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Uma análise das perspectivas de Marcio França para eleições em São Paulo

Por Miguel do Rosário

20 de agosto de 2020 : 15h29

Peço desculpas aos internautas por publicar apenas agora a análise desta pesquisa Badra, cujo levantamento foi realizado entre os dias 22 e 24 de julho.

Mas ela permanece plenamente atual, e, definitivamente, é um assunto que não interessa apenas aos paulistanos. 

O resultado das eleições na maior cidade do país interessa a todos os partidos e a toda a sociedade.

Todos os jogos da política nacional estão sendo jogados, hoje, em São Paulo, em especial a disputa entre as principais forças que disputam o imaginário político atual.

São basicamente quatro forças: o bolsonarismo, a centro-direita, o trabalhismo e o petismo.

O bolsonarismo ainda não indicou seu candidato em São Paulo. A deputada estadual Janaína Paschoal, do PSL, que seria o nome natural, declarou categoricamente, em entrevista recente ao jornalista José Luiz Datena, que não será candidata. 

A centro-direita está representada por Bruno Covas, do PSDB, atual prefeito.

O trabalhismo é encarnado, em São Paulo, pela candidatura de Marcio França, do PSB, aliado ao PDT, com apoio de movimentos que florescem no entorno de Ciro Gomes.

O petismo se articula em São Paulo ao redor de dois candidatos: Jilmar Tatto, do PT propriamente dito, representando o lado mais institucional e burocrático da legenda; e Guilherme Boulos, que parece ser o candidato de “coração” desse petismo mais social e ideológico, como se pode ver pela adesão de diversas personalidades ligadas a esquerda, como Chico Buarque, Emicida, Celso Amorim, à sua candidatura. 

A ausência de um candidato bolsonarista é um sinal das dificuldades políticas enfrentadas pelo presidente Jair Bolsonaro, que está sem partido.  Apesar da recuperação de sua popularidade, registrada nas últimas pesquisas, Bolsonaro continua perdendo o apoio da classe média, que foi fundamental para sua vitória. 

Parte dessa classe média frustrada com Bolsonaro poderá voltar a votar na centro-direita, beneficiando o PSDB, e alimentando os sonhos presidenciais de João Dória, governador do estado de São Paulo. 

Uma outra parte desse eleitorado poderá adensar os votos de Marcio França, que costura cuidadosamente a imagem de um “caminho do meio”, mandando sinais à direita e à esquerda. 

A acusação – vinda de concorrentes à esquerda – de que estes sinais, quando feitos à direita, seriam um “flerte” com o bolsonarismo, ou mesmo uma aproximação com Bolsonaro, é injusta, mas compreensível na esfera da disputa eleitoral. Os gestos de França visam conquistar pedaços do eleitorado de Bolsonaro, e não se aproximar do presidente.  

O mesmo França deverá receber ataques semelhantes – mas com sinais invertidos – vindos da direita, acusando-o de “comunismo”, “amigo de Lula”, e coisas semelhantes.

Vamos aos números da pesquisa antes de comentar a performance de Boulos e Tatto. A Badra também divulgou os dados completos, estratificados, o que nos permitiu elaborar algumas tabelas, em especial com os três cenários de segundo turno trazidos pela pesquisa: Covas versus França, Covas versus Tatto e Covas versus Boulos. 

No primeiro gráfico abaixo, para efeito de simplificação, subtraímos o percentual de intenção de votos em Covas, nos cenários de segundo turno, do percentual dos outros candidatos. 

Exemplo: no cenário 1, que traz um eventual segundo turno entre Covas e França, a vantagem de Covas seria de 3,7 pontos. No cenário 2, entre Covas e Tatto, a vantagem do atual prefeito seria de 27 pontos. E num cenário 3, entre Covas e Boulos, a vantagem do tucano seria de 25 pontos. 

Os números mostram que França é, por enquanto, o candidato com melhores condições de vencer Covas num eventual segundo turno.

Além do quase empate técnico nos números totais, França registrou melhor pontuação que Covas na Zona Norte, onde registraria 40% das intenções de voto no segundo turno, contra 37% de Covas; entre famílias com renda entre 2 e 5 mil reais, entre as quais França teria 42%, contra 39% de Covas; e entre eleitores paulistanos com ensino superior, entre os quais Covas pontuaria 41%, contra 33% de Covas. 

Os outros concorrentes à esquerda, como Boulos e Tatto, registram um desempenho bastante inferior ao de França, num eventual segundo turno com Bruno Covas. 

Os números deixam claro que, mesmo que consigam melhorar seu desempenho no primeiro turno, o principal desafio de Boulos e Tatto está no segundo turno, pois os números mostram que eles têm dificuldades para herdar os eleitores de outros candidatos.

 

 

A pesquisa espontânea mostra o seguinte: dos 2.400 entrevistados, 823 não marcaram ninguém, 256 marcaram Covas e 118 marcaram Marcio França.

Boulos foi escolhido por 45 pessoas, ao passo que Tatto, por 24.

A força do petismo, contudo, é expressa pela soma de 115 votos obtidos por Haddad e Lula. 

 

No gráfico abaixo, pode-se avaliar o peso de cada região e faixa etária no total do eleitorado. As duas regiões mais populosas de São Paulo são as Zonas Sul e Leste, que respondem por 67% do eleitorado da capital. As zonas Oeste-Centro e Norte, por sua vez, respondem por 33% dos eleitores paulistanos. 

A pesquisa estratificada traz os números de rejeição dos candidatos por Zona geográfica. Os percentuais de rejeição são relativamente baixos porque a pesquisa autorizou os entrevistados a escolherem apenas uma opção, o que diluiu a rejeição entre os candidatos.

O que chama atenção em alguns candidatos é um percentual de rejeição muito acima dos percentuais de intenção de voto, o que sinaliza um potencial de aumento da rejeição conforme o nome for mais conhecido ou a campanha se intensificar. 

Por exemplo, vamos analisar a Zona Leste, onde temos 35% do eleitorado paulistano, e onde a pesquisa entrevistou 836 pessoas. 

Dessas 836 pessoas, um total de 264 escolheram Bruno Covas na pesquisa estimulada para o primeiro turno, ou 32% do total dos entrevistados da região; na pesquisa de rejeição para a mesma Zona Leste, outras 207 escolheram Covas como o candidato no qual não votariam “de jeito nenhum”, ou 25% do total.

O segundo candidato mais rejeitado na Zona Sul foi o petista Jilmar Tatto, com 89 pessoas afirmando que não votariam nele “de jeito nenhum”, ou 11% do total de entrevistados da Zona Leste. O mesmo Tatto registrou 68 votos entre os entrevistados da pesquisa residentes na Zona Leste, ou 8% do total das intenções de voto no primeiro turno.

Boulos também apresentou um número maior de votos negativos do que positivos na Zona Leste: 55 votos positivos na estimulada (6,6% do total), contra 61 votos de rejeição (7,3%).

A baixa rejeição parece ser um dos principais trunfos de França: na Zona Leste, França registrou 138 votos positivos (16,5% do total no primeiro turno),  e 54 votos negativos (6,5% do total). 

Outro candidato que tem performance bastante deficitária é o Arthur do Val, o Mamãe Falei, que recebeu 53 votos de rejeição na Zona Leste, contra apenas 18 votos positivos. 

***

No segundo turno das eleições de 2018 para o governo de estado, Marcio França obteve 58% dos votos, ou 3,4 milhões de votos apenas no município de São Paulo, contra 42% de Dória.

No extremo-sul da cidade, na zona Parelheiros, tradicional reduto petista, França obteve 77% dos votos, contra 23% de Dória.

Clique aqui para ver a votação por zona eleitoral no município de São Paulo.

Também é interessante analisar o primeiro turno das eleições presidenciais em 2018, no município de São Paulo. 

Jair Bolsonaro venceu as eleições no primeiro turno, com 44,5% dos votos válidos, seguido de Haddad, com 19,7% e Ciro, com 15%. O então candidato Guilherme Boulos obteve apenas 1,21% dos votos válidos em São Paulo, atrás de Henrique Meirelles, Cabo Daciolo e Marina Silva. 

Haddad ganhou em algumas zonas, como em Parelheiros, onde obteve 36% dos votos, contra 34% de Bolsonaro e 13% Ciro. Ainda em Parelheiros, Boulos registrou 1,42% dos votos, igualmente atrás de Marina, Daciolo e Meirelles. 

Ciro Gomes, fiador da candidatura de Marcio França, obteve um desempenho razoável em algumas zonas eleitorais de São Paulo, em geral bairros de classe média, como Perdizes, onde recebeu 20,44% dos votos, contra 12% de Haddad.  Ciro ficou em segundo lugar (à frente de Haddad, mas atrás de Bolsonaro) em Pinheiros, Mooca, Jardim Paulista, Vila Marina, Butantã, Casa Verde e Lapa, bairros caracterizados pela proximidade com a USP e pela efervescente agitação cultural. 

Uma curiosidade: no tradicional bairro de Santana, Haddad ficou em quinto lugar no primeiro turno de 2018, com apenas 7,63% dos votos válidos, atrás de Bolsonaro (55%), Ciro (15%), Alckmin (9,7%) e Amoedo (8,24%); ainda em Santana, Boulos teve 0,78%, atrás de Álvaro Dias.

Haddad também ficaria em quinto lugar em Jardim Paulista, Indianópolis, Saúde e Santo Amaro (em todos esses, Ciro ficou em segundo lugar). 

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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O Demolidor

21 de agosto de 2020 às 10h11

Dessa vez o “Paraná(uê) Pesquisas”….foi ignorado pela “Redação”…..nela estranhamente coloca o Russomano em segundo lugar e a Marta em terceiro os dois atrás do Covas e nem cita candidato do PT…..do jeito que a quinta gosta…..foi melhor analisar a Badra né? Quando interessar de novo o “Paraná(uê) Pesquisas” volta a ser analisado….

Não ligo se o blog censurar de novo….

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