Cafezinho das 3: por que as manifestações de domingo floparam?

Usando camisetas brancas, manifestantes protestam na Avenida Paulista — Foto: Amanda Perobelli/Reuters

A manifestação dos sapatênis

Por Miguel do Rosário

13 de setembro de 2021 : 08h19

Pesquisa feita entre manifestantes presentes ao ato Fora Bolsonaro, no dia 12 de setembro, na Avenida Paulista, traz números que nos ajudam a entender melhor o fiasco do evento, que reuniu cerca de 6 mil pessoas, segundo informações oficiais.

Vamos aos números brutos. Em seguida, uma análise rápida.

– 85% concordam que é preciso ampla aliança para impeachment de Bolsonaro.
– 38% não participariam de manifestação junto com PT.
– 33% não participariam de manifestação junto com a CUT.
– 31% não participariam junto com MTST.
– 37% se consideram de esquerda ou centro-direita.
– 34% de direita ou centro-direita.
– 16% votariam em Ciro no primeiro turno.
– 14% votariam em Lula no primeiro turno.
– Sergio Moro receberia 11%, Amoedo 8%, Doria 7%.
– 31% ainda não sabem em quem votar.
– Eventual segundo turno entre Lula X Bolsonaro, 54% votariam Lula, 40% anulariam o voto.
– Perfil médio de manifestantes do dia 12 eram mais jovem, mais escolarizado, mais rico e mais branco, do que os do dia 7 de setembro (na manifestação pró-Bolsonaro).
– Entre os manifestantes de 12 de outubro, 69% tinham até 44 anos, 79% tinham ensino superior completo ou incompleto, e 56% tinham renda familiar acima de 5 salários mínimos. A maioria dos entrevistados (67%) se declarou branca, enquanto os autodeclarados negros somaram 29%.
– Já entre os que foram à Avenida Paulista no feriado da Independência, 53% tinham mais de 45 anos, 43% tinham renda familiar maior que 5 salários mínimos e 60% tinham curso superior, completo ou incompleto.
– Ainda entre os apoiadores de Bolsonaro presentes à Paulista no dia 7 de setembro, 60% se declararam brancos e 33%, negros.

Análise: Os números confirmam o que todos sabiam. Foi essencialmente uma manifestação de eleitores da terceira e quarta vias.

A terceira via é Ciro Gomes, a quarta via ainda não escolheu um nome, e se vê hoje fragmentada entre Doria, Moro, Amoedo, e outros.

Na pesquisa realizada entre manifestantes, o percentual de votos dos principais candidatos da terceira e quarta via somou 42%, contra 14% de Lula e 31% de indecisos.

O antipetismo e o conservadorismo estavam bem representados na manifestação, como se constata pelos 38% que afirmaram não marchar ao lado do PT, os 34% que se declararam de direita, e os 40% que votariam nulo num eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro.

Não é surpresa encontrar eleitores com esse perfil numa manifestação organizada inicialmente pelo MBL, entidade marcada por seu ultraliberalismo e sua hostilidade à esquerda, especialmente ao PT.

O que mais chama atenção, porém, é o caráter fortemente elitista da manifestação, mais ainda do que se viu no Dia da Independência.

Segundo o levantamento, 56% tinham renda acima de 5 salários, 67% se declararam brancos, e 79% tinham ensino superior completo ou incompleto.

Com esse perfil dos manifestantes, espero não ofender ninguém ao dizer que foi uma manifestação de “sapatênis”.

Como a maioria dos eleitores não tem esse perfil mais elitizado, isso explica porque a terceira e quarta vias não decolaram nas pesquisas.

Seus candidatos ainda não despertam interesse no eleitor popular.

***

Trechos de reportagem da BBC Brasil, com pesquisa da USP, sobre a manifestação na Avenida Paulista no dia 12 de setembro:

(…) O levantamento, coordenado pelos professores da Universidade de São Paulo (USP) Pablo Ortellado e Márcio Moretto, entrevistou 841 manifestantes e tem margem de erro de 4 pontos percentuais para mais ou para menos.

Uma pesquisa com os participantes do ato da Avenida Paulista deste domingo mostra que a resistência é mútua: embora 85% dos entrevistados tenham concordado que “para o impeachment de Bolsonaro, é preciso uma ampla aliança que vai da direita à esquerda”, 38% disseram que não participariam de uma manifestação junto com o PT.

Outros 33% responderam que não ocupariam as ruas ao lado da CUT, e 31% não protestariam com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Apesar disso, o ato da Avenida Paulista conseguiu atrair parte dos antigos adversários do MBL e do Vem Pra Rua. Segundo a pesquisa da USP, 37% dos entrevistados se disseram de esquerda ou centro-esquerda e 34%, de direita ou centro-direita.

(…) foi frequente nos atos deste domingo a presença de manifestantes com faixas e camisetas “Nem Lula, Nem Bolsonaro”.

E, ao lado de um caminhão de som do Vem Pra Rua na Avenida Paulista, foi inflado um boneco de Lula e Bolsonaro abraçados — o petista vestido de presidiário e o presidente com uma camisa de força.

Embora tenham comparecido políticos de peso — como os pré-candidatos à Presidência da República Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB, governador de São Paulo), e Alessandro Vieira (Cidadania, senador) —, o público desse domingo ficou abaixo dos atos em apoio a Bolsonaro de 7 de setembro e de protestos contra o presidente convocados por movimentos de esquerda nos últimos meses.

O levantamento da USP também investigou a intenção de voto para a disputa presidencial de 2022.

Ciro Gomes (PDT), que esteve presente na Avenida Paulista, apareceu em primeiro lugar (16%), seguido de Lula (14%) e do ex-juiz e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro (11%).

João Amoedo (Novo) e João Doria (PSDB), que também participaram do ato em São Paulo, aparecem com 8% e 7%, respectivamente. Outros 31% afirmaram não saber em quem votar.

As pesquisas de intenção de voto que têm sido realizadas nacionalmente nas últimas semanas indicam que, se a eleição presidencial fosse hoje, o segundo turno seria entre Lula e Bolsonaro.

Considerando esse cenário, 54% dos manifestantes no ato da Avenida Paulista responderam à pesquisa da USP que votariam em Lula, enquanto 40% disseram que anulariam ou votariam em branco (…)

Os pesquisadores da USP também investigaram o perfil dos manifestantes que foram as ruas de São Paulo no 7 de setembro.

Os resultados das duas pesquisas mostram que o público que compareceu à Avenida Paulista neste domingo (12/9) era, em média, mais jovem, mais escolarizado, de maior renda e mais branco que os apoiadores de Bolsonaro.

Entre os manifestantes de 12 de outubro, 69% tinham até 44 anos, 79% tinham ensino superior completo ou incompleto, e 56% tinham renda familiar acima de 5 salários mínimos. A maioria dos entrevistados (67%) se declarou branca, enquanto os autodeclarados negros somaram 29%.

Já entre os que foram à Avenida Paulista no feriado da Independência, 53% tinham mais de 45 anos, 43% tinham renda familiar maior que 5 salários mínimos e 60% tinham curso superior, completo ou incompleto.

Naquele dia [7 de setembro], 60% se declararam brancos e 33%, negros.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Zulu

13 de setembro de 2021 às 12h52

PDT, PCDOB, CIDADANIA,PSDB…tinha sò esquerda nessasrepresentaçoes coreograficas.

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Tony

13 de setembro de 2021 às 11h59

Bolsonaristas e lulistas realmente não gostaram desse movimento.

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Tiago Silva

13 de setembro de 2021 às 08h53

Manifestação Higienista de Higienópolis… Kkkkk

Desse balaio de gatos pingados de sapatênis que estavam na Av. Paulista… Apenas Datena e o corrupto poliriqueiro de Sérgio Moro conseguiriam angariar votos do povão.

Hoje os Filhotes do Mercado (adolescentes alguns até com mais de 30 anos, classe média radicalizada e com nível superior principalmente de faculdades privadas) estão em disputa por MBL, Ciristas e Partido Novo.

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