
Por Rollo — escrevendo direto da calçada da Lapa, onde o agora não espera, o passado não se comporta e a cidade ainda acontece antes de virar legenda
A Lapa não é “point”, nem “circuito”, nem “friendly”. A Lapa é território. Ali ninguém pede desculpa por existir, ninguém pede licença pra beijar na boca e ninguém precisa provar que é “do bem” pra entrar. Antes do marketing arco-íris, antes do pix, antes da moral seletiva, a Lapa já era gay por sobrevivência, por mistura e por desejo. Quem entende isso, fica. Quem não entende, chama de bagunça. E talvez esteja certo — porque foi nessa bagunça organizada que muita gente aprendeu, pela primeira vez, que viver fora do armário também pode ser viver no mundo.
A Lapa, no Rio de Janeiro, nunca dormiu direito. Ela cochila. E cochilar, convenhamos, é muito mais inteligente que dormir. Dormir é luxo burguês. Cochilar é estratégia de sobrevivência. Um olho fechado, o outro aberto, sempre desconfiado — como quem já foi acordada à força, com cassetete moral, decreto higienista e sermão fora de hora. Quem anda por ali à noite sente: o chão fala. E não é metáfora poética pra disfarçar texto ruim. É sensação física mesmo. O calçamento range. As paredes escutam. Cada esquina já viu coisa demais pra fingir inocência. Cada bar sabe histórias que jamais passariam num edital, muito menos num post institucional com fonte neutra.
A Lapa é o lugar onde o Rio arrancou a fantasia de cidade-cartão-postal, jogou no chão e decidiu viver sem pedir desculpa. Sem legenda. Sem filtro. Sem “conteúdo patrocinado”. Talvez por isso ela tenha virado o que virou: o maior território LGBT do Brasil. Não por decreto. Não pelo pink-money. Mas por insistência e teimosia organizada. Ali, gente rica divide calçada com quem não tem CEP fixo. Corpo branco dança com corpo preto sem pedir autorização ao algoritmo. Nordeste conversa com Zona Sul sem apresentar currículo. Artista, trabalhador informal, drag, ator, prostituta, estudante, político discretamente enrustido, turista curioso — todo mundo misturado como a cidade nunca ousou misturar de dia. E não é mistura decorativa. É mistura de verdade.
A Lapa é território assumidamente gay. Não “gay-friendly”. Não “tolerante”. Gay mesmo. Onde todas, todos e todes se cruzam, se reconhecem, se olham sem legenda e — pasme — se desejam. Onde beijo na boca não pede autorização. Onde mãos se encontram sem desculpa. Onde a pegação acontece como linguagem social, e o que alguns chamariam de dogging aparece menos como fetiche importado e mais como sinal de uma cidade que ainda permite o encontro real. Onde, depois do riso, do drink barato, da música alta e da conversa atravessada, muita gente simplesmente parte junta para algum outro lugar — qualquer lugar — para o exercício simples, ancestral e político do amor carnal consentido.
Sem culpa. Sem encenação. Sem pedir desculpa à moral alheia. A Lapa virou um mundo real, não um gueto. E isso incomoda profundamente. Porque não é “bairro temático”. Não tem curadoria. Não tem regra clara. É vida acontecendo no improviso: com falha, atraso, gargalhada fora de hora, beijo torto, língua rápida, promessa que talvez não se cumpra e ressaca moral no dia seguinte.
Madame Satã passa por aqui

Se existe um espírito que entende a Lapa, esse espírito atende por Madame Satã. João Francisco dos Santos atravessou o século XX como quem atravessa um ringue depois de uma noite mal dormida: apanhando, revidando, tropeçando, dançando — e ainda saindo de salto. Negro. Pobre. Gay. Nordestino. Um erro estatístico para o Brasil oficial. Na Lapa, virou mito. Madame Satã não queria ser símbolo. Não pediu placa. Não solicitou homenagem póstuma. Ele só queria existir do jeito dele — o que, naquele país, já era crime suficiente. Seu corpo virou manifesto sem precisar escrever tese. A performance virou proteção. A audácia virou método de sobrevivência. Quando a polícia batia, ele ficava. Quando a moral apontava o dedo, ele rebolava. Quando mandavam calar, ele cantava mais alto — às vezes desafinado, mas nunca em silêncio. Isso não é folclore. É fundação. A Lapa não nasceu boêmia por acaso. Ela foi construída na base do enfrentamento elegante, da ironia afiada e da cafajestagem necessária. Foi ali que a vida gay carioca aprendeu a se organizar antes de saber que isso se chamava política, quando política ainda era palavra feia e orgulho era artigo de luxo. Bares mudavam de nome. Portas mudavam de lugar. Entradas viravam fundos. Senhas circulavam em sussurros dignos de filme noir tropical. O risco era constante. Mas o desejo era maior. Desejo de corpo. Desejo de encontro. Desejo de não viver escondido.
A Lapa ensinou uma lição que o Brasil ainda se recusa a aprender: mistura não enfraquece — fortalece. Por isso virou esse território vivo, pulsante, contraditório, às vezes sujo, às vezes bonito demais pra caber numa foto quadrada. Um espaço onde a comunidade LGBT não ficou isolada numa redoma higienizada, mas misturada ao mundo, com todas as tensões, conflitos, amores improváveis, transas possíveis, quedas feias e ressacas emocionais que isso implica. E talvez por isso mesmo a Lapa seja tão atacada. Tão romantizada. Tão mal compreendida.
Uma estátua para quem nunca se curvou
Às vezes penso — e aqui não tem nada de ironia — que a Lapa devia marcar os 50 anos da morte de Madame Satã do jeito certo: com uma estátua dele, iluminada cenicamente, na Praça Luana Muniz — aquele pedaço de chão que antes se chamava Praça João Pessoa, mas que a própria Lapa tratou de rebatizar com mais verdade histórica. Em pé. Corpo erguido. Nada de pose de herói clássico. Nada de verniz monumental. Até porque a Lapa já entende bem de santos fora do catecismo. Ali, aos pés dos Arcos, existe um santuário dedicado a Zé Pelintra, malandro de paletó branco, gravata vermelha e ética própria. Faltaria apenas esse outro guardião da noite. Uma estátua menos para congelar o mito e mais para lembrar o método. Um recado silencioso — porém bem claro — para quem passa, para quem governa, para quem insiste em higienizar a cidade: esse território existe porque alguém ousou existir quando isso ainda dava cadeia, tapa e silêncio forçado.
O que a Lapa nos devolve
E talvez seja por isso que, doa a quem doer, a Lapa seja melhor que a Farme de Amoedo. Porque ali ninguém faz carão permanente como se estivesse num catálogo humano esperando aprovação. Ninguém mede valor em PIX, em networking, em quem é “bem relacionado” ou “bem resolvido espiritualmente”. Na Lapa, o corpo chega antes da pose. O afeto vem antes da moral. O desejo vem antes da explicação. Ninguém pergunta quanto você ganha — pergunta se você fica. Se fica mais um pouco. Se atravessa a rua junto. Se continua a noite em outro lugar qualquer. É imperfeita. Ruidosa. Desigual. Às vezes dura. Às vezes perigosa. Mas é real. E num país que insiste em transformar tudo em vitrine, a Lapa segue sendo território. Não cenário. Não passarela. Território vivo. Onde Madame Satã não seria atração turística com horário marcado — seria só mais um, beijando na boca, rindo torto, sumindo na esquina, como quem nunca foi embora.
(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJna cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.


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