As críticas ao poder concentrado das grandes empresas de tecnologia ganharam visibilidade neste mês em Londres, onde um cartaz em um ponto de ônibus convocou usuários a apagarem suas contas no X, de Elon Musk, em reação à ferramenta de geração de imagens da inteligência artificial Grok. A ação, assinada pelo coletivo britânico “Everyone Hates Elon” e registrada em 13 de janeiro de 2026, dialoga com as conclusões de um novo relatório da Oxfam divulgado neste domingo (19), durante a abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos.
De acordo com o estudo, seis bilionários controlam nove das dez maiores plataformas de redes sociais do mundo. Em um campo ainda mais concentrado, três bilionários detêm quase 90% do mercado global de chatbots de inteligência artificial. Para a Oxfam, esse acúmulo de poder econômico e tecnológico tem impactos diretos sobre direitos civis, liberdades políticas e o funcionamento da democracia, ao permitir a manipulação do debate público e o monitoramento de opositores.
O documento, intitulado Resistindo ao domínio dos ricos, afirma que a expansão das plataformas digitais e da inteligência artificial, longe de ampliar inclusão ou participação democrática, tem reforçado a concentração de riqueza e influência. “Essas tecnologias, quando controladas por uma elite bilionária, deixam de ser ferramentas democráticas para se tornarem mecanismos de concentração de riqueza e poder”, aponta o relatório.
A diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, avalia que o cenário representa uma ameaça concreta ao regime democrático. “É urgente pensar na posse das redes sociais e das ferramentas de IA, porque há em curso uma tentativa de controle de narrativa, de reinterpretação da história e de limitação do acesso à informação”, afirmou ao Brasil de Fato. Segundo ela, a falta de regulação favorece o aprofundamento das desigualdades. “São setores altamente lucrativos, altamente poluentes e com poder de censura e vigilância”, disse.
O relatório destaca que o controle privado das grandes plataformas influencia diretamente o que bilhões de pessoas veem, leem e compartilham. Um dos exemplos citados é o do Quênia, onde autoridades teriam utilizado o X, antigo Twitter, para rastrear manifestantes durante protestos contra leis fiscais. A plataforma, adquirida por Elon Musk em 2022, é mencionada como caso emblemático de como empresas privadas podem impactar direitos coletivos.
Um estudo da Universidade da Califórnia, citado pela Oxfam, concluiu que o discurso de ódio aumentou 50% após a compra do X por Musk. Para a organização, episódios desse tipo evidenciam o uso das redes para disseminar desinformação, intimidar críticos e preservar privilégios econômicos e políticos. “Essas redes, sob controle de bilionários, não são apenas empresas. Elas se tornaram agentes políticos com capacidade de reprimir, censurar e distorcer o debate público”, afirma o relatório.
No campo da inteligência artificial, a concentração é ainda mais acentuada. Segundo a Oxfam, três bilionários controlam quase 90% do mercado global de chatbots, tecnologias já incorporadas a serviços de atendimento, mecanismos de busca e redes sociais. A organização alerta que, sem regras claras, esse domínio amplia o risco de manipulação em larga escala.
Viviana Santiago sustenta que a apropriação dessas ferramentas por grandes fortunas atende a uma estratégia de longo prazo de manutenção de estruturas de poder. Ela também chama atenção para o impacto ambiental do setor. “Esses setores concentram poder, produzem desigualdades e têm uma pegada de carbono gigantesca. Não podemos tratar como neutro o fato de que bilionários detenham essas ferramentas e os meios de comunicação”, declarou.
O relatório foi divulgado simultaneamente ao início do Fórum Econômico Mundial, realizado entre 19 e 23 de janeiro, em Davos, na Suíça. A edição de 2026 reúne cerca de 400 líderes políticos, 850 executivos de grandes empresas, quase 100 unicórnios e representantes do setor de tecnologia, sob o tema “Um espírito de diálogo”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participa do encontro neste ano. O Brasil é representado pela ministra do Planejamento, Simone Tebet, que deve integrar um painel sobre crescimento na América Latina, mantendo a prática adotada desde o início do terceiro mandato, em 2023.


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