que a ameaça do fascismo.

O senhor citaria algum exemplo específico dessa diferença?

Existe um conflito entre o PT e o PDT. Esse conflito tem uma razão de ser e um histórico. Mas, seja qual for esse conflito, ele não é maior do que a ameaça que o bolsonarismo coloca sobre todos nós.

A origem desse confronto entre PT e PDT não foi a insistência na candidatura do Lula em 2018?

No entendimento do PDT, sim. No do PT, não.

E no entendimento do senhor?

Todos deveriam estar juntos no projeto para derrotar o Bolsonaro. Não tem cabimento nesse momento ataque entre nós. Não tem nenhum sentido, diante do risco à democracia, um conflito nesse ponto.

O Lula ajuda ou atrapalha nessa unidade?

O Lula, quando ganha a liberdade, sai numa ofensiva de rua. Vem a pandemia e ele perde muito espaço. Nas redes sociais, Lula não é o mesmo que num palanque. Ele tem uma capacidade de dialogar com o povo pobre desse país que talvez só o Bolsonaro tenha neste momento. Não acho que o Lula seja uma força que atrapalha essa unidade. Ele pode ajudar muito. Se ele tiver o mesmo entendimento da necessidade de unidade, acho que ajuda muito. Com todas as criticas que se possa ter ao PT, aos erros e acertos, não vamos construir um campo capaz de derrotar o bolsonarismo sem eles.

O senhor admite aliança do PSOL com partidos de centro ou outras siglas?

Aliança eleitoral, não vejo essa possibilidade. Mas, não estou falando só de aliança eleitoral. Dou um exemplo. Éramos minoria no debate sobre o pacote anticrime. No Congresso, fizemos um trabalho de aliança com partidos de centro-direita. Tivemos uma grande articulação democrática e derrotamos propostas como o plea bargain, o excludente de ilicitude e pontos centrais que piorariam a segurança pública. Esse é um tipo de aliança com outros partidos que pode acontecer, sim.

O senhor poderia apoiar Eduardo Paes no Rio contra um candidato do Bolsonaro?

Num segundo turno contra o Crivella, sim. Já fiz isso contra o Witzel. Tenho grandeza democrática. Agora, dependendo do que o Eduardo Paes faça na campanha, porque ele também adora namorar o fascismo. Ele já fez muita coisa errada na vida e sabe disso mais do que eu, inclusive. Mas vou defender quem represente a vitória contra o bolsonarismo.

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14 comentários

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Clovis Miranda Garcia

19 de maio de 2020 às 22h54

Muito respeito à sua decisão oxalà bata na consciência de outros o mesmo comportamento em nome de uma estratégia política capaz de derrubar esta direita facista canibalista do des governo Bolsonaro. Parabéns , não abra mão de sua luta para uma estratégia capaz de enfrentar e vencer este mal que consome nosso país.

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Robson

18 de maio de 2020 às 16h31

Ciro vomita, Miguel passa o pano.
Sem mais.

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Lucas

18 de maio de 2020 às 14h23

“chamar para a unidade” sob candidatura de quem, na prefeitura carioca? Foi só o Freixo ou foi o PSOL que desistiu de lançar candidato a prefeito?

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Fernando Gonçalves

18 de maio de 2020 às 13h08

O Lula mandou o Freixo caçar outros rumos, simples.

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F Barbosa

18 de maio de 2020 às 05h00

Como Frexo disse, com esses pensamentos egocêntricos, a esquerda não vola como antes.

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Alan C

17 de maio de 2020 às 23h59

As respostas do Freixo são assustadoramente ruins, respostas de quem iniciou na política anteontem e não tem conhecimento da cena atual. Decepcionante, pois até gosto dele, mas é mestre em fazer escolhas erradas.

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Paulo Dantas

17 de maio de 2020 às 19h34

Eu, como eleitor e puxador de votos para o Ciro, digo que ele não precisa se misturar com o PT.

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    Miramar

    17 de maio de 2020 às 20h22

    Penso a mesma coisa.

    Responder

Miramar

17 de maio de 2020 às 16h38

Tenho respeito pela figura do Marcelo Freixo, embora não tenha afinidade ideológica. Admiro sobretudo seu combate ao crime organizado. A parte mais divertida é ver que a turminha do PT não tem candidato em metade das capitais brasileiras. Quando têm é o … quem? A rigor a única candidatura relevante é a da Marilia Arraes – pessoa que eu não votaria, mas respeito. Como o Freixo. Tenho até dó dessa gente quando o São Lula da Silva bater as botas…não que eu deseje a morte de rigorosamente ninguém é claro…mas que será divertido ver o futuro de desagregação desse partido vai.
Faço votos para que a defensora dos direitos humanos (que ascendeu na polícia civil graças ao reconhecimento do secretário Nilo Batista) Delegada Marta Rocha – sobrevivente de um atentado perpetrado por milicianos- se firme como opção para o eleitor carioca. Quanto a policiofobia da esquerda verdadeira, acho que essa vai se decepcionar ao descobrir qual foi a opção da turminha do PT em Salvador. Ainda que seja uma pessoa séria. Apesar de ser petista.

Recentemente um deputado sujo reclamou do fato de sermos limpinhos e cheirosos. Ora, a água e o sabão limpa a todos, ricos e pobres. Mata até coronavirus. Só – como dizia uma marchinha – não lava a língua dessa gente.

Quanto a velha e mentirosa ideia de união “dazisquerda”, lamento, mas não estamos interessados. Queremos a união daqueles que seguem os valores antiquados burgueses de honestidade e decência pelo impeachment do autoritário e incompetente Bolsonaro. Topam, petistas? Não? Que bom! Então vão procurar a turminha de vocês é deixem os adultos em paz. Aliás, já assistiram a li e de ontem com o Ciro, a Marina, o Molon e outros craques? Assistam está muito boa. O Dino também está lá. Gente boa. O que ferra são as más amizades…

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Alexandre Neres

17 de maio de 2020 às 12h02

É com tristeza que vejo o rumo que a esquerda vai tomando diante do desgoverno. Jilmar Tatto candidato do PT em Sampa e Freixo retirando a candidatura do Rio são motivos de desânimo. Freixo tentou a união das esquerdas, mas parece que sobretudo a centro-esquerda e a terceira via, que segundo a blogueira Lola Aronovich fazem o jogo da centro-direita, querem distância da esquerda, querem se manter limpinhos e cheirosos para a grande mídia. Pegue-se o PSB , por exemplo, que não aceitou sequer conversar. O PSB é um arremedo de partido que se especializou em impeachment, para tanto serve até como valhacouto de figuras desprezíveis. Vamos continuar com a lógica de candidatos coronéis, majores e delegados. Chegando em terceiro lugar, se muito, ficam satisfeitos. Só quem está feliz é este blogue, que desde o começo divulgava intrigas contra a candidatura do Freixo, que é um grande quadro da esquerda, Para ler o comentário do cientista político Theófilo Rodrigues que sempre se manifestava sobre o assunto por aqui, tive que caçar em outro blogue e valeu a pena.

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Paulo Cesar Cabelo

17 de maio de 2020 às 05h12

Ah se Ciro tivesse a metade da grandeza e humildade do Freixo.

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ANGELO MARCIO SANTOS SILVA

16 de maio de 2020 às 23h01

Onde está tão falada aliança, que PDT PSB reclamam , veja , criticam PT por querer hegemonia , poder pelo poder, vejam do…no RJ apoiou freixo , nas palavras do mesmo , poa tbm a Manuela , enquanto isso PDT e PSB , não abrem mão de candidatura pensando em 2022 , projeto Ciro …..complicado ..sem aliança progressista , correr risco de nenhum ir ao segundo turno , de o Moro for candidato, essa questão. Se pt tiver candidato leva20%, Ciro 12, por aí,, risco será grande de ir Moro e Bozo 2 turno….pq pulveriza ….simples …enquanto Ciro agir com fígado contra pt nada evoloui , criticar ok, pt teve seus erros como fala freixo, mas longe de demonizar , agir ódio contra pt. Se Ciro não agisse assim, seria ele candidato natural com Dino vice , pt apoiando psol PSB talvez…..

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    Curioso

    17 de maio de 2020 às 17h12

    Meu caro PT não apoia ninguém. Se o Ciro tivesse apoiado o PT, se afundariam os dois e não teríamos opção em 2022.

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    Paulo Dantas

    17 de maio de 2020 às 19h40

    Comentário super mal escrito, em que quase não entendemos nada; e ao final ainda vem com aquele papo de que o Ciro tem que pedir a benção do Lula, para então este mesmo, indicar-lhe como candidado.

    O cinismo petista não tem limites.

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