Live do Cafezinho: como trazer a classe média de volta para campo progressista?

Charge: Luff, publicada na primeira página do jornal alemão Stuttgarter Zeitung em 27 de março de 2020, dias após o pronunciamento em que Bolsonaro referiu-se à Covid-19 como "gripezinha". “Tudo isso é histeria e conspiração”, diz Bolsonaro na charge.

Como demonstrar que um genocida é um genocida?

Por Pedro Breier

20 de agosto de 2020 : 17h17

Semana passada, lendo a ótima coluna da Ana Prestes aqui no Cafezinho – Notas Internacionais -, me deparei com a notícia de que a Nova Zelândia estava considerando adiar as eleições marcadas para setembro por conta do ressurgimento de casos de Covid-19 no país. (As eleições neozelandesas foram mesmo adiadas, para outubro.) Tanto a situação quanto a oposição nacional concordaram com o adiamento.

Morreram 22 pessoas na Nova Zelândia por conta da pandemia. A última morte por lá ocorreu no dia 28 de maio. Após o surgimento de novos casos, depois de mais de 100 dias sem caso algum, foi decretado pela primeira-ministra do país o bloqueio de Auckland, cidade onde ressurgiram os casos de infectados, e foram impostas regras de distanciamento social e limites de aglutinação para todo o país.

Isso tudo com 22 mortos.

Enquanto isso, no Brasil, morreram mais de 111 mil brasileiros, oficialmente (considerando que nosso percentual de testagem é pífio, estima-se que as mortes não contabilizadas são em grande número). Temos uma população de aproximadamente 210 milhões de habitantes, enquanto a Nova Zelândia tem uma de 5 milhões. A população brasileira é 42 vezes maior que a neozelandesa. O número oficial de mortos é 5.045 vezes maior. Cinco mil e quarenta e cinco vezes mais mortos do que poderíamos ter se nossa resposta à pandemia fosse adequada, como vem sendo a da Nova Zelândia.

Assistimos, apalermados, ao espalhamento do vírus pelo globo terrestre. Tivemos todo o tempo do mundo para nos prepararmos. Temos um sistema público de saúde que poderia ter sido turbinado. Temos recursos financeiros para garantir uma quarentena rígida e digna para a população. Mas o governo Bolsonaro preferiu entregar mais de 1 trilhão de reais (!) para os bancos, pouco antes da crise sanitária explodir por aqui, a fazer o que o consenso científico recomendava.

A atrocidade do que aconteceu, está acontecendo e ainda vai acontecer por um tempo é melhor registrada e apreendida quando comparamos nosso desempenho com o de outros países. Nesse sentido, este artigo do médico neurologista, pesquisador e doutor em neurociências Marcelo Eduardo Bigal é precioso.

Com gráficos tão simples quanto chocantes, Marcelo demonstra que o tamanho da tragédia que nosso país vive é monstruoso. Por aqui não se vislumbra o achatamento da curva observado nos países que seguiram os protocolos científicos. O número de testes é ridículo. Temos 2,7% da população mundial, mas em vez de mais ou menos 2,7% dos casos e mortes em relação ao total do planeta, como se poderia esperar, temos 15,2% dos casos e 13,8% das mortes.

Um dos gráficos do artigo de Marcelo Bigal: em cinza e azul, respectivamente, estão o número de casos de Nova York e da Itália, dois locais pesadamente afetados pela pandemia, ao longo dos dias; em verde, o gráfico brasileiro.

É evidente que Jair Bolsonaro é o responsável por este desastre, na medida em que, além de não oferecer a essencial colaboração que se espera do líder de um país, fez o impensável: desdenhou da maior crise de saúde mundial dos últimos 100 anos e trabalhou contra o isolamento social.

Constata-se, hoje, que a tese do presidente venceu. (Ele tem a merda da caneta, afinal.) Caminhamos para a hipotética e imprevisível “imunização de rebanho”. Não há quarentena que resista indefinidamente, quanto mais sem auxílio do governo.

“Mas tem auxílio do governo sim!”, poderia gritar algum bolsonarista (ou mesmo uma pessoa sensata com problemas de regulação do volume da voz). É verdade. O auxílio emergencial de 600 reais (o governo federal queria que fosse de 200) que vem sendo distribuído a milhões de pessoas, para desespero do Paulo Guedes, é provavelmente o que impediu o caos social esperado em um cenário de morte, desemprego e quebradeira.

O auxílio vem tendo papel central também nas análises políticas: ele é apontado como o principal fator para a manutenção da popularidade de Bolsonaro e para um aparente deslocamento da sua base política, que estaria migrando para as camadas mais pobres da população. Bolsonaro está, inclusive, considerando a manutenção do auxílio, provavelmente com valor menor e transformado em um programa social próprio, para consolidar essa nova base de possíveis eleitores.

É um movimento inteligente do presidente, que já lidera as pesquisas para as próximas eleições presidenciais. O Brasil é um país com tanta pobreza e miséria que 600 reais “de presente” vindos do governo podem realmente dar-lhe um prestígio popular suficiente para que vença as eleições.

Sendo assim, se quisermos evitar essa tragédia, um bom flanco de ataque ao bolsonarismo é mesmo a questão da pandemia. Para tanto, me parece que precisamos fazer como fez o Marcelo: martelar nas comparações internacionais. Nossos números são grotescos em relação aos de países minimamente racionais. A diferença fala por si. Entretanto, precisa ser apresentada à população de forma simples, fácil, didática. E com insistência. Os gráficos comparativos devem, de preferência, estarem sempre acompanhados das abundantes declarações esdrúxulas de Bolsonaro sobre a pandemia.

Dou minha contribuição com uma de ontem, dia 19/08:

No meu entender, guardando-se as devidas proporções, não vi no mundo quem enfrentou melhor essa questão [da pandemia] do que o nosso governo. Isso nos orgulha. Mostra que tem gente capacitada e preocupada, em especial, com os mais pobres, os mais humildes.

Para além do escárnio digno de um psicopata, repare que o discurso parece confirmar a tese de mudança de base eleitoral do presidente, deixando de mirar a classe média/alta e buscando a classe baixa.

Bolsonaro é responsável por centenas de milhares de mortos em nosso país – e contando. Se mantivéssemos a proporção populacional em relação à Nova Zelândia, teríamos agora 924 mortos. Temos mais de 111 mil (apenas os oficiais, não esqueça). Essa diferença brutal entra na conta do presidente da República, o imbecil sádico que nos governa.

Bolsonaro é um genocida e isso precisa ficar transparente para o povo. Do contrário, corremos o risco de ver, em 2022, esta espécie de série de televisão terrivelmente distópica na qual estamos imersos renovada por mais inacreditáveis quatro temporadas.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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10 comentários

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Cirolipa o Mágico

21 de agosto de 2020 às 07h55

É um virus novo que nem quem deveria conhecer sabe bem como se comporta, como segurar e muito menos como curar…mas em vez de tentar entender o problema como qualquer pessoa normal faz os nossos iluminados esquerdistas tupiniquim já sabem tudo desse vírus dessa pandemia que envolve inúmeras variáveis que nem a ciência conhece bem até hoje.

E como é óbvio que seja, sabendo tudo de cor sobre o assunto acharam o único culpado por tudo…que acreditem ou não é o mesmo de sempre, o Presidente da República.

Isso é uma coisa seria…? Conseguem perceber o nivel do ridiculo ao qual chegam ? Eu acho que não.

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Serginho

20 de agosto de 2020 às 22h24

Um dia todos os números serão revisados, vários países já fizeram isso.

Morrer de coronavirus ou morrer com coronavirus são coisas bem diferentes e atualmente estão sendo todas contabilizadas com óbitos por coronavirus.

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Eleanor

20 de agosto de 2020 às 21h28

Nos governa?? Ele te governa, Pedro Breier?? A mim ngm governa. Eu governo o meu destino!

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    Salomão

    21 de agosto de 2020 às 07h42

    O sonho de todos os esquerdistas e se tornar escravos da Cuba ou China da vida, de liberdade mesmo não gostam.

    Responder

Hilux12

20 de agosto de 2020 às 19h19

Demostrou nada….kkkkkkkkk

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Jerson7

20 de agosto de 2020 às 19h09

E’ cada cretinice…tenham um minimo de respeito pela inteligencia de quem lé antes de escrever essas besteiras…

Se è para escrever qualquer cagada eu digo que a Mongolia teve 298 casos e 0 mortes contra as 22 da Nova Zelandia…

O virus nao entrou com a mesma força em todos os paises do Mundo e a Nuova Zelandia (por exemplo) é uma ilha no meio do oceano com pouco ou nada de contatos com o exterior, é obvio que o virus quase nao entrou por là. Alé disso cada Pais possui dinaimcas sociais, territorios, sistemas de saude, densidade populacional, etc…totalmente diferentes. O virus faz mais estragos onde entrou com mais força e nada o segurou.

Na Italia os casos vao crescendo novamente tanto que fecharam boates e afins poucos dias atràs e em bréve voltarà o frio com provavel novo contagio elevado.
A França com quase 5.000 novos casos diarios e a Espanha poucos dias atras voltou aos numeros de casos de março com 7500 novos contagios diarios e 125 mortes por dia.

Inventem outra palhaçada pois essa nao vai colar nunca, saiam da bolha de trogloditismo esquerdofrenico na qual se enfiaram…nao vai virar nada.

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    Pedro Breier

    20 de agosto de 2020 às 19h44

    Você parece estar querendo dizer que não há nenhuma relação entre as atitudes do Bolsonaro e o fato de sermos um dos países mais afetados pela pandemia, o que é obviamente ridículo. Quanto à sua fala de que a Nova Zelândia “é uma ilha no meio do oceano com pouco ou nada de contatos com o exterior”, o Brasil teve muito tempo para fechar aeroportos, ou mesmo simplesmente testar e colocar em quarentena quem chegava de viagem, mas não fez nada disso. Como você mesmo escreve, se nada segura o vírus, ele faz mais estrago. Se tivessem feito nada por aqui seria até melhor, porque o governo Bolsonaro trabalhou, isso sim, a favor da proliferação do vírus.

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      Jerson7

      20 de agosto de 2020 às 20h53

      Exato, nenhuma.

      O vírus fará o caminho dele de qualquer jeito.

      A pandemia foi declarada pela OMS em março, em janeiro o vírus já havia feito umas 3 voltas ao redor do Mundo.

      Os primeiros casos na Europa são de Dezembro e no Brasil em Janeiro.

      Apontar uma única pessoa por mortes devidas a inúmeros fatores médicos sociais, genéticos, etc… é respeitar a ciência…? Largue o binarismo ideológico pois tá te fazendo passar vergonha.

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      enriquelson

      20 de agosto de 2020 às 21h07

      Essa gente não sabe nem o significado do termo genocida e chegaram ao ponto de explorar a morte por fins políticos…sem resultado algum obviamente.

      Provavelmente não percebem mais a que ponto sem retorno a ideologia os levou.

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    Antonio Marcos

    20 de agosto de 2020 às 21h14

    O melhor é q no registro civil brasileiro, de janeiro a agosto desse ano há “só” cerca de 30mil óbitos totais a mais q no mesmo período do ano passado.
    Talvez já havia coronavirus ano passado….

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