Live do Cafezinho: balanço dos partidos de esquerda

É tempo de língua grossa (análise dos debates em Poa, SP e Rio)

Por Miguel do Rosário

20 de novembro de 2020 : 10h48

Analista político precisa de língua grossa, porque é muito comum que tenha de mordê-la.

Não há risco de spoiler. O final da história pertence ao eleitor, e haverá sempre o risco de uma reviravolta surpreendente.

Assisti aos debates realizados nesta quinta-feira à noite em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo.

Minhas impressões foram as seguintes.

Porto Alegre

Em Porto Alegre, Manuela D’Ávila (PCdoB) tem algumas qualidades que poderiam garantir sua vitória. O seu adversário, Sebastião Melo (MDB), foi inteiramente anulado pela energia da candidata. O contraste é brutal: Melo não tem projeto. Tentou ataques patéticos pelo antipetismo, como insinuar que Porto Alegre não tinha metrô porque o governo da “portoalegrense” Dilma preferiu fazê-los em Caracas, Venezuela. Quem iniciou o financiamento dos serviços de engenharia, para que empresas brasileiras, fizessem obras em Caracas foi Fernando Henrique Cardoso. É um debate velho. Se fosse mais esperto, Melo poderia até um fazer uma crítica melhor construída nesse sentido, de que faltaram, de fato, projetos mais audaciosos por parte do governo Dilma, para a obras de mobilidade urbana; por outro lado, seria difícil explicar o que Manuela D’Ávila ou seu partido tem a ver com isso, visto que nem um nem outro comandaram nem o BNDES, nem o Ministério dos Transportes. O PCdoB participou do governo, mas o MDB de Sebastião Melo tinha muito mais espaço e poder. E o MDB herdou o poder central após o impeachment. Manuela poderia, portanto, responder facilmente que, se não havia financiamento para metrô em Porto Alegre, o MDB de Melo tinha muito mais responsabilidade que ela.

Melo tentou atacar por outros flancos, como a acusação de que Manuela defende estatais. Ora, com as economias municipais e estaduais semi-destruídas pela pandemia, o discurso neoliberal perdeu boa parte de seu encanto. Cidadãos e empresários agora olham para a presença do Estado na economia com outros olhos.

Manuela tem um discurso para cultura com muitos projetos interessantes, incluindo aí um curioso “Adote um escritor”, visando dar apoio a criação literária, que me pareceu muito interessante.

A ex-deputada quase cometeu um excesso “identitário” ao tentar constranger o adversário com acusações de que seu programa não continha propostas específicas para a mulher. Melo começou respondendo bem, dizendo que suas propostas eram universais, mas rapidamente se enrolou, passou para a defensiva, e acabou repetindo platitudes idiotas sobre o tema, como a de que ele havia “se encontrado” com uma deputada mulher tal, que tal outra lhe apoiava, e que sua campanha tinha muitas mulheres.

Além disso, a candidata usou muito bem o fato de ter recebido apoio de vários partidos. Ela mencionou o PV, a Rede de “Marina Silva”, disse que incorporou projetos de “Juliana Brizola”.

As falas e a postura de Melo dão a impressão de que ele não tem nada de novo a oferecer. Apesar dele não ser ligado à prefeitura, a sua imagem é de alguém da situação. Toda a vantagem, o charme, a simbologia, de ser um candidato de oposição, ou seja, de mudança, pertence a Manuela.

Se essa clara superioridade retórica e moral pode fazer Manuela ganhar a eleição, isso veremos. As primeiras pesquisas ainda são ruins para Manuela. Paraná Pesquisas divulgada hoje dá quase 20 pontos de vantagem para Melo. Mas a essa altura é melhor não confiar demais em pesquisas e aguardar o que as urnas irão dizer.

São Paulo

A situação em São Paulo é mais equilibrada porque o atual prefeito, Bruno Covas, que tenta permanecer no cargo, apesar de ainda visivelmente fragilizado pelo tratamento contra o câncer, está fazendo um enorme esforço para se desvincular da imagem de um “reacionário”, “fascista”, ou mesmo ligado a Bolsonaro. Covas sabe que a esquerda estará de olho em qualquer movimento em falso de sua campanha para lhe aplicar uma surra política.

Entretanto, assim como ocorre em Porto Alegre, Boulos tem a seu favor todas as energias inerentes a quem um candidato de oposição. Covas não pode oferecer nenhum sonho, nenhuma novidade, nenhuma mudança. Boulos, sim.

O candidato do PSOL mostra, além disso, um domínio emocional impressionante. Ele ainda enfrenta um pouco de dificuldade no campo do carisma e do humor, qualidades que lhe fazem alguma falta. Boulos tenta sorrir, tenta rir, numa quase óbvia tentativa de desconstruir a imagem de um líder social sisudo, brigão, mas o sorriso fica amarelo. Talvez fosse melhor ele desistir desses sorrisos exagerados, e ser mais ele mesmo. Até porque não há muita coisa do que rir na eleição de SP. De qualquer forma, Boulos tem uma capacidade retórica incrível, que neutraliza essas supostas falhas de carisma.

Covas também foi razoavelmente bem no debate. Conseguiu sair pela tangente dos ataques mais diretos de Boulos, e marcou pontos positivos em diversos momentos. Outro tucano menos preparado, ou mais velho, teria desabado diante de Boulos. Doria teria sido mais agressivo, mais apelativo, usaria o máximo de clichês antipetistas. Covas tenta ser “elegante”, até porque o PSDB tem telhados de vidro demais no campo da corrupção, e Boulos saberia facilmente rebater os clichês lavajatistas com exemplos de prisão e denúncias contra políticos tucanos.

A pesquisa Ibope divulgada ontem à noite dá 12 pontos de vantagem para Covas. É uma vantagem que se estreitou bastante e dá perfeitamente para ser revertida por Boulos, que agora tem bastante tempo de tv e rádio, além de um trabalho brilhante nas redes sociais.

Rio de Janeiro

No Rio, já temos pesquisas que indicam uma vantagem de mais de 30 pontos de Eduardo Paes sobre Crivella, o que é um alívio, pois o atual prefeito parece ter abandonado qualquer escrúpulo. Um vídeo divulgado por ele mesmo faz acusações torpes e falsas a Eduardo Paes, dizendo que “o PSOL apoia Paes e que haverá ensino de pedofilia nas escolas”. É uma coisa grotesca. O debate realizado ontem, na Band, não se aborda esse tema grotesco, felizmente, mas o nível é baixíssimo. Tratou-se simplesmente de trocas de acusações e xingamentos. Paes chamava Crivella de “rei da mentira”, e Crivella rebatia com “madrinha da mentira”. Não creio que houve vencedores ou derrotados, o que beneficia Paes, já que ele lidera as pesquisas.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Ronei

20 de novembro de 2020 às 11h03

Analizar o que… ? As eleições nessas 3 cidades acabaram antes de começar.

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    Gilmar Tranquilão

    20 de novembro de 2020 às 15h39

    igual o governo bozo kkkkk

    Responder

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