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Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado.

Andrei Estivas: o dilema do senador Fabiano Contarato

Por Redação

19 de abril de 2021 : 11h09

Por Andrei Estivas

Nem todo o Brasil sabe, mas o Espírito Santo, um estado de tradição política conservadora, nos presenteou em 2018 com um dos melhores senadores da República.

Fabiano Contarato, 54, é delegado, e chegou ao Senado em sua primeira candidatura numa campanha muito eficiente, com uma estratégia montada ao entorno de seu histórico como policial, de combate aos crimes de trânsito (foi com ele que o Espírito Santo viu as mais robustas operações da “Lei Seca”) e um discurso de combate à corrupção e ao crime.

Desnecessário apontar a grande atenção que essas pautas atraíram nas eleições passadas. Sobretudo elas permitiram que o senador, mesmo sendo um progressista, conseguisse surfar na onda conservadora que levou Bolsonaro ao poder e, ironicamente, derrotar os candidatos organicamente bolsonaristas, como Magno Malta e Ricardo Ferraço.

Entretanto, após se eleger, Fabiano escolheu um lado e se mantém nele com muito vigor: é um dos senadores mais audaciosamente progressistas da Casa, e uma das vozes mais firmes de oposição ao governo Bolsonaro.

Com isso, não é difícil imaginar o nível de violência com que a parcela fanática e radicalizada que apoia o presidente, e que votou em peso em Contarato, achando que se tratava de um deles, ataca-o diuturnamente, a ele e sua família.

Recentemente, um movimento que já era há muito esperado finalmente aconteceu: Fabiano Contarato anunciou que se desfiliará de seu partido, a simpática Rede Sustentabilidade, argumentando que busca uma sigla com “mais enraizamento social” e que esteja mais à esquerda que a Rede. Movimento muito natural e, diga-se, lógico. Um senador dessa envergadura, se deseja se manter no cenário político, precisa aprofundar constantemente suas bases eleitorais e fincar raízes mais sólidas sobre os setores sociais cujos votos deseja fidelizar.

A questão delicada, no caso de Contarato, é que uma parte significativa desse eleitorado já desembarcou de sua base, frustrado com suas posições em defesa da vida, da ciência e, no limite, do nosso país. Mas nem todos os que restaram de seu eleitorado se reconhecem como “esquerdistas” ou algo do gênero. O Senador é a principal voz antibolsonarista no Espírito Santo e agrada a amplos perfis de centro e mesmo de uma direita democrática.

Levando em consideração os critérios que Fabiano Contarato declarou utilizar para encontrar uma nova casa, qualquer cálculo político que o senador faça levam, necessariamente, à seguinte conclusão: dos partidos com representação parlamentar, só estão “mais à esquerda” que seu atual partido, o PCdoB, o Psol, o PT, o PSB e o PDT.

Esses cinco partidos compõem, dessa forma, um leque preliminar de opções de legenda que poderiam abrigar seu mandato senatorial. E no belo Espírito Santo, só os três últimos possuem uma base social eleitoral mais significativa. É seguro afirmar, portanto, que são as três opções mais prováveis para abrigar o mandato de um dos melhores senadores do país.

Como de costume, o Partido dos Trabalhadores já dá como certa a filiação de Fabiano Contarato à legenda, e usa como principal trunfo o convite para lançar o Senador ao Governo do Estado em 2022, contra Renato Casagrande (PSB), que disputará a reeleição e é franco favorito no pleito.

Mas Casagrande é um dos melhores governadores do Brasil no combate à pandemia e é secretário geral nacional de seu partido, peça importante no xadrez político socialista. O ES é, inclusive, ao lado de PE e RJ, um dos três estados mais importantes para o PSB nacionalmente.

Não é segredo para ninguém que o PT nacional fará de tudo para fortalecer o palanque de Lula à presidência da República em 2022, e isso passa fundamentalmente por assegurar o apoio do PSB nacional, que certamente pedirá o apoio do PT à reeleição de Casagrande no ES como um dos preços pelo apoio ao ex-presidente. O próprio Lula já pediu ao partido que abra mão de candidaturas locais em prol da campanha ao Planalto. Então esse apoio à uma candidatura de Contarato ao governo do Estado corre sério risco de ser apenas uma moeda de troca.

Contarato tem um grande futuro pela frente, mas não é provável que haja espaço para ele como candidato ao governo do Estado em 2022, pois o atual governador, independente da aliança partidária que conseguir montar, já traz com ele o eleitorado progressista. Casagrande deverá enfrentar alguém do campo mais conservador, provavelmente aliado do presidente Bolsonaro.

Além disso, quem analisa o cenário político local tem o fundado receio de que, caso o senador se filie ao PT, traga consigo todo o ônus eleitoral desse movimento, terminando por romper com uma base importante do eleitorado antipetista que o elegeu mas que ainda o apoia por ter se tornado também muito crítica ao bolsonarismo. Por este raciocínio, um movimento menos brusco seria se filiar ao PSB ou ao PDT.

O Espírito Santo hoje vive uma situação política estável, com um bom senador e um bom governador. Com um pouco de estratégia e prudência, poderemos manter ou mesmo elevar a qualidade das nossas representações políticas em 2022, e, com isso, ajudar não apenas o povo capixaba, mas todo país!

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7 comentários

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Ricardo Marinho de Aquino

26 de abril de 2021 às 13h54

PDT hoje é cachorro morto, barriga de aluguel.

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Larissa

20 de abril de 2021 às 01h19

Pra ser ótimo atualmente basta se comparar com a tosquidao eleita. Acabou de ser eleito, óbvio não vai se meter com o atual governador (que é um lixo politicamente). Vai completar pianinho o mandato. Tomara que tenha bom senso e vá pro psol

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carlos

19 de abril de 2021 às 21h07

Preconceito não combina com trabalho, se ele prestou bons serviços seja como delegado, ou como senador ou em outro cargo isso é que dignifica qualquer administração.

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Alan C

19 de abril de 2021 às 13h26

Ótima matéria. Contarato é o melhor senador da república atualmente e é um raro exemplo de alguém que fez sucesso na sua área (polícia), foi pra política e se destacou mais ainda, seguindo firme nas suas ideias e ainda melhorando-as.
Um caso oposto é o do senador tb capixaba Marcos do Val, que fez fama por treinar a Swat Americana e o Mariners e hoje é um bolsominion tosco que acha que arma é a solução pra todos os problemas da humanidade.
É mero palpite, mas duvido que Contarato se filie ao PT capixaba. O PT tem uma fama pior que péssima no ES desde quando, ainda lá nos anos 90, Vitória teve o pior prefeito da história, Victor Buaiz, que de tão ruim rompeu até com o próprio partido e terminou o mandato completamente sozinho.
Além disso, não vai ser candidato. Renato Casagrande tem muito prestígio e irá se reeleger com certa facilidade.

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    matheus

    19 de abril de 2021 às 17h37

    Um erro factual no seu comentário. O Victor Buaiz foi um ótimo prefeito em Vitória, o que ele fracassou foi como governador do ES. Depois dessa, o PT/ES virou um puxadinho do MDB/ES.

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Francisco José Valim Olmo

19 de abril de 2021 às 12h45

Dou gargalhadas até hj. Os imbecis votaram no contarato acreditando que por ele ser delegado, seria também bolsonarista. Despejaram votos nele em função disso. Logo após a eleição descobriram que o cara era gay e foi a maior revolta, afinal votaram vem um delegado macho, bolsonarista e agora descobriram a verdade. Mas uma lição ficou: bolsonarista só vota certo quando vota por engano.

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    Gilmar Tranquilão

    19 de abril de 2021 às 16h18

    O gado fala que só vota em macho mas votaram no filho viado do bozo kkkkkkkkkkkkk

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