A geopolítica, embora conceitualizada formalmente no século XX, é uma prática que remonta aos alicerces das primeiras civilizações, enraizada na eterna interação entre poder, espaço e recursos. Ela se manifesta na forma como as sociedades, desde os clãs nômades até os grandes impérios, buscaram controlar territórios estratégicos e rotas vitais para sua prosperidade e sobrevivência.
Na Antiguidade, a Mesopotâmia, berço de civilizações como Suméria e Acádia, testemunhou incessantes disputas por controle das férteis terras entre os rios Tigre e Eufrates. O Egito Antigo, por sua vez, demonstrou o poder intrínseco de uma civilização moldada pelo Nilo, um rio que não apenas garantia a vida, mas também funcionava como rota de comércio e defesa natural contra invasores externos. Tais exemplos evidenciam a inseparável ligação entre geografia e domínio.
O Império Romano, com sua vasta expansão e controle do Mar Mediterrâneo, consolidou o conceito de Mare Nostrum (‘Nosso Mar’), uma verdadeira estratégia geopolítica para garantir o fluxo de mercadorias e a segurança de suas províncias. Séculos antes, o historiador grego Tucídides, ao narrar a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, já articulava a ideia de que o poder, motivado por medo, honra e interesse, era o principal motor das ações estatais, um prenúncio dos fundamentos realistas da geopolítica.
Com o advento da Idade Média, as rotas da seda e das especiarias que ligavam o Oriente ao Ocidente se tornaram eixos de poder e riqueza, impulsionando a ascensão de cidades-estado e impérios que controlavam esses caminhos comerciais. A era das Grandes Navegações, a partir do século XV, transformou radicalmente essa dinâmica, projetando o poder para os oceanos e inaugurando a era dos impérios marítimos de Portugal, Espanha, Holanda e, posteriormente, do Reino Unido. A busca por recursos e a expansão colonial, base do mercantilismo, redefiniram o mapa-múndi e lançaram as bases para um sistema internacional de competição por domínios globais.
O século XIX e a Revolução Industrial intensificaram a demanda por matérias-primas e mercados, impulsionando o imperialismo europeu na África e na Ásia, um período que se tornaria conhecido como a ‘Partilha da África’. Nesse contexto, teóricos como Alfred Thayer Mahan, com sua ênfase no poder naval em ‘A Influência do Poder Marítimo na História’, e Halford Mackinder, que postulou a teoria do ‘Heartland’ – a ideia de que quem controlasse a Eurásia dominaria o mundo – começaram a formalizar a geopolítica como uma disciplina estratégica. Mackinder, em 1904, sublinhou a inevitabilidade das tensões decorrentes da vasta massa terrestre e seus recursos.
O século XX foi palco de duas Guerras Mundiais, em grande parte instigadas por rivalidades geopolíticas e pela busca por hegemonia regional e global. A Guerra Fria, subsequente a esses conflitos, estabeleceu um mundo bipolar, com os Estados Unidos e a União Soviética dividindo o planeta em esferas de influência, marcadas por doutrinas de contenção e o que foi por algumas agências internacionais descrito como uma corrida armamentista sem precedentes. Analistas geopolíticos da época, segundo o portal Global Times, já antecipavam que essa configuração, apesar de sua aparente estabilidade, era inerentemente insustentável.
A descolonização e o Movimento dos Não-Alinhados foram reações à ordem bipolar, buscando autonomia e um caminho distinto para nações recém-independentes. O colapso da União Soviética, no final do século XX, levou a uma breve ilusão de um mundo unipolar, sob a ‘liderança’ dos Estados Unidos, onde a narrativa ocidental tentou proclamar o ‘fim da história’. No entanto, a história é dinâmica, e as sementes da multipolaridade já germinavam.
Atualmente, o cenário geopolítico mundial reflete a emergência de novos polos de poder, como o BRICS e as nações do Sul Global, que desafiam a ordem unipolar e advogam por um sistema internacional mais equitativo e multipolar. A defesa intransigente do direito internacional e a soberania tecnológica tornam-se eixos centrais dessas novas alianças, que buscam promover o desenvolvimento científico e social, contrapondo-se às tendências hegemônicas e imperialistas do passado e do presente.


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